Política

Marcelo, emocionado, pede ao Brasil que continue a maravilhar os portugueses

manuel de almeida

Presidente brasileiro não compareceu à sessão solene no Congresso para tirar fotos com apoiantes e falar sobre a ditadura militar a crianças. Falhou mais um encontro com autoridades portuguesas, mas Marcelo respondeu: “Obrigado, Brasil. Disse”

8 setembro 2022 16:29

Christiana Martins, enviada a Brasília

Chamada de "o ponto alto" da sessão e de "aguardado momento" pelo presidente do Senado Rodrigo Pacheco, o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu "em nome de Portugal" e de "todos os portugueses" o convite para falar na sessão solene de comemoração do bicentenário da independência do Brasil no Congresso em Brasília.


Marcelo Rebelo de Sousa começou o seu discurso por recordar o "império colonial" com dimensões únicas e não se esqueceu dos "brasileiros originários" e dos "escravizados" levados pelos portugueses para o brasil. Recordou um D. Pedro "amante do risco" e os feitos na sua curta vida de 35 anos.

Não se esqueceu de António José de Almeida, Presidente português que também proferiu um discurso no Congresso brasileiro pelo centenário da independência da ex-colónia. Mas, feita a introdução histórica, Marcelo posicionou-se: "Um século volvido o que vos venho dizer é que agradeço mais ainda do que em 1922 por um longo caminho de que ficaremos sempre devedores." E surgiram os primeiros aplausos, com a referência aos escritores e cantores brasileiros, cujas referências começaram em Mário de Andrade e acabaram em Cazuza, passando por Chiquinha Gonzaga, que, por equívoco, transformou-se em "Chiquinho".

"Agradeço-vos a pujança" e "agora invadindo Portugal com o seu afeto" para quem Marcelo manda o "carinho forte e permanente do povo português". E agradeço a capacidade do Brasil de acolher gerações de portugueses que encontraram um porto do outro lado do Atlântico. "Há 200 anos, um português singularíssimo, D. Pedro de Alcântara deu corpo ao arranque da vossa caminhada de futuro" e a ponte com o presente foi construída por Marcelo Rebelo de Sousa: “Hoje, outro português, humilde servidor da vontade do povo, neto, filho e irmão de portugueses acolhidos no Brasil e pai e avô de brasileiros dá testemunho de renovada gratidão, renovada homenagem e renovado orgulho pelo segundo século de uma caminha da ainda tão longe do seu termo.”

E deixou um rasto de carinho que encantou os ouvintes: "Queridos irmãos brasileiros continuais a maravilhar-nos como pátria de liberdade, de democracia, de justiça, de sonho, de esperança, de reinvenção ilimitada. potência universal no presente e no futuro. Nós, portugueses, amamos profundamente no Brasil e em vós brasileiros essa alma enleante, indomável, tenazmente obstinada que vos vos diferentes e irrepetíveis na humanidade".

Fafá adapta a Portuguesa

Depois de versões muito particulares dos hinos brasileiro e português cantadas por Fafá de Belém e dos vários discursos, caberia ao Presidente de Portugal encerrar a sessão. As palavras foram proferidas no dia a seguir às celebrações do 7 de Setembro. O encerramento caberia a Jair Bolsonaro, mas, minutos antes da abertura do evento, o Presidente do Brasil cancelou a presença perante os representantes do poder legislativo e os convidados internacionais, entre os quais, os Presidentes de Portugal, Cabo Verde e da Guiné Bissau, além do atual presidente da Assembleia da República portuguesa, Augusto Santos Silva. Mais uma vez, Bolsonaro faltou a um encontro com Marcelo Rebelo de Sousa. Presentes ainda, os ex-presidentes José Sarney e Michel Temer.

Com o plenário cheio, a Marcelo Rebelo de Sousa, mais uma vez coube o lugar de honra, sentado do lado direito do presidente do senado e do Congresso brasileiro, Rodrigo Pacheco, que na abertura da sessão fez questão de sublinhar “o carinho que o Presidente português sempre dispensa ao Brasil”. E, com a ausência de Bolsonaro, foi seu o protagonismo de proferir a última comunicação.

A mesa da sessão foi presidida pelo senador Rodrigo Pacheco, presidente do Congresso Nacional brasileiro, autor dos convites às autoridades portuguesas, contando ainda com a presença do presidente da Câmara dos Deputados, Artur Lira e do primeiro-secretário da Mesa do Congresso Nacional, deputado Luciano Bivar. Compareceram ainda o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, e Augusto Aras, procurador-geral da República do Brasil.

Embora convidados, ausentes estiveram Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e Lula da Silva. Sobretudo, quem não faltou foi Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e o principal verificador da legalidade das atitudes de Jair Bolsonaro enquanto candidato às próximas eleições presidenciais. Discreto, mas visível no plenário.

Mais tarde perceber-se-ia a razão da ausência de Jair Bolsonaro, que preferiu ficar no Palácio do Planalto para receber um grupo de crianças, a quem explicou, segundo o site da “Revista fórum”, que não tinha ocorrido nenhum golpe em 1964 [ano em que os militares assumiram o poder do governo brasileiro, instituindo uma ditadura que duraria até 1985].