Política

Marcelo comenta "pacote equilibrado" de Costa: "O Governo segurou-se. Se isto se mantiver terão que abrir os cordões à bolsa"

6 setembro 2022 0:38

antónio pedro santos

Antes que o dia acabasse e antes de partir para o Brasil, Marcelo quis comentar o ‘pacote’ de Costa e agradecer a “ajuda” do PSD. “Gostaria que fosse mais ambicioso”, mas reconhece que “é bem pensado”

6 setembro 2022 0:38

Antes de partir para o Brasil, onde estará desta terça-feira até sexta nas comemorações dos 200 anos da independência daquele país, o Presidente da República quis dizer ao país o que pensa do pacote de medidas de apoio às famílias anunciado horas antes pelo primeiro-ministro e que ele próprio não tardou a promulgar.

Numa longa conversa com jornalistas, na rua, já a caminho da meia-noite, Marcelo Rebelo de Sousa fez a síntese: “É uma solução equilibrada.”

Eis o equilíbro: “Havia quem entendesse que devia ser um pacote mais pesado, ambicioso e duradouro e quem entendesse que havia o risco de se endividar mais o Estado português num ano tão de interrogação como é o ano que vem”. Marcelo reconhece que ele próprio “gostaria que (o pacote de apoios às famílias) fosse mais ambicioso” e percebe que muitos digam que “sabe a pouco”, mas compreende que ir mais longe “poderia ter custos muito elevados a prazo” e isso “viria a cair em cima de nós”.

O risco seria desestabilizar as contas públicas a partir do próximo Orçamento oe Estado e o Presidente antecipou o que poderia ser a reação dos “financeiros radicais, os estrangeiros e os cá de dentro” (Mário Centeno será um deles e bem avisou que era preciso prudência e evitar baixar impostos), sobretudo numa altura em que os juros estão a subir.

Marcelo recordou inclusive os tempos de José Sócrates para, no fundo, dizer que o PS aprendeu. Lembrou como, perante os riscos de uma recessão, a chanceler alemã disse que era preciso pôr dinheiro na economia e o Governo português aumentou o investimento público e, passados meses, tinha a Europa a dizer que afinal tinha gastado demasiado dinheiro. Agora, ressalvou o PR, o Governo não teve pressa em ser dos primeiros a tomar medidas e foi cauteloso,

“Ninguém sabe como vai ser o ano que vem”, reconheceu o Presidente, rendido ao facto de “o Governo se ter segurado um bocadinho” quando “vai haver uma reunião do BCE e a inflação está muito alta nos países do norte da Europa que, como sabemos se preocupam muito com o défice a dívida sobretudo dos países que têm fama de não cumprirem”.

“O Governo teve a preocupação de não dar argumentos a esse tipo de ataques”, justificou Marcelo, sem deixar de manter a porta entreaberta para uma eventual revisão de estratégia, caso a situação se mantenha ou venha a agravar-se no futuro.

“Se isto se mantiver, vão ter que abrir os cordões à bolsa”, afirmou. Para já, Marcelo Rebelo de Sousa cobriu a estratégia do Governo que, para fugir a “um esforço financeiro muito grande” no próximo OE, escolheu “concentrar em outubro, por uma única vez”, grande parte dos apoios.

O Presidente reconhece que, por não ser expectável que no ano que vem haja a folga que houve este ano pelo aumento da carga fiscal decorrente da inflação, tornar estes apoios desde já duradouros poderia trazer “compromissos incomportáveis”. E nesse sentido, se deu a taça da ambição ao PSD deixou a da prudência para o Governo. “O PSD apontou para uma baixa de impostos mais ampla”, afirmou sobre o pacote de apoios anunciado dias antes do Governo pelo maior partido da oposição. Para logo concluir que “o pacote do Governo é menos ambicioso em termos de impostos, mas é mais seguro porque ninguém sabe como tudo isto vai ser no ano que vem”.

Ao PSD, Marcelo Rebelo de Sousa deixou, no entanto, um elogio e um agradecimento: “O PSD ajudou imenso, por ter falado antes e porque abriu caminho, quer à entrega direta dos apoios às famílias (o que não aconteceu na pandemia), quer pela maleabilidade que demonstrou para aceitar aumentos da despesa pública, quando é o partido com uma autoridade especial nesta matéria desde os tempos de Pedro Passos Coelho". Para o Presidente “houve um acordo implícito” entre PSD e Governo, com o seu partido de sempre a revelar “sentido de Estado”.

Sobre as pensões e o facto de o Governo ter decidido antecipar já este ano o pagamento de metade do aumento que a lei o obriga a pagar decorrente da inflação, Marcelo Rebelo de Sousa alinhou com a tese defendida pelo primeiro-ministro, segundo a qual isso não beliscará o pagamento devido por lei aos pensionistas. Economistas vários convergiram, ao contrário, na denúncia de um expediente que no próximo ano deixará o aumento das pensões abaixo do que a lei prevê. Mas, uma vez o pacote promulgado, Marcelo escolheu alinhar com Costa.