Daniel Oliveira

Justiceiros e poderosos

15 junho 2019 0:01

Compreendo que muitas pessoas sentissem o seu estado de alma representado no desabafo de João Miguel Tavares no 10 de junho. Mas só quem não se lembra dos anos 80 e 90 é que romanceia um Portugal em que o jogo não esteve viciado pela desigualdade e pela corrupção e o elevador social passava do terceiro andar. O mérito não era mais premiado do que hoje, as expectativas é que eram mais baixas. E, sei da perplexidade que esta frase provoca, nunca houve menos corrupção do que hoje. Muitos dos políticos do passado, com os autarcas à cabeça, não sobreviveriam neste tempo. Felizmente, o sistema que maldizemos criou instrumentos legais e judiciais que permitiram destapar o que estava escondido. Isso resulta num paradoxo: quanto mais eficaz é o combate à corrupção mais ela é visível e mais deteriora a confiança dos cidadãos na democracia. E os megaprocessos, que dificultam a investigação mas enchem o olho, aumentam esta perceção. Para contrariar o efeito perverso, devemos evitar usar cada processo judicial como ilustração da decadência do sistema. É o oposto: mostra que o sistema está a funcionar. Mas uma aliança entre políticos populistas, jornalismo tabloide e alguns magistrados sedentos de protagonismo instalou a ideia de que entrámos em colapso moral. É o país da corrupção, repetido no 10 de junho. Sabemos pela história que, construída esta narrativa, é mais fácil propor soluções autoritárias. Essas sabem esconder os seus podres.

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