Opinião

A Revolução inicia-se na Educação: “A Navalha Mais Afiada Contra a Transfobia é o Conhecimento”

A Revolução inicia-se na Educação: “A Navalha Mais Afiada Contra a Transfobia é o Conhecimento”

Hilda de Paulo

Artista, curadora e investigadora

Eu – que falo desde o Brasil em Portugal – tenho na minha vivência a noção de que, desde o “principio”, nós fomos descritas pelos invasores como machos e fêmeas, porque homem e mulher são categorias civilizatórias a serem alcançadas. Isso porque a constituição do sexo biológico responde a um ordenamento de gênero que é binário (e não só binário, como também branco, cisheterossexual, cristão, magro, nacionalista, jovem, estático, sem deficiências e de classe média)

“Se antes era chamada de viado e passei a ser chamada de vaca, isso não é transição de gênero, mas uma traição do gênero. Mudei foi de espécie, de viado à vaca. E se antes não era humana, continuo não sendo.” A partir dessa irônica e sagaz afirmação da teórica travesti brasileira Dodi Leal, podemos refletir sobre como a categoria homem e mulher, como muita gente confia distinguir, são categorias coloniais. Eu – que falo desde o Brasil em Portugal – tenho na minha vivência a noção de que, desde o “principio”, nós fomos descritas pelos invasores como machos e fêmeas, porque homem e mulher são categorias civilizatórias a serem alcançadas. Isso porque a constituição do sexo biológico responde a um ordenamento de gênero que é binário (e não só binário, como também branco, cisheterossexual, cristão, magro, nacionalista, jovem, estático, sem deficiências e de classe média), visto que vai pensar justamente pênis e vagina como opostos complementares. Então, a partir dessa compreensão, sabemos que existiam machos e fêmeas e que para nós (pessoas não normativas) o gênero emerge como uma sobrecodificação colonial da inumanidade porque ele não nasceu atrelado à humanidade e, de diferentes modos e medidas, isso hoje ainda ecoa em nossas relações sociais.

Aprendi com a historiadora cisgênera guineense Joacine Katar Moreira [Leiam-na! Ouçam-na!] que precisamos descolonizar as metodologias. E, em debates pós-coloniais, com esse propósito, como acompanho muitos acontecendo no momento em Portugal, vejo somente pessoas cisgêneras a falar, mas, se a transfobia é um trauma colonial como o racismo também é, nós (pessoas trans) também devemos tomar a palavra nesses debates como sujeitas e não permanecermos como meras objetas de análise. Não é possível discutir somente gênero sem ao menos interseccionar o assunto com raça/etnia e classe.

A ativista travesti brasileira Jovanna Cardoso afirma que “precisamos seguir com a entrada da população trans nas universidades, como uma reparação histórica por conta de toda negação de direitos que sofremos, ao mesmo tempo em que reconhecemos a grandeza dos trabalhos desenvolvidos por pessoas trans que já estão nas universidades”. É evidente que muitas pessoas trans não vão conseguir sem práticas inclusivas a entrada na universidade e em muitos outros lugares e, por isso, precisamos criar métodos e estratégias políticas pra inserção e permanência. Brilhantemente, a Associação Casa T faz esse tipo de ação. Para quem não conhece, a Associação Casa T é a primeira casa de acolhimento de sociabilização e autonomização transvestigênere construída por e para pessoas transvestigêneres e/ou imigrantes e/ou racializadas de Lisboa. E o trabalho que deve ser feito é o de não tirar ninguém de determinado lugar [inclusive do trabalho do sexo], mas, sim, dar opções de escolha. Como diz a teórica e artista travesti brasileira Megg Rayara: “a navalha mais afiada contra a transfobia é o conhecimento”.

Hilda de Paulo (Inhumas-GO, Brasil, 1987) é travesti, artista e curadora, princesinha do cerrado defensora do transfeminista decolonial e autora do projeto Arquivo Gis, membra fundadora da Cia. Excessos e da eRevista Performatus, e organizadora e diretora da Mostra Performatus.

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