Opinião

Olha que não Daniel, olha que não!

António Filipe

António Filipe

Membro do Comité Central do PCP e professor universitário

2 maio 2022 15:21

O comunista António Filipe escreve uma carta a Daniel Oliveira para contestar as críticas que este fez ao PCP por causa da posição sobre a Ucrânia

2 maio 2022 15:21

Meu caro Daniel Oliveira,

Desde muito jovens que somos militantes de muitas causas e que nos cruzamos nesta vida. Encontramo-nos acidentalmente com alguma frequência, trocamos impressões com enorme cordialidade sobre os mais variados assuntos, fundamentalmente sobre a vida política, que acompanhamos apaixonadamente. Sabemos do que cada um de nós vai escrevendo e dizendo em público. Temos imensos amigos comuns e creio poder dizer que somos amigos. Concordamos muitas vezes e discordamos outras tantas, mas temos em comum o facto de, como escreveu José Fanha, trazermos o mês de abril “a voar dentro do peito”.

Na passada semana ouvi uma crónica na TSF onde atacas duramente o PCP a propósito do que consideras ser a sua posição sobre a Ucrânia. É certo que atacas a hipocrisia de outros partidos (designadamente o PSD e o CDS) por criticarem o PCP, quando fizeram o que fizeram sobre o Iraque, mas a centralidade da crónica é sobre o PCP e é isso que me merece reparo e, mais que isso, discordância.

Passo por cima da adjetivação: posição “inaceitável, esdrúxula, insuportável, revoltante”, nas tuas palavras. Entendo a violência destas qualificações como uma espécie de tributo a pagar ao macartismo reinante. Qualquer referência ao PCP sem ser nesses termos seria porventura entendida como contrária ao esforço de guerra do Ocidente e sujeita a todos os vitupérios nas redes sociais e fora delas.

A posição do PCP, em teu entender, merece essa qualificação, porque o PCP teria “posto em causa que houve uma invasão”, logo, isso equivale a uma não condenação. Ora, caro Daniel, nada legitima essa conclusão. Desde logo porque, se nem todos os dirigentes do PCP qualificaram a guerra da Ucrânia usando o termo invasão, houve outros, não pouco responsáveis (e nem me refiro a mim próprio), que o usaram. Mas mais importante que o termo usado, seja invasão, guerra, conflito, ou seja o que for, o facto é que não houve um único dirigente do PCP que se tenha pronunciado que não a tenha condenado.

É curioso que os comunistas, que sempre foram acusados pela comunicação social mainstream de dizerem todos o mesmo (a cassette) agora são acusados de dizer coisas diferentes, e como não usaram todos o substantivo comum “invasão”, foram condenados a não ter condenado aquilo que inequivocamente condenaram.

Adiante na tua crónica consideras que o PCP terá baseado a sua posição em três argumentos, a saber: a) a Ucrânia não é democrática; b) a questão da segurança da Rússia; c) a discordância com o armamento da Ucrânia.

São de facto três questões que o PCP tem vindo a referir e que são questões relevantes. O problema é que o PCP não apoia a invasão. Condena-a. E portanto, é totalmente abusivo dizer que o facto de alguém (neste caso, um partido) pretender contextualizar um assunto aduzindo factos que são deliberadamente ignorados pelo maniqueísmo reinante, significa apoiar uma invasão.

Mas vejamos cada um deles: que a Ucrânia não é democrática, que quase todos os partidos estão ilegalizados (o Partido Comunista desde 2014) e que forças político-militares assumidamente nazis foram integradas formalmente nas Forças Armadas ucranianas não é questão de opinião. É factual. Mas não ignorar isso, não significa apoiar uma invasão. Afirmas e bem, que o PCP não apoiou a invasão do Iraque apesar de Saddam ser quem era. Tens razão. O PCP nunca apoiou invasões externas para mudar regimes políticos, e no caso da Ucrânia também não apoia. Haverá em Portugal quem, depois de durante muitos anos ter colocado Putin num pedestal, o derrube agora para colocar Zelenski no seu lugar. Mas o PCP, que nunca colocou Putin em nenhum pedestal, também não se sente obrigado a erguer estátuas a Zelenski para expiar pecados que nunca teve.

A segunda questão diz respeito à segurança da Rússia. Escrevia Mário Soares em 2008, perante o alargamento da NATO para leste, que isso não poderia deixar de ser sentido pela Rússia como uma ameaça. Escreveu Kissinger também já há alguns anos que a Rússia nunca poderia consentir a entrada da Ucrânia na NATO. Não ignorar este facto é apoiar uma invasão? Não é. O vendaval de críticas ao PCP e a muitas personalidades que referem o alargamento da NATO para leste como uma das causas desta guerra não tem nada a ver com qualquer apoio à invasão da Ucrânia. Deve-se ao facto de os poderes dominantes, incluindo a comunicação social mainstream, não suportarem qualquer crítica ao papel da NATO, dos EUA e da UE enquanto potências agressivas e ameaças à paz mundial.

A terceira questão é o armamento da Ucrânia. A comparação que fazes com Israel e a Palestina tem toda a razão de ser, e só dá razão ao PCP. De facto, o PCP não podia ser mais solidário com o povo palestiniano, sujeito à mais ilegal ocupação, à mais brutal repressão e a um regime de apartheid que conta, como bem sabemos, com o apoio ativo dos EUA e com a complacência da UE, mas nunca passou pela cabeça de ninguém do PCP pensar que a resposta é armar a Palestina até aos dentes para que, perante a desproporção de forças existente, resista até ao último palestiniano.

Referes o apoio ao Vietname, mas aí a comparação é deslocada. A participação dos EUA na guerra do Vietname, em nome da luta contra o comunismo, resulta da decisão de envolvimento militar norte-americano destinado a impedir que o regime corrupto instalado no sul desse país fosse derrubado pelo seu próprio povo, o que acabou por acontecer à custa de muitos milhares de mortos.

Podemos continuar esta conversa, caro Daniel, um dia destes em que nos encontremos por aí, com a cordialidade de sempre, na concordância e na discordância, mas para já o mais importante é fazer o que se puder para que esta guerra termine tão brevemente quanto possível e para que não se instale entre nós, portugueses, um clima de intolerância que pode conduzir a resultados funestos.

Na tua crónica, Daniel, dizes muitas coisas acertadas, mas no que se refere aos fundamentos da crítica ao PCP, atrevo-me a recorrer a um clássico: olha que não, olha que não!

António Filipe