Opinião

A guerra política da pandemia, o corpo egoísta de Djokovic e a liberdade do privilégio

19 janeiro 2022 2:48

Djokovic tem direito a decidir o que é melhor para o seu corpo, mesmo que se baseie na ignorância. E o Estado tem direito a garantir a segurança e a liberdade de todos. O egoísmo como moral pública dominante está a ser testado pela pandemia. Sem cooperação não duraríamos um século. Por isso, a liberdade radical dos libertários só poderia ser um bem escasso, reservado ao privilégio. Mas não se pode dizer ao cidadão comum que a sua liberdade está limitada, se se permite no topo o que a ele se proíbe. Isto vale para Djokovic, Boris Johnson e todos a quem privilégio ofereceu hábito de viver uma liberdade nunca limitada pelos direitos dos outros

19 janeiro 2022 2:48

Novak Djokovic foi mesmo deportado da Austrália e perdeu, com isso, a possibilidade de atingir o recorde de 21 títulos em torneios de “Grand Slam”. Além disso, não disputará Roland Garros e o mesmo poderá suceder com o US Open. Do Grand Slam, sobra-lhe Wimbledon. E corre o risco de perder patrocínios. Como se viu no caso de Horta Osório, são as próprias empresas que reagem à pressão pública.

A história não se conta rápido, por isso confio que o leitor tenha acompanhado esta novela, com pormenores difíceis de avaliar. O tenista que acredita em xamãs, gurus, mecanismos de autocura do nosso corpo e sentimentos que têm a capacidade de mudar as propriedades da água fez muitas pesquisas na Net e, com a autoconfiança de um pouco de informação e nenhum conhecimento, recusou a vacina e anda sem máscara. Diz que é ele que decide fazer ao seu corpo. 

Quando chegou a Melbourne, a autorização especial para poder entrar sem vacina – não sendo claro que ele cumprisse os critérios –, que supostamente lhe permitia participar no Open da Austrália, não foi aceite pelos serviços de fronteiras e Djokovic foi enviado para um centro de refugiados, para deportação posterior. Mais tarde, Djokovic apresentou um certificado de recuperação que diz que já esteve infetado. Acontece que essa suposta infeção corresponde a um período em que participou em atos públicos e deu entrevistas, sem qualquer proteção. O Der Spiegel e o New York Times levantaram dúvidas quanto à autenticidade do certificado. Das duas uma: ou o tenista andou conscientemente a infetar pessoas quando tinha covid ou falsificou o documento. As duas igualmente graves. A que se junta o facto de ter viajado da Sérvia para Espanha em fins de dezembro, contrariamente ao que declarou às autoridades australianas.

Como sabem, Djokovic recorreu e o tribunal de primeira instância deu-lhe razão. O ministro da imigração voltou a retirar o visto, coisa aparentemente possível na Austrália. E, neste domingo, o Tribunal Federal decidiu-se definitivamente pela deportação. Djokovic não participa no Open, que começou na segunda-feira.

O pai de Novak comparou a situação do seu filho à da crucificação de Cristo, assim como os negacionistas comparam as medidas de proteção sanitária ao Holocausto. A falta de sentido das proporções faz parte da retórica de quem recusa a ponderação de valores como uma regra da vida em sociedade. E o nacionalismo sérvio excitou-se com a mesma irracionalidade com que se excitaria o português se o alvo fosse Cristiano Ronaldo. O presidente da Sérvia, um país onde quase metade da população está por vacinar, acusou a Austrália de querer atacar a sua nação.

Nigel Farage, antigo líder da extrema-direita britânica, que sempre se empenhou na proibição da entrada no Reino Unido de quem foge da pobreza ou da guerra, achou intolerável este limite à liberdade de Djokovic entrar na Austrália. É bom recordar que Farage sempre foi um grande adepto das políticas australianas de imigração. Mas, no Reino Unido ou em Portugal, a extrema-direita não trata os viajantes de luxo como os pobres desgraçados. Por cá, os mesmos que atacam os pouquíssimos refugiados que recebemos defendem a possibilidade de comprar o direito de residência através de “vistos gold”. Para a extrema-direita de todo o mundo, os pobres sempre foram associados ao perigo. E Djokovic, mesmo sem vacina, não traz perigo nenhum. Porque os ricos não infetam.

Novak Djokovic tem o direito a decidir o que é melhor para o seu corpo, mesmo que a sua decisão se baseie na ignorância. Mas essa decisão, por aumentar a probabilidade de contágios, afeta a saúde dos corpos dos outros. E qualquer Estado tem o direito a garantir a segurança e a liberdade de todos. A que lhes permite não ter de voltar a confinar, poder trabalhar e andar na rua.

Sei que ideias como o dever de pagar impostos para o bem comum, de financiarmos serviços públicos mesmo que o nosso dinheiro chegue para usar o privado ou que a solidariedade com o outro é um limite à nossa ambição solitária parecem caducas. A ideologia da meritocracia faz o privilegiado acreditar que o seu privilégio é um direito merecido e conquistado, do que só pode resultar que a ausência de privilégio (a pobreza, por exemplo) é igualmente merecida. Mas o egoísmo como moral pública dominante (primo direito do discurso meritocrático), que resulta do aumento da desigualdade e da ofensiva neoliberal, está a ser testado nesta pandemia. Se a liberdade é um valor estritamente individual, e não uma construção coletiva negociada, nada podemos contra este vírus. Porque ele não depende das defesas individuais, mas do grupo. 

Os humanos são um animal frágil e gregário. Sem defesas coletivas, estão condenados. Sem a cooperação, que impossibilita essa liberdade radical sem concessões, não duraríamos um século. E é por isso que a liberdade radical que os libertários de direita (que erradamente se autodenominam de “liberais”) defendem só poderia ser um bem escasso, reservado a uns quantos privilegiados. Aqueles que gritam pelo seu direito a não pagar impostos, a não cumprir leis de trabalho ou a não se vacinarem. Está tudo no mesmo bolo do egoísmo libertário do privilégio.

A Novak Djokovic não foi pedido nada que não tivesse sido exigido aos que viajam para a Austrália. É provável que o Estado australiano tenha estado mal, ao permitir que o Open da aceitasse autorizações médicas para desportistas entrarem no país ao arrepio das regras que impõe a todos, numa espécie de offshore sanitário que explica aos cidadãos que o que vale para ele não vale para quem tem poder ou rende dinheiro. Essa ideia também está a pôr em perigo o primeiro-ministro britânico, que participou em festas em Downing Street enquanto confinava os seus cidadãos. 

É provável que o governo australiano, que por acaso até é liberal e de direita, tenha transformado Djokovic num símbolo, o que nunca deve ser feito quando se aplica a lei. E que tenha usado excesso de força para evitar que o tenista desse um novo alento à resistência às vacinas. É provável que a lógica de confinamentos excessivos, na ilusão que de que se garantiriam ilhas sanitárias isoladas do mundo, que muitos defenderam para cá, tenha esticado de tal forma a corda que o tema se tornou irremediavelmente político. É até provável que a proximidade das eleições australianas tenha sido muitíssimo relevante neste braço de ferro.

Mas, no fim do dia, Djokovic não pode ser mais livre do que qualquer outro cidadão. O seu corpo não transmite menos vírus do que qualquer outro. O dinheiro e os títulos que conquistou não o transformam em mais do que é: um corpo humano onde um vírus se pode alojar e ser transmitido, afetando a liberdade e a saúde de terceiros. Por enquanto, não temos forma de impedir que isso aconteça, mas temos formas de reduzir o risco e os efeitos. Através da vacina.

Quem não se vacina, exercendo a liberdade da sua ignorância, limita a nossa liberdade. Porque, lembro de novo, somos e seremos um animal gregário, por mais que isso incomode aos que se sentem uma ilha. E não se pode dizer ao cidadão comum que, perante um vírus, a sua liberdade está limitada, se ao topo se permitir ao que a ele se limita. Isto vale para Novak Djokovic, Boris Johnson e todos a quem privilégio ofereceu hábito de viver uma liberdade individual nunca limitada pelos direitos dos outros.