Opinião

A reforma da Saúde Mental, o trabalho em equipa e as opções necessárias

20 abril 2021 12:17

A intervenção psicológica tem uma filosofia própria e objetivos específicos, marcados pelo pressuposto de que quanto mais alguém sabe sobre si próprio, sobre o que sente, o que pensa e o que faz, melhor poderá exercer a sua autodeterminação e deste modo promover o seu bem-estar. É este o tema do artigo de opinião de Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses

20 abril 2021 12:17

Uma crise, seja de que tipo for, gera sofrimento e é por isso um acontecimento negativo. Ninguém quer estar em crise já que, por norma, as pessoas não gostam de sofrer, pelo que é sempre melhor quando as crises não acontecem. Sabemos, por outro lado, que as crises são inevitáveis e que, mais tarde ou mais cedo, vamos ser confrontados com a necessidade de nos adaptarmos a algum acontecimento na nossa vida, e que esse processo não será isento de sofrimento.

A crise que vivemos hoje tem a particularidade de ser global, algo que terá tendência a acontecer mais vezes, dada a cada vez maior globalização do mundo em que vivemos. Mas, mesmo uma crise global tem consequências particulares para cada um de nós, independentemente de acontecer em função de um fenómeno coletivo. Serve esta introdução para tentar compreender, pelo menos em parte, o porquê de a saúde mental ter sido, até agora, o parente pobre dos cuidados de saúde.

A diversidade do ser-humano é uma das suas características centrais. Contudo, essa diversidade é claramente mais marcada no funcionamento cognitivo e emocional das pessoas do que no seu funcionamento, chamemos-lhe, biológico. Ou seja, a diversidade psicológica do ser-humano é claramente maior do que a sua diversidade somática. Aliás, até a diversidade dos sintomas físicos se fica a dever, em boa parte, à diferença psicológica das pessoas. Ora se a saúde psicológica e, por isso, a doença mental é tão heterogénea nas suas manifestações, torna-se mais difícil encontrar respostas que atendam as necessidades de um grande número de indivíduos, como acontece nos cuidados de saúde em geral. É mais difícil definir intervenções que funcionem com a generalidade das pessoas. Na saúde mental, e mais ainda na saúde psicológica, a norma é a exceção, ou seja, a norma é a intervenção personalizada. Esta lógica é contraditória com a dinâmica da democracia, em que as intervenções que beneficiam uma maioria de pessoas são tendencialmente privilegiadas.

A crise pandémica que estamos a viver, sendo má, promove algumas consequências positivas, e uma delas está relacionada com uma maior atenção a esta área, tão central, da saúde e da vida humana. As grandes consequências da pandemia não estão relacionadas com o efeito direto do vírus (com exceção para as pessoas que morreram), mas sim com a necessidade de alterarmos hábitos e práticas individuais como forma de controlar o nível de infeção e de reagirmos à consequências sociais e económicas da pandemia. Desde modo, vivemos uma crise global – dada a necessidade generalizada de mudança – com consequências individualizadas – sendo que o maior desafio é lidar com as consequências individuais e sociais dessa mudança. Esta necessidade destaca a importância da dimensão psicológica do funcionamento das pessoas, uma vez que disso depende a capacidade de adaptação da sociedade.

Temos por isso assistido a um conjunto de manifestações de intenção para investir, finalmente, na saúde mental e psicológica de uma forma integrada, e não apenas centrada num pressuposto de investimento na doença mental, como tem sido norma. Vemos os tradicionais responsáveis finalmente preocupados com a necessidade do trabalho em equipa, e não com o destaque de apenas uma classe profissional. Vemos finalmente os responsáveis a tentar compreender as diversas perspetivas pelas quais se pode e deve olhar o ser-humano, considerando o seu funcionamento psicológico. Vemos finalmente pequenos sinais de uma valorização do bem-estar psicológico das pessoas e não apenas do tratamento das doenças mentais. Vemos finalmente espaço para se aceitar que a melhor maneira de evitar a doença é promover a saúde psicológica das pessoas. Vemos finalmente algum eco para a ideia de que não se pode recuperar uma sociedade sem recuperar as pessoas e que não se recuperam as pessoas sem cuidados personalizados. Esperemos chegar ao momento em que vamos ver que este investimento nas pessoas é rentável a todos os níveis.

O Diretor do Programa Nacional de Saúde Mental, a propósito do anúncio de uma grande reforma para a saúde mental, deu um grande destaque à necessidade de promover uma intervenção em equipa e não privilegiar nenhuma classe profissional em detrimento de outras. Não podia estar mais de acordo.

Existem, contudo, duas condições centrais para que uma equipa possa funcionar. (1) Por um lado, é fundamental que cada elemento da equipa conheça bem o seu papel e tenha a possibilidade de o desempenhar. A equipa é necessária porque é composta por jogadores diferentes. Nenhum necessariamente mais importante que o outro, mas cada um com o seu papel, em função das suas características. (2) Por outro lado, é necessária uma boa liderança, sendo que a qualidade da mesma deve depender das características do líder, associadas ao contexto e aos objetivos da intervenção, e não do papel que esse elemento desempenha. Ou seja, o que deve determinar as lideranças não deve ser o tipo de profissional, se é psicólogo, psiquiatra, enfermeiro, assistente social, terapeuta ocupacional ou demais atividades, mas sim as qualidades de liderança que qualquer um deles possa ter. Cada elemento tem o seu papel, e cada um é fundamental para dar resposta à dimensão multifatorial da saúde mental, sendo que nenhum deles é mais relevante do que o outro.

A intervenção psicológica tem uma filosofia própria e objetivos específicos, marcados pelo pressuposto de que quanto mais alguém sabe sobre si próprio, sobre o que sente, o que pensa e o que faz, melhor poderá exercer a sua auto-determinação e deste modo promover o seu bem-estar. Os métodos e as técnicas utilizadas são também eles diversos e em alguns casos até partilhados com outros profissionais. Mas a filosofia da intervenção é única e exclusiva e está ao serviço do respeito pela dignidade das pessoas.

Quando se começa a falar com consistência de uma reforma para a saúde mental, tão urgente como necessária, importa reconhecer as especificidades das diversas intervenções, a importância da autonomia dos profissionais, incluindo as dimensões técnica, funcional e organizativa e, deste modo, promover a sua integração em equipas funcionais. Será necessário partir de uma organização pensada e estruturada de modo a que não se esteja refém de um modelo demasiado normativo e pouco flexível capaz de, por exemplo, em contexto da saúde, articular com diferentes áreas e não apenas com uma, aumentando o potencial da intervenção nas pessoas e nos seus contextos mais próximos.

As lideranças são centrais, devem ser próximas e merecer uma autoridade racional, partindo de um reconhecimento do papel de cada elemento e garantindo o respeito pelas competências de cada um. Por isso mesmo, temos que partir da autonomia de cada uma das profissões para chegar a uma melhor integração das mesmas no trabalho com as pessoas. Que sentido pode fazer um conjunto de profissionais ser coordenado por outros que intervêm a partir de paradigmas e filosofias distintas?

Um grupo é um conjunto de indivíduos que podem não acrescentar nada. Uma equipa é também um conjunto de elementos, mas que interagem entre si de uma forma coordenada e intencional, em que o todo poderá de facto ser maior do que a soma das partes. Os psicólogos estão disponíveis para contribuir neste investimento nas pessoas, promovendo uma sociedade mais diversa, inclusiva e confiante nas suas capacidades.