Internacional

Assembleia da ONU: líderes africanos preocupados com o terrorismo, Israel defende "ameaça militar" contra o Irão

22 setembro 2022 21:53

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

epa/jason szenes

No terceiro dia em que líderes mundiais se reúnem em Nova Iorque para a Assembleia-Geral das Nações Unidas, Israel deixou acusações ao Irão e um apelo à comunidade internacional para recorrer a força militar caso o país obtenha armas nucleares. Ao nível da segurança, a Guiné-Bissau pediu apoio no combate ao terrorismo em África, que tem sido uma preocupação crescente na região do Sahel

22 setembro 2022 21:53

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

Um dia depois de o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ter prometido que tudo fará para evitar que “o Irão tenha (mais) armas nucleares”, foi a vez de Israel lançar alertas contra esse cenário. Na Assembleia-Geral das Nações Unidas a decorrer em Nova Iorque, o primeiro-ministro de Israel não poupou nas críticas ao Irão ao longo de uma intervenção que durou mais de vinte minutos. “É uma ditadura assassina que está a fazer todos os esforços para conseguir armas nucleares. Se o regime iraniano conseguir uma arma nuclear, vai usá-la. A única forma de prevenir que o Irão obtenha armas nucleares é com uma ameaça militar credível”, defendeu Yair Lapid.

Em 2015, Alemanha, França, Reino Unido, Rússia, China e os Estados Unidos criaram um acordo com o Irão, para o país limitar o seu programa nuclear em troca do levantamento de sanções económicas. Anos depois, o então Presidente norte-americano, Donald Trump, abandonou o pacto. Entretanto, a possibilidade de o acordo ser reativado levou a novas negociações que ainda não tiveram um desfecho. De acordo com a Associated Press, na segunda-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros francês disse que a janela de oportunidade para o Irão aceitar a última proposta em cima da mesa “está quase a fechar-se”.

A possibilidade de um acordo nuclear tem aumentado as tensões entre o Irão e Israel, que defendeu, na Assembleia Geral da ONU, que só depois de ser imposta uma ameaça militar é que deve ser negociado um acordo com o país. “Deve ser tornado claro ao Irão que, se avançar com o seu programa nuclear, o mundo não vai responder com palavras, mas com força militar”, comentou Lapid.

As acusações de que o regime do Irão “odeia judeus, odeia mulheres, odeia homossexuais, odeia o Ocidente”, foram precedidas de argumentos em que Israel se tentou desviar de críticas contra a sua própria atuação, no âmbito do conflito com a Palestina. Yair Lapid descreve Israel como uma “democracia liberal forte” e alega que o país é vítima de ataques de desinformação. O primeiro-ministro garantiu que é a favor de um acordo com os palestinianos para a criação de dois Estados. Dirigindo-se à população de Gaza, afirmou que Israel está disposto a ajudá-la a “construir uma vida melhor”, sob a condição de baixarem armas e provarem que o Hamas e a Jihad Islâmica “não vão assumir [o poder] do Estado Palestiniano que querem criar”.

A intervenção em que destacou os ataques contra Israel e em que garante que tem a paz como objetivo foi marcada pela ausência de referências aos ataques na direção oposta. A Amnistia Internacional indica que, em resultado do conflito armado entre as duas partes, pelo menos 242 palestinianos foram mortos em 2021, incluindo 63 crianças. Já em 2022, Israel foi alvo de críticas por parte de especialistas da ONU, depois de o exército israelita ter encerrado gabinetes de organizações humanitárias palestinianas.

Pedido de ajuda contra terrorismo

De países africanos foram manifestadas preocupações com organizações terroristas. A inquietação é justificada. Quase metade de todas as mortes resultantes de ações terroristas acontecem na África Subsariana. De acordo com o Índice de Terrorismo Global de 2022, do Instituto para a Economia e Paz, o Daesh e os grupos afiliados passaram a focar-se nesta zona, em particular na região do Sahel. O crescimento do terrorismo parece ter ligação à crise ambiental, já que os países com maior degradação ecológica estão entre os que registam mais violência. Mas, perante o impacto da pandemia nas economias africanas, o relatório alerta que a capacidade dos países financiarem estratégias de combate ao terrorismo foi afetada.

O pedido de ajuda à comunidade internacional está lançado. “Precisamos da ajuda internacional para travar o avanço do terrorismo na África Ocidental e em toda a zona do Sahel”, afirmou Úmaro Sissoco Embaló, Presidente da Guiné-Bissau. Embaló frisou que a estabilidade do continente, e em particular da África Ocidental, “está ameaçada pela insegurança causada pelo terrorismo, o extremismo violento e a criminalidade transnacional”.

Embaló também aproveitou a sessão para frisar as dificuldades sentidas em África com a guerra na Ucrânia. “A inflação e o aumento dos preços dos cereais e outros produtos alimentares básicos, agravou consideravelmente uma situação alimentar já bastante difícil”, observou.

Um dos países mais afetados pelo aumento de mortes decorrente do terrorismo foi o Níger. Em 2020, as mortes mais do que duplicaram, ascendendo a 588 perdas. O Presidente do país, Mohamed Bazoum, destacou no seu discurso que a forma mais segura de combater a violência “é reforçar a democracia”, mas não deixou de observar a necessidade de destinar recursos ao aumento das forças de segurança, aquisição de equipamento e reforço das competências dos soldados.

Preocupação recorrente entre as intervenções da sessão desta quinta-feira em Nova Iorque, as forças extremistas no Sahel foram também um dos focos de Azali Assoumani, Presidente das Comores, que alertou ser “perigoso permitir que nasçam focos de tensão que depois se tornam terrenos férteis à expansão do terrorismo internacional”. No entanto, deixou uma mensagem clara de que não deve haver uma responsabilização religiosa: “estes grupos que ameaçam a paz no mundo não são muçulmanos”.