Internacional

“Se o mercado de fertilizantes não for estabilizado, o problema pode ser o abastecimento de alimentos.” Crises mundiais em debate na ONU

20 setembro 2022 20:31

Margarida Mota

Jornalista

Durante o discurso de António Guterres, diante da Assembleia Geral da ONU, foi projetada a foto do navio Brave Commander que transportou cereais, através do Mar Negro

brendan mcdermid / reuters

A Rússia faz parte da solução para que se inverta o agravamento da crise alimentar à escala global. O secretário-geral da ONU considerou “essencial continuar a eliminar todos os obstáculos remanescentes à exportação de fertilizantes russos”. Guterres falava no primeiro de seis dias de debate, a marcar o início na 77ª Assembleia-Geral da organização, onde o Brasil é, há décadas, o primeiro a discursar. Depois do aproveitamento político que fez da sua deslocação a Londres, Jair Bolsonaro foi a Nova Iorque exaltar as conquistas do seu Governo e explicar porque deve ser reeleito

20 setembro 2022 20:31

Margarida Mota

Jornalista

O ritual cumpre-se ininterruptamente desde 1949. Na agenda da Assembleia-Geral das Nações Unidas, há uma semana do ano dedicada a ouvir os chefes de Estado ou de Governo dos Estados-membros — que preocupações os atormentam e que apelos têm a fazer à comunidade internacional.

Com uma guerra em curso na Europa, uma crise económica global agravada por uma pressão inflacionista — desencadeada pela subida dos preços da energia, dos alimentos e das matérias-primas —, e ainda as alterações climáticas a não darem tréguas, “o nosso mundo está em apuros”, alertou, esta terça-feira, o secretário-geral da organização.

António Guterres, que foi o primeiro a fazer-se ouvir na sessão de abertura da 77ª Assembleia -Geral, identificou a disrupção na cadeia de abastecimento de alimentos como uma das principais emergências do momento.

“Para aliviar a crise alimentar global, devemos abordar urgentemente a crise do mercado global de fertilizantes. Este ano o mundo tem comida suficiente; o problema é a distribuição. Mas se o mercado de fertilizantes não for estabilizado, o problema, no próximo ano, pode ser o próprio abastecimento de alimentos”, avisou o português.

Fertilizantes russos não estão sujeitos a sanções

Para inverter a tragédia que se adivinha, o líder das Nações Unidas considera “essencial continuar a eliminar todos os obstáculos remanescentes à exportação de fertilizantes russos e dos seus ingredientes, incluindo amónio”. Guterres lembra que “esses produtos não estão sujeitos a sanções”.

O desbloqueamento dos fertilizantes russos foi um dos pontos da recente Convenção de Istambul — popularizada como Acordo dos Cereais —, assinada a 22 de julho, após mediação do secretário-geral da ONU e do Presidente da Turquia. Esta terça-feira, Recep Tayyip Erdogan considerou esse pacto “uma das grandes conquistas das Nações Unidas nos últimos anos”.

Cumprindo uma tradição de décadas, o Presidente do Brasil foi o primeiro chefe de Estado ou de governo a intervir no debate geral

Cumprindo uma tradição de décadas, o Presidente do Brasil foi o primeiro chefe de Estado ou de governo a intervir no debate geral

jason szenes / epa

No uso da palavra, Jair Bolsonaro demonstrou de que forma o país a que preside pode ajudar a combater o problema alimentar. “Este ano, o Brasil já começou a colheita da maior safra de cereais da nossa história. Estimam-se, pelo menos, 270 milhões de toneladas. Em poucos anos, o Brasil passará de importador a exportador de trigo”, disse o chefe de Estado brasileiro.

Na linha do que defendeu Guterres, Bolsonaro transmitiu a ideia de que combater a crise global passa muito por aliviar a pressão económica à Rússia, decorrente da invasão da Ucrânia.

“Somos contra o isolamento diplomático e económico”, disse. “As consequências do conflito já são sentidas nos preços mundiais de alimentos, combustível e outras matérias-primas. Essa situação afasta-nos dos objetivos de desenvolvimento sustentável. Países que se apresentavam como líderes da economia de baixo carbono passaram a usar fontes sujas de energia. Este é um revés grave para o meio ambiente.”

Brasil é sempre o primeiro a discursar

Correspondendo a uma tradição iniciada em 1947, o Brasil é sempre o primeiro dos membros da ONU — atualmente 193 — a intervir no debate geral, que este ano decorre se vai prolongar até à próxima segunda-feira. Nesse ano, foi o ministro dos Negócios Estrangeiros brasileiro, Osvaldo Aranha, que presidiu à primeira sessão especial da Assembleia-Geral e à segunda sessão ordinária.

Após uma polémica deslocação a Londres, para assistir ao funeral da rainha Isabel II, onde Bolsonaro — em campanha para as presidenciais de 2 de outubro — foi acusado de aproveitamento político, o brasileiro foi a Nova Iorque aproveitar os holofotes das Nações Unidas para exaltar como o país que lidera está no bom caminho.

Afirmou que, durante a pandemia, o seu Governo “não poupou esforços para salvar vidas e preservar empregos”, tem realizado “reformas para atrair investimentos “, “dissipou a corrupção sistémica que existia no país” e tornou o Brasil o sétimo país mais digitalizado do mundo.

“A economia voltou a crescer. A pobreza aumentou em todo o mundo devido ao impacto da pandemia. No Brasil, ela já começou a cair de forma acentuada”

Jair Bolsonaro
Presidente do Brasil

Ultrapassando largamente os 15 minutos atribuídos a cada orador, Bolsonaro não poupou nas palavras e ainda elogiou o trabalho da sua equipa na preservação do ecossistema da Amazónia.

“Dois terços de todo o território brasileiro permanecem com vegetação nativa, exatamente como quando o Brasil foi descoberto, em 1500. Na Amazónia brasileira — uma área equivalente à Europa Ocidental —, mais de 80% da floresta permanece intocada, ao contrário do que é noticiado pelos grandes órgãos de informação nacional e internacional.”

“Guerra suicida contra a natureza”

Guterres não deixou escapar o momento para, pela enésima vez, abordar o tema que tem sido uma das suas prioridades, desde o primeiro dia em funções, em Nova Iorque: as alterações climáticas.

“Há outra batalha que devemos terminar”, alertou. “A nossa guerra suicida contra a natureza. A crise climática é a questão definidora do nosso tempo. Deve ser a primeira prioridade de todos os governos e organizações multilaterais. E, no entanto, a ação climática está a ser colocada em segundo plano – apesar do apoio público esmagador em todo o mundo.”

O antigo primeiro-ministro português recordou que os países estão comprometidos a reduzir em 45% as emissões globais de gases com efeito estufa até 2030, mas que essas emissões estão a aumentar a níveis recorde, a caminho dos 14%, esta década. “Temos encontro marcado com o desastre climático”, disse Guterres. “Recentemente, vi-o com os meus próprios olhos no Paquistão.”

Este país do sueste asiático é um contribuinte residual para o aquecimento global, mas desde junho está sob fortes inundações sem precedentes, que já submergiram um terço do seu território. “Enquanto isso, a indústria de combustíveis fósseis está a banquetear-se com centenas de milhões de dólares em subsídios e lucros inesperados, ao passo que os orçamentos das famílias encolhem e o nosso planeta queima”, criticou Guterres. “O nosso mundo é viciado em combustíveis fósseis. É hora de uma intervenção.”

“Os poluidores devem pagar. Hoje, peço a todas as economias desenvolvidas que tributem os lucros inesperados das empresas de combustíveis fósseis.”

António Guterres
secretário-geral das Nações Unidas

Para esta terça-feira, estão previstos 34 intervenções na Assembleia-Geral. O período da manhã terminou com palavras de grande preocupação, pela boca do Presidente francês. “Hoje temos de fazer uma escolha simples, no fundo. A guerra ou a paz”, disse Emmanuel Macron.

À mesma hora, era esperada uma intervenção de Vladimir Putin, em Moscovo, sobre a realização de referendos nas zonas controladas pela Rússia na Ucrânia. Já em Nova Iorque, Macron, que desde a invasão russa tem sido dos dirigentes mundiais que mais têm procurado empreender um diálogo com Moscovo, considerou essas consultas “uma paródia”. E concluiu: “A soberania da Ucrânia é crucial”.