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Eleições na Suécia: quem é Jimmie Akesson, o populista de extrema-direita a um passo do Governo?

12 setembro 2022 17:33

michael campanella

O partido do nacionalista Jimmie Akesson foi o segundo mais votado nas eleições legislativas na Suécia e está por isso em boa posição de entrar no Governo, pela mão de uma coligação de partidos de direita

12 setembro 2022 17:33

Com 95% dos votos contados nas eleições legislativas suecas deste domingo, os eleitores parecem dispostos a pôr termo a oito anos de liderança dos Sociais-Democratas, de centro-esquerda, e oferecer as chaves do Governo a uma coligação de quatro partidos de direita que poderá incluir pela primeira vez o partido nacionalista e anti-imigração Democratas da Suécia (SD).

No rescaldo do anúncio dos resultados preliminares, Jimmie Akesson, líder dos SD, subiu a palco para dizer que a “ambição” do partido passava por alcançar um “lugar no Governo” sueco. Tendo em conta que é, segundo os últimos dados, o mais votado da direita sueca e o segundo mais votado no país (atrás dos Sociais-Democratas), com direito a 20,7% do eleitorado, a ambição de Akesson está claramente ao alcance.

O discurso do líder populista, de 43 anos, gerou uma reação estrondosa entre os apoiantes do partido presentes no quartel-general da campanha, sedeada num hotel perto da capital, Estocolmo. O clamor é compreensível: os SD nunca estiveram tão perto do poder, tendo sido repetidamente ostracizados pelos outros partidos suecos ao longo dos anos, por temerem a retórica anti-imigração e nacionalista dos Democratas. Sob o comando de Akesson, líder desde 2005, o partido, em parte herdeiro de movimentos e grupos neo-nazis, entrou num processo de reabilitação e modernização política, crescendo exponencialmente a cada ciclo de eleições, desde os 3,7% de votos nas legislativas de 2006 até ao resultado do último domingo.

O quadro com as sondagens à boca da urna das eleições legislativas na Suécia

O quadro com as sondagens à boca da urna das eleições legislativas na Suécia

jonathan nackstrand/getty images

Excetuando um cenário em que os restantes 5% dos votos ainda por averiguar tendam fortemente para a esquerda, proporcionando aos Sociais-Democratas (30,5%) uma maioria para governar, qualquer coligação de direita terá de contar com o apoio dos SD para liderar o executivo da Suécia - se não diretamente no seio do Governo, pelo menos no parlamento.

Nesse caso, a coligação seria provavelmente encabeçada pelo líder do Partido Moderado, de centro-direita, Ulf Kristersson, que, apesar de ter uma menor expressão no eleitorado, 19%, seria mais aceitável para os outros dois partidos de direita, o Partido Democrático Cristão da Suécia e o Partido Liberal da Suécia, que em conjunto têm 10% das escolhas de voto. Neste momento, a eleição está taco a taco, com o bloco de direita a ter uma estimativa de 175 deputados e o de esquerda 174 (o parlamento sueco tem 349 assentos).

Reabilitação do extremismo

Embora a vitória da direita ainda esteja por confirmar - os resultados finais são esperados na próxima quarta-feira -, o certo é que os SD tornaram-se demasiado preponderantes na paisagem política sueca para serem ignorados. Akesson cresceu na pequena cidade de Sölvesborg, com 8000 habitantes, no sul da Suécia. É filho de uma família de classe média, o pai empreendedor e a mãe enfermeira, e desde cedo mostrou interesse na política, relata o jornal Sueco de língua inglesa The Local.

O seu pensamento foi fortemente influenciado pelo local onde nasceu, já que Sölvesborg fica a uma hora e meia da cidade portuária de Malmo, uma das cidades suecas que mais imigrantes tem acolhido nos últimos anos. Os Democratas da Suécia têm uma presença muito forte nesta região do país, principalmente devido a estes padrões migratórios e aos sentimentos de rejeição por eles inspirados.

O atual dirigente dos SD seguiu para a Universidade de Malmo, onde estudou Ciência Política e lá conheceu três dos membros mais influentes dos SD: Richard Jomshof, Mattias Karlsson e Björn Söder. Juntos, o chamado “bando dos quatro” deu um novo ímpeto ao partido, até então muito concentrado em Estocolmo. Através de uma mensagem focada nos perigos da imigração descontrolada para a manutenção do estado social sueco e de persistentes alusões às ameaças do multiculturalismo e do islamismo para a coesão social da Suécia, os quatro subiram rapidamente a posições de destaque.

Jimmie Akesson na abertura do parlamento sueco em 2015

Jimmie Akesson na abertura do parlamento sueco em 2015

michael campanella

O próprio Akesson alcançou o cargo mais alto dos Democratas em 2005 e logo começou uma campanha agressiva de modernização. Primeiro, mudou o logótipo do partido - de uma tocha azul e amarela para a atual pétala azul de uma flor comum nos bosques da Suécia. Depois, tentou expurgar o partido dos seus elementos mais extremistas, declarando em 2012 que, sob o seu comando, haveria “tolerância zero contra o racismo e o extremismo”. Nesse sentido, já em 2015, Akesson expulsou vários líderes da organização de juventude do partido por ligações a grupos radicais de extrema-direita. Na política, tentou limar algumas arestas em termos de medidas e retórica, procurando modernizar a comunicação de modo a persuadir alguns setores mais jovens.

Embora alguns episódios soltos de declarações racistas entre os membros dos SD, incluindo um vídeo que circulou pelos média suecos que mostrava dois políticos a agredir verbal e fisicamente um imigrante de origem curda, o sucesso de Akesson está à vista. Desde 2005, o partido melhorou progressivamente o seu desempenho a cada ciclo de eleições: 3% em 2006, 5,7% em 2010, 12,9% em 2014 e 17,5% em 2017. O resultado desta última eleição, 20%, confirma a trajetória ascendente.

Esta estratégia encontra eco em vários partidos de extrema-direita pelo continente europeu: de França, com Marine Le Pen, a Itália, com Giorgia Meloni, cujo partido Irmãos de Itália lidera atualmente as intenções de voto (e também tem ligações a movimentos e grupos neo-nazis). Tal como nesses dois países, o tema da imigração tem impulsionado a extrema-direita na direção do poder. No caso específico da Suécia, esta última eleição tem sido dominada pelo tema do crime organizado e das guerras de gangues. Como mostram os resultados, Akesson foi bem-sucedido em ligar a campanha dos SD contra a imigração excessiva, uma das bandeiras do partido, ao aumento da criminalidade.

Por isso, está mais próximo que nunca de ascender ao Governo da Suécia - a palavra fica agora do lado dos outros partidos de direita, nomeadamente da líder dos Moderados, Ulf Kristersson, que admite uma coligação, após vários anos em que rejeitava qualquer hipótese de um acordo.

Texto de José Neves, editado por João Pedro Barros