Internacional

Ministros da Irlanda do Norte e Gales juntam-se aos mais de 40 que abandonaram o Governo britânico

7 julho 2022 7:46

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Manifestação contra o primeiro-ministro, em Londres. “Quem vais lixar as seguir, Boris?”, lê-se no cartaz

vuk valcic/sopa images/lightrocket/getty images

Boris Johnson não se demite e promete substituir as dezenas de demissionários do seu Executivo. Se não ceder, grupo parlamentar deve destituí-lo na próxima semana, havendo já quem alerte para uma crise constitucional ao estilo da que Donald Trump provocou nos Estados Unidos

7 julho 2022 7:46

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Boris Johnson ultrapassou o “ponto de não-retorno”. Quem o afirma é Brandon Lewis, que na madrugada desta quinta-feira se demitiu do cargo de ministro para a Irlanda do Norte (é um de mais de 40 demissionários no Executivo). Na sua carta de renúncia, publicada na rede social Twitter às 6.47am, escreve: “Não posso sacrificar a minha integridade pessoal para defender o atual estado de coisas”.

Frisando que deu ao primeiro-ministro britânico “o benefício da dúvida”, defendendo-o “em público e em privado”, Lewis abandona o cargo horas depois do ministro para o País de Gales, Simon Hart. São dois dos mais de 40 membros do Executivo que abandonaram funções desde terça-feira à tarde.

“Um Governo decente e responsável baseia-se na honestidade, integridade e respeito mútuo. É com profundo pesar pessoal que tenho de sair do Governo, pois já não acredito que esses valores se mantenham”, explica o agora ex-governante.

Também esta manhã apresentaram a demissão os secretários de Estado Helen Whately, do Tesouro; Damian Hinds, da Segurança; e George Freeman, que prestava assistência parlamentar ao Ministério da Ciência. Este foi particularmente duro na despedida: “O caos no n.º 10 [de Downing Street], a quebra da responsabilidade coletiva do Governo, o abandono do código de conduta ministerial, a defesa do que é impróprio e o desacato ao Parlamento são insultos ao conservadorismo em que acredito e que defendo”.

Vários comentadores têm frisado que começa a ser matematicamente impossível o primeiro-ministro substituir todos os membros do Governo demitidos. Só os ministros demissionários da Saúde e das Finanças foram substituídos, bem como o da Educação, que passou para esta última pasta. Ou seja, há dezenas de cargos por preencher.

Johnson já não goza do apoio da maioria do grupo parlamentar do Partido Conservador. A soma dos que há um mês votaram pela sua demissão numa moção de censura interna com os que entretanto largaram funções dá mais de 180, numa bancada de 359 parlamentares. Ministros, secretários de Estado, enviados comerciais do Governo e deputados que fazem a articulação entre a bancada parlamentar e os ministros fazem parte do rol.

A deputada trabalhista Rachael Maskell dava conta disso ao anunciar que uma comissão parlamentar marcada para esta quinta-feira fora cancelada. “Não há ministros disponíveis para trabalhar na legislação. Não conseguem gerir o Governo.”

Delegação ministerial interveio em vão

Foi isso que uma delegação de ministros tentou fazer ver ao chefe do Executivo, quarta-feira à noite, tendo-se deslocado ao n.º 10 de Downing Street para esse efeito. Johnson recusou a ideia de se demitir e prometeu lutar até ao fim. Quarta à noite ainda demitiu o ministro da Habitação, Michael Gove, que ficara no Governo mas não saíra publicamente em sua defesa.

Entre os que tentaram demover o primeiro-ministro estavam, inclusive, os ministros Nadhim Zahawi que Johnson passou da Educação para as Finanças terça à noite para substituir Rishi Sunak (Finanças), e Michelle Donelan, que assumiu a pasta da Educação. Nomes muito próximos do primeiro-ministro, como a titular do Interior, Priti Patel, consideram que o tempo deste acabou.

Esta manhã o líder da bancada parlamentar conservadora, Chris Heaton-Harris, dirigiu-se à residência oficial. A relutância de Johnson em reconhecer a realidade está a preocupar o partido e o país. O deputado tory Julian Smith, que foi ministro para a Irlanda do Norte entre 2019 e 2020, acusa o chefe do Governo de estar a criar uma “crise constitucional”, com um comportamento “ao estilo de Trump”. O ex-Presidente americano recusou-se a reconhecer o resultado das presidenciais de 2020, em que foi batido por Joe Biden.

Aliados de Johnson como o ministro do Brexit, Jacob Rees-Mogg, defendem-no lembrando que venceu as eleições legislativas de 2019. Smith esclarece que o sistema político britânico não é presidencialista. “É, obviamente, um argumento ultrajante. Não foi uma votação pessoal. Foi uma votação em candidatos individuais em todo o país.”

As eleições no Reino Unido disputam-se em círculos uninominais e a regra é que governa quem conseguir uma maioria. Johnson obteve-a em dezembro de 2019, com mais de 80 deputados do que a oposição toda somada. Acontece que já poucos estão com ele.

“Não devia estar ali hoje. Não devia estar lá este fim de semana, não devia estar à espera de mais indícios. Não pode haver mais indícios do que aquilo que aconteceu ontem”, defende o ex-ministro.

Regras mudam para demitir Johnson

A sorte do primeiro-ministro estará nas mãos do Comité 1922, um conjunto de deputado sem funções governativas que supervisiona os processos de eleições internas e moções de censura. Este grupo, cuja direção vai a votos para a semana, pondera alterar as regras que hoje impõem o prazo mínimo de um ano entre moções de censura internas.

Johnson sobreviveu a uma por 211-148 em junho. Quarta-feira o Comité 1922 decidiu não mexer nas regras, mas já foi clarificado ao chefe do Executivo que, caso não renuncie, a nova direção alterará as regras. A votação de nova moção de censura poderia acontecer dentro de dias e a derrota é mais do que certa.

A situação é tão insólita que uma ministra que não se demitiu, a procuradora-geral Suella Braverman, já anunciou que é candidata à sucessão de Johnson. As casas de apostas já estão a calcular as hipóteses de cada putativo novo primeiro-ministro.