Internacional

Nicarágua. Sergio Ramírez, o mais recente crítico perseguido pelo casal presidencial

O nicaraguense Sergio Ramírez venceu o Prémio Cervantes em 2017
O nicaraguense Sergio Ramírez venceu o Prémio Cervantes em 2017
JUAN MABROMATA / AFP / GETTY IMAGES

A dois meses das eleições gerais na Nicarágua, o casal Daniel Ortega e Rosario Murillo, Presidente e vice-Presidente do país respetivamente, têm em curso um projeto autoritário que passa por silenciar qualquer voz dissidente. O escritor Sergio Ramírez, vencedor do Prémio Cervantes, é o alvo mais recente

O regime da Nicarágua, liderado pelo casal Daniel Ortega e Rosario Murillo, Presidente e vice-Presidente, respetivamente, continua a apertar o cerco às vozes críticas. O escritor e ex-vice-Presidente Sergio Ramírez foi o mais recente alvo da perseguição decretada pelas autoridades, que emitiram uma ordem de detenção esta quarta-feira, acusando-o de “praticar atos que promovem e incitam o ódio e a violência”.

Ramírez, que está ausente do país desde junho, reagiu através de um vídeo divulgado nas redes sociais. “A ditadura da família Ortega acusou-me, através da sua própria promotoria, e perante os seus próprios juízes, dos mesmos delitos de incitação ao ódio e à violência, menosprezo à integridade nacional, e outros que não tive tempo de ler, acusações pelas quais muitos nicaraguenses dignos e valentes se encontram detidos nas masmorras da mesma família”, afirmou.

“Não é a primeira vez que acontece na minha vida. No ano de 1977, a família Somoza acusou-me, através da sua própria promotoria, e perante os seus próprios juízes, de delitos semelhantes aos de agora: terrorismo, formação de quadrilha e de atentar contra a ordem e a paz, quando eu lutava contra essa ditadura da mesma forma que luto agora contra esta.”

A perseguição ao escritor recebeu a pronta condenação por parte do Foro Iberoamerica, uma organização criada em 2000 para promover a reflexão e o debate sobre os desafios mais importantes comuns à América Latina, Portugal e Espanha. Copresidida pelo fundador do Expresso, Francisco Pinto Balsemão, e pelo ex-Presidente do Uruguai Julio María Sanguinetti, conta com a participação regular de Sergio Ramírez nas suas atividades.

“O Foro Iberoamerica repudia enfaticamente qualquer investida sobre a liberdade do escritor e insta as autoridades a rever a sua decisão. A instituição também nega categoricamente as acusações do regime contra Ramírez, um dos escritores e intelectuais mais lúcidos, prestigiosos e reconhecidos do continente. A expressão de ideias e as críticas ao poder nunca podem estar sujeitas a represálias numa democracia. O diálogo e o debate aberto são partes fundamentais da construção da política e do futuro das nações. As decisões do regime de Ortega de silenciar e prender quem critica são apenas a última prova da crescente opressão do povo nicaraguense.”

Em junho, após ser interrogado pelo Procurador Geral, Sergio Ramírez falou à imprensa
AFP / GETTY IMAGES

Nascido em 1942, na cidade de Masatepe, Ramírez, que foi vice-Presidente do próprio Ortega entre 1985 e 1990, é um dos dissidentes mais destacados da Frente Sandinista. Em 1995, assumiu publicamente a rutura com Daniel Ortega, que liderara o país entre 1979 e 1990.

As divergências continuaram após Ortega voltar ao poder, em 2007, e mais ainda quando emergiu, na Nicarágua, o projeto autoritário do casal presidencial. Em 2017, a primeira-dama, Rosario María Murillo Zambrana, tornou-se vice-Presidente do marido e, já em agosto deste ano, foi alvo, a título pessoal, de sanções por parte da União Europeia por alegadas violações dos direitos humanos.

Buscas a uma casa cheia de livros

Após abandonar a política, Sergio Ramírez passou a dedicar-se exclusivamente à escrita. Em 2017, venceu o Prémio Cervantes e, desde o ano seguinte, passou a deter também cidadania espanhola. A sua obra está traduzida para mais de 20 línguas, incluindo português.

“Como eles anunciam que vão fazer buscas em minha casa, o que vão achar é uma casa cheia de livros. Os livros de um escritor”, acrescentou Sergio Ramírez, na sua reação à ordem de detenção. “Os livros de toda a minha vida. Sou um escritor comprometido com a democracia e com a liberdade, e não retrocederei neste empenho onde quer que me encontre. A minha obra literária de anos é a obra de um homem livre.”

Aplaudido pelos reis de Espanha, governantes de outras personalidades espanholas, após receber o Prémio Certantes, na Universidade Alcala de Henares, perto de Madrid
JUAN CARLOS HIDALGO / AFP / GETTY IMAGES

A perseguição a dissidentes é uma manifestação da escalada repressiva promovida pelo casal Ortega-Murillo e não estará desfasada da agenda política do país, já que, dentro de dois meses, a 7 de novembro, a Nicarágua realizará eleições gerais. Espera-se que Daniel Ortega seja candidato a um novo mandato.

Estima-se que entre junho e agosto deste ano, pelo menos 36 pessoas tenham sido detidas na Nicarágua por motivos políticos, com base em legislação aprovada em 2020 deliberadamente para silenciar os críticos. Entre eles estão sete pré-candidatos presidenciais, ex-guerrilheiros sandinistas históricos, intelectuais, líderes da sociedade civil, banqueiros e jornalistas.

“O Foro Iberoamérica expressa o seu total apoio e solidariedade a Sergio Ramírez e condena as medidas adotadas pelo Ministério Público do regime de Daniel Ortega e da sua família. A falta de garantias e a intolerância às críticas constituem uma imagem de marca do regime que hoje governa a Nicarágua. O Foro faz suas as palavras do escritor: ‘As únicas armas que tenho são as palavras, e o silêncio nunca me será imposto’.”

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: MMota@expresso.impresa.pt

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