Internacional

“É uma guerra suja, mais suja que as anteriores. Ninguém está a lutar em nome do Islão”: reportagem no Afeganistão

15 agosto 2021 9:26

Francesca Mannocchi, em Laghman, Afeganistão

Halida, 11, com Shafika, oito meses, chegada ao campo improvisado para deslocados internos em Cabul

paula bronstein/getty images

O avanço dos talibãs parece imparável e a população é quem mais sofre, entalada entre estes e a fraca resistência das forças governamentais. Um cenário previsível de sacrifício num país que soma décadas de guerra: “Estou demasiado velho para me ir embora, muito cansado para ver outra guerra... O que vai acontecer com as crianças?”

15 agosto 2021 9:26

Francesca Mannocchi, em Laghman, Afeganistão

“São 10h, mas é estranho. Normalmente, lutam durante a noite, e é por isso que ficamos aterrorizados quando o sol se põe, pois não sabemos se estaremos vivos na manhã seguinte.”

Zahidullah tem 30 anos e os anciãos da comunidade escolheram-no para representar as famílias deslocadas da província de Laghman, que vivem num campo improvisado em Metherlam, a cerca de oito quilómetros da sua vila, Alinghar.

Recentemente, os talibãs tomaram o controlo de quatro distritos da província de Laghman e os aldeões só tiveram a opção de fugir.

Nestes anos de crise humanitária, habituámo-nos a ver determinadas imagens dos campos de refugiados: as tendas brancas das Nações Unidas, os sanitários químicos, os garrafões de água com símbolos das organizações não-governamentais responsáveis pela higienização, portões e vedações que protegem as pessoas.

FALTA DE ÁGUA E TERRA SECA A PERDER DE VISTA

Em Metherlam nada disso existe. O acampamento fica numa grande extensão de terra seca, situada perto da estrada principal, que vai do centro da cidade para as montanhas. Num lado estão as forças de segurança afegãs, do outro, os talibãs. E no meio ficam os civis. São habitantes da cidade e deslocados internos, que aqui chegaram depois do início do conflito, o que os torna ainda mais vulneráveis.

Em Metherlam não há tendas, apenas lençóis. Pedaços de pano ligados por paus de madeira. As mulheres e as crianças abrigam-se debaixo deles, à procura de alguma sombra para se protegerem das temperaturas tórridas, que atingem os 47ºC durante o verão.

Nos últimos dois meses chegaram aqui 300 famílias — o que soma no total cerca de 1500 pessoas. Algumas delas acamparam no chão, outras encontraram abrigo em edifícios em construção.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.