Internacional

Extrema-direita permite eleição de líder regional pela primeira vez na Alemanha

5 fevereiro 2020 16:14

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Candidato do FDP, um pequeno partido liberal, Thomas Kemmerich, foi esta quarta-feira eleito presidente do governo regional da Turíngia, no leste da Alemanha, graças aos votos do partido extremista de direita Alternativa pela Alemanha

5 fevereiro 2020 16:14

Pela primeira vez na história da Alemanha pós II Guerra Mundial, o líder de um estado regional foi esta quarta-feira eleito com o apoio de um partido de extrema-direita, contados os votos da terceira volta eleitoral. O candidato do FDP, um pequeno partido liberal, Thomas Kemmerich, foi esta quarta-feira eleito presidente do governo regional da Turíngia, no leste da Alemanha, graças aos votos do partido extremista de direita Alternativa pela Alemanha (AfD).

Após uma eleição muito disputada e vários meses de negociações, o líder cessante, Bodo Ramelow, do partido de esquerda radical Die Linke, tentou ser reconduzido no cargo com o apoio de uma coligação minoritária de esquerda. Não tendo tido sucesso na primeira tentativa, numa segunda volta, Ramelow viu-se derrotado por um voto por Kemmerich, que, numa terceira volta, acabou escolhido para líder do governo regional com o apoio da AfD.

Kemmerich, de 54 anos, recebeu o apoio surpresa de todos os membros eleitos do partido Alternativa pela Alemanha, anti-imigração e anti-sistema, bem como da maioria dos membros do partido conservador CDU (da chanceler Angela Merkel). "É a primeira vez na história da República Federal da Alemanha que um presidente regional é eleito com os votos do AfD", disse o cientista político alemão Andre Brodocz.

Até agora, os partidos tradicionais de direita e de centro-direita na Alemanha, como a CDU ou o FDP, sempre recusaram qualquer cooperação ou aliança com a extrema-direita. Contudo, com esta eleição, a barreira foi transposta, com os partidos moderados a aliarem-se com a extrema-direita para controlar o estado da Turíngia, no leste da Alemanha, criando alvoroço político.

Bernd Riexinger, líder do Die Linke, falou mesmo de "quebra de tabu", considerando "incrível" o facto de Thomas Kemmerich ter sido eleito com os votos do AfD e dizendo que "não se trata de um acidente, mas de uma violação deliberada dos valores fundamentais do nosso país".

Também dentro do FDP, as opiniões estão divididas, com o vice-presidente Wolfgang Kubicki a falar de "um grande sucesso", enquanto outra vice-presidente, Marie-Agnes Strack-Zimmerman, se distanciou desta opção dizendo que ela é "inaceitável e insuportável".

A Turíngia é a zona onde o AfD é dirigido por uma ala mais radical do partido, com protagonismo de Bjorn Hocke, que se destacou por, no passado, ter defendido o fim da cultura alemã, no momento em que esta assumiu arrependimento pelos crimes do regime nazi de Adolf Hitler.

Os analistas atribuem ainda a explicação para este caso aos avanços da extrema-direita nos últimos anos na Alemanha, onde tem tido bons resultados eleitorais em diversas regiões e tem conseguido impor-se e normalizar-se perante os eleitores. Em setembro passado, o AfD tornou-se a segunda força política nas regiões de Brandeburgo e da Saxónia, não muito longe da Turíngia.

Esta situação tem levado a que, dentro do partido conservador de Merkel, tenha crescido um sentimento de abertura ao diálogo com os movimentos políticos mais extremistas à sua direita, sobretudo quando a CDU começou a sentir mais dificuldade para encontrar parceiros de coligação para governar em várias regiões.