Guerra na Ucrânia

Investigação da BBC revela novos indícios de corrupção nos negócios de Roman Abramovich

15 março 2022 1:32

peter macdiarmid/getty images

Dono do Chelsea beneficiou de dois leilões fraudulentos. Num deles o Estado russo saiu lesado em mais de 2,4 mil milhões de euros, no outro o representante da empresa rival foi raptado para forçar a desistência do negócio

15 março 2022 1:32

A BBC revelou novos indícios de corrupção nos negócios de Roman Abramovich. Documentos entregues por uma fonte anónima ao programa "Panorama" revelam que o dono do Chelsea ganhou milhares de milhões em leilões que estavam viciados em seu favor.

Segundo o canal britânico, os dados agora revelados foram copiados dos ficheiros que as agências russas detêm sobre Abramovich. A BBC não conseguiu confirmar esta origem do documento, mas verificou as informações publicadas com várias outras fontes.

Leilão fraudulento de petrolífera lesou governo russo em mais de 2,4 mil milhões de dólares

De acordo com a investigação, Abramovich fez fortuna com a compra da Sibneft (atualmente a terceira maior empresa petrolífera da Rússia, agora conhecida por Gazprom Neft), num leilão que estava manipulado em seu favor. O oligarca comprou a empresa ao Estado russo em 1995, por cerca de 230 milhões de euros, "devolvendo-a" ao mesmo dono em 2005, por cerca de 12 mil milhões.

As irregularidades deste negócio já eram conhecidas. Em 2012, Abramovich foi processado em Londres pelo antigo sócio Boris Berezovsky. Apesar de ter ganho a disputa, admitiu em tribunal que o leilão estava viciado e que deu mais de 9 milhões de euros ao sócio para pagar a um funcionário do Kremlin.

O documento a que a BBC teve acesso revela agora que o governo russo foi lesado em 2,46 mil milhões de euros neste negócio e que as autoridades queriam acusá-lo de fraude. O valor é confirmado por uma investigação lançada pelo Parlamento russo em 1997.

O programa da BBC falou com o ex-procurador responsável pelo caso. "Basicamente, foi um esquema fraudulento, em que aqueles que participaram na privatização formaram um grupo criminoso que permitiu a Abramovich e Berezovsky enganarem o Governo e não pagar o dinheiro que a empresa realmente valia", confirmou Yuri Skuratov.

O documento indica ainda que o oligarca era protegido pelo anterior Presidente da Rússia. Boris Ieltsin terá travado a investigação e desviado os ficheiros para o Kremlin. O procurador responsável pelo caso foi afastado.

Concorrentes chineses de Abramovich num leilão foram raptados

Em 2000, já com Putin no poder, Roman Abramovich permaneceu no círculo próximo do Presidente. Em 2002, voltou a estar envolvido num segundo leilão fraudulento, segundo a BBC.

Em causa estava a aquisição da Slavneft. De acordo com o documento, Abramovich criou uma parceria com outra empresa para a compra, mas uma rival chinesa planeava licitar o dobro. Caso tal sucedesse, várias pessoas influentes ligadas ao Kremlin e ao Parlamento russo iriam perder dinheiro.

“A CNPC, empresa chinesa, concorrente muito forte, teve que de retirar-se do leilão depois de um de seus representantes ter sido sequestrado na chegada ao aeroporto de Moscovo e só foi libertado após a empresa declarar a sua retirada", afirma o documento. Após a retirada, a proposta da parceria de Abramovich foi a única a ficar em cima da mesa.

O rapto foi corroborado por fontes independentes, mas não há indícios de que o oligarca russo tivesse conhecimento do sucedido.

À BBC os advogados do dono do Chelsea rejeitam as acusações de corrupção e dizem não haver indícios que permitam afirmar que o oligarca russo acumulou fortuna substancial através de atividades criminosas. Quanto ao rapto, dizem que a acusação "é totalmente infundada" e que o seu cliente "não tem conhecimento de tal incidente".

Abramovich avistado no aeroporto de Israel

Roman Abramovich foi um dos oligarcas russos sancionados na semana passada pelo Governo britânico devido à proximidade a Vladimir Putin.

O multimilionário tem os bens congelados e foi afastado da presidência do Chelsea. O clube de futebol foi alvo de sanções adicionais, estando neste momento em causa o jogo desta quarta-feira frente ao Lille para a Liga dos Campeões, uma vez que a equipa só pode gastar 20 mil libras (cerca de 24 mil euros) em deslocações.

Esta segunda-feira, o The Guardian noticiou que Roman Abramovich foi fotografado na zona VIP do aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv. De acordo com informações fornecidas pelo site Radarbox, um avião ligado ao oligarca com a identificação LX-RAY levantou voo para Istambul, mas não foi possível confirmar se o dono do Chelsea estava a bordo.

Uma fonte disse à Reuters que o avião viajou de Moscovo para Tel Aviv no domingo ao final do dia. As restrições impostas por Israel aos jatos privados desde o início da invasão da Ucrânia não permitem que estas aeronaves permaneçam em solo israelita por mais de 24 horas.

Abramovich, que tem nacionalidade portuguesa e israelita, negou ter relações próximas com o Presidente russo. No passado, o oligarca disse viver no seu jato privado, estando em constante movimento entre Moscovo, Londres e Nova Iorque. O seu avião terá deixado o território britânico no final de fevereiro. Já o iate privado, que se estima valer cerca de 550 milhões de euros, entrou nas águas territoriais do Montenegro no domingo.

Desde a aplicação das sanções, os oligarcas russos têm abandonado as grandes capitais europeias. Enquanto uns voltaram à Rússia, outros deslocaram-se para cidades fora da UE, EUA e Reino Unido, onde as autoridades nacionais estão a impor sanções.