Geração E

No Brasil, gozar é ilegal

A justiça brasileira censurou um humorista. É provável que acabemos a cortar-nos no papel em que se elenca o que não se pode dizer

Gozar, em português do Brasil, tem um significado ligeiramente diferente daquele a que estamos habituados. Exatamente, é esse mesmo. Mas não, os orgasmos não foram banidos em território brasileiro. Tal decisão seria extremamente impopular e seria, pelo timing, uma tremenda afronta à memória de Rita Lee. Porém, a justiça de São Paulo proibiu outra forma de prazer: rir do que não é suposto rir. Bem sabemos que o Brasil faz muito pelo idioma, mas desta vez pôs-se pimenta na língua portuguesa.

O cidadão Leo Lins, humorista, foi obrigado a retirar o seu espetáculo de stand-up do YouTube, que inclui piadas que o tribunal considera serem ofensivas. O comediante do Rio de Janeiro fica então proibido de “manter, transmitir, publicar, divulgar, distribuir, encaminhar ou realizar download de quaisquer arquivos de vídeo, imagem ou texto, com conteúdo depreciativo (...) em razão de raça, cor, etnia, religião, cultura, origem, procedência nacional ou regional, orientação sexual ou de género, condição de pessoa com deficiência ou idosa, crianças, adolescentes e mulheres”. É uma longa lista, não é? Um índice. Um index, dir-se-ia.

Como se decretar a retirada do conteúdo não fosse um ataque suficientemente violento à liberdade artística do seu autor, a justiça brasileira não permite que Leo Lins “mantenha” as piadas que entender no seu computador. É sinistro, mas é o que está acima escrito: Leo Lins fica proibido de manter arquivos de texto com conteúdo depreciativo. Se o leitor estiver sob a jurisdição da justiça de São Paulo, cuidado com os rabiscos privados que guarda no Notes.

As reações de quem não tem problema nenhum com a censura - desde que não goste do que o censurado diz - revestiram-se de um cinismo já habitual e formulaico. “Misoginia não é piada, é crime”; “Capacitismo não é piada, é crime”. São lemas que granjeiam muitos retweets por reafirmarem a virtude de quem os repete, mas revelam ao mesmo tempo gritante inaptidão na interpretação de texto. Não era suposto esta clarificação surpreender, mas piadas não são discurso sério.

Leo Lins apresentou a sua produção artística a uma plateia que conhecia e apreciava o género humorístico em que ele se enquadra, o humor negro. O humor negro socorre-se de recursos estilísticos, cenários hipotéticos e derrubes de expectativas para pôr em causa a virtude do espectador quanto aos temas que este considera serem os mais sensíveis. A reprovação dos sujeitos das piadas não é o tema subjacente ao humor negro, mas sim a fragilidade da perfeição moral dos recetores daquelas. Achar este género repugnante é justo. Achar justo que seja proibido é repugnante.

Nas rádios juvenis portuguesas, passa constantemente a música “Kill Bill”, em que a intérprete SZA confidencia que “talvez mate o seu ex-namorado” e “a sua namorada a seguir”. Já houve tribunais a banir esta canção com base no incentivo à violência em contexto romântico? Nas mesmas rádios, é difundido o êxito “Bipolar”, de MC Don Juan, MC Davi e MC Pedrinho, que principia com o apelo “vai-se tratar, garota”. A Justiça de São Paulo já puniu todos estes reputados cantautores, condenando-os a apagar do seu disco externo esta clara estigmatização dos transtornos psiquiátricos? Claro que não. A ideia de que piadas “normalizam” e “reforçam” ideias e opiniões “erradas” ou “perigosas” esbarra com a facilidade com que interpretamos, enquadramos, percebemos o contexto, a nuance de todas as outras produções artísticas.

Por estes dias, no Brasil, defender que Leo Lins não devia ter sido censurado é apostasia política. Como a vanguarda da esquerda se demitiu da defesa da liberdade de expressão, quem a tenta preservar corre o risco de ser rotulado de bolsonarista. O humorista Fábio Porchat saiu em defesa de Lins e foi amplamente criticado e instado a “educar-se”. Se afirmas que ele tem o direito de fazer aquelas piadas, é porque não és do bem. Na internet, esta posição vale muitos likes; na vida real, é provável que acabemos a cortar-nos no papel em que se elenca o que não se pode dizer.

Enfim, espero apenas que tudo isto não provoque um incidente diplomático. Na volta, o que estava no computador de Frederico Pinheiro eram piadas de Leo Lins.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

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