Economia

Centeno em Davos em onda de otimismo, apesar de 73% dos líderes empresariais estarem pessimistas sobre 2023

17 janeiro 2023 10:25

tiago miranda

O governador do Banco de Portugal não destoou da “muita esperança” em relação a 2023 que transbordou no painel matinal do Fórum Económico Mundial esta terça-feira

17 janeiro 2023 10:25

O choque foi gritante em Davos logo num dos primeiros paineis matinais desta terça-feira do Fórum Económico Mundial (World Economic Forum). De um lado o coro de otimismo dos intervenientes no painel sobre como evitar a recessão; do outro, o recorde de pessimismo dos líderes empresariais inquiridos pela consultora PwC em 12 anos de sondagens. Quase três quartos estão pessimistas sobre 2023. Nos dois anos anteriores, aquela percentagem estava otimista.

Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, a chinesa Laura Cha, o presidente do Crédit Suisse, Axel Lehmann, e o presidente executivo da S&P, Douglas Peterson, falaram de “muitas esperanças” em relação à economia em 2023.

A reabertura da China, o dinamismo da Ásia, da Índia à Indonésia, as “enormes oportunidades de negócio” na inovação e na transição energética justificaram o otimismo da chinesa, do suíço e do norte-americano. Laura Cha disse mesmo: “Logo que a China arranque, será muito rápido e vai mesmo surpreender”. Num outro painel no Fórum, especificamente sobre o futuro da China, o ex-primeiro-ministro australiano Kevin Rudd garantiu “um crescimento sólido da China de 5% a 5,5% em 2023”.

E Centeno não estragou o ambiente. O governador português abriu logo a sua primeira intervenção ironizando que “não mudaria o estado de espírito” do painel. Centeno enfatizou que o último trimestre de 2022 na economia europeia será “positivo” e que, em 2023, "a economia vai pegar”, apesar de o Velho Continente estar “mais exposto” à guerra do que muitas outras partes do mundo. O Eurostat, o organismo de estatística da União Europeia, só a 31 de janeiro divulgará a estimativa para o crescimento na zona euro entre outubro e dezembro de 2022. No terceiro trimestre do ano passado, o crescimento foi de 2,3% (em relação ao mesmo período do ano anterior). Em relação ao trimestre anterior escapou à estagnação, com um crescimento de 0,3%.

Centeno disse logo que não aceita que culpem os bancos centrais por provocarem recessão com a subida das taxas de juro e reforçou o seu otimismo sobre a Europa gracejando que “habitualmente os próprios europeus não acreditam nos seus pontos fortes”.

Em contraste, a sondagem publicada pela PwC divulgada em Davos diz que 73% dos 4410 líderes empresariais ouvidos pela consultora em 105 países estão pessimistas. Pior: revelam o maior grau de pessimismo de que há memória desde que a PwC iniciou estes inquéritos, há 12 anos.

Geopolítica leva Centeno a recordar John Lennon

É certo que, pelo meio do painel, o chefe do Crédit Suisse lembrou que a “situação geopolítica” é determinante e o responsável da S&P admitiu que “há muitos fatores conflituantes, que evoluem em sentidos diferentes”.

Laura Cha disse que a principal preocupação para este ano é a “instabilidade geopolítica” e Mário Centeno concordou que a geopolítica “especialmente para a Europa é o maior desafio”. Centeno voltou a animar o ambiente citando uma música de John Lennon: “Let's keep giving peace a chance”.

Douglas Peterson, da S&P, recordou até que nos Estados Unidos continua a verificar-se “a curva invertida” nos juros da dívida, com taxas mais elevadas nos prazos mais curtos. O que costuma prenunciar recessão. Aliás, a situação é extensiva a mais 25 economias, entre elas Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, Holanda, México, Reino Unido e Singapura.

Mário Centeno não deixou de aproveitar a oportunidade para dar o “exemplo de Portugal”: “estamos agora melhor preparados do que em 2008 [aquando da crise financeira global] e em 2011, quando da crise das dívidas soberanas. Houve uma redução do risco”.