Economia

CGD não tenciona fechar balcões este ano, pensa em “novos modelos” e procura parcerias (mas afasta Medina das decisões)

10 janeiro 2023 13:09

Paulo Macedo, CEO da Caixa Geral de Depósitos

nuno fox

Fecho de 23 balcões da Caixa que foi decidido no verão rende poupança de 10 milhões de euros por ano. Volume de negócios aumentou apesar desses encerramentos, aponta a gestão de Paulo Macedo

10 janeiro 2023 13:09

A Caixa Geral de Depósitos vai continuar a repensar a sua rede de balcões, mas não conta com o envolvimento do acionista, representado pelo Ministério das Finanças. Cortes não estão previstos, mas podem vir “novos modelos de agências” e serão procuradas parcerias com autarquias e freguesias nos locais onde a rentabilidade é menor, segundo anunciou Paulo Macedo na audição parlamentar da Comissão de Orçamento e Finanças desta terça-feira, 10 de janeiro.

“O ministro das Finanças já pôs por escrito que o encerramento da agência compete à gestão da Caixa Geral de Depósitos. Seria despropositado [o ministro] dizer que [o balcão] deve ficar aqui ou ali”, declarou Macedo aos deputados, na audição para que foi convocado depois de ter decidido encerrar em bloco 23 agências bancárias no passado verão.

Sem orientação de Medina

“Não há orientação do Ministério das Finanças, [sobre] se é o Pragal, a Amadora, o que seria uma intromissão que me parece totalmente indesejável e que nunca aconteceu nos cinco anos em que lá estou”, disse Macedo.

“As conversas são sobre vendas internacionais, a sucessão na Caixa, a missão, o que se passa em termos de relações com o regulador, todas as discussões sobre dividendos, sobre chamadas de dívida: este é o tipo de coisas que o acionista discute”, exemplificou Paulo Macedo.

E continuou: “Há muitas conversas sobre o edifício da [avenida] João XXI. São as questões que o acionista faz. Não estou a ver um acionista falar do [balcão] A ou do B, exceto a preocupação do Ministério das Finanças de não deixar as populações abandonadas, nem sairmos de concelhos”.

“Temos várias opiniões [sobre] se devemos estar no Corvo ou não; tem duas agências bancárias para 300 pessoas. É uma questão subjetiva, não é o ministro das Finanças que deve ter opinião do dia-a-dia da Caixa”, frisou o presidente executivo do banco público.

Medina não foi ouvido em comissão parlamentar porque o PS recusou a sua audição, e o ministro das Finanças também não respondeu por escrito às várias questões que há três meses os partidos lhe deixaram sobre esse tema.

Sem encerramentos, por agora

O banco público fechou 23 agências no verão do ano passado, o que permite uma poupança de 10 milhões de euros por ano, segundo transmitiu aos deputados o administrador da CGD José João Guilherme. Em setembro de 2022 a Caixa contava com 515 agências em Portugal, menos do que as 543 que tinha no fecho de 2021. São 456 agências universais, 30 Espaços Caixa, 3 agências móveis, além de 6 agências automáticas (carrinhas).

Uma rede que, à partida, não vai diminuir. “A Caixa não tem previsto encerramentos para este ano, não tem objetivos, mas estará atenta ao mercado”, disse Macedo.

O líder da CGD, contudo, deixou o aviso de que isso não é uma promessa: “Não ficará a olhar para os outros, não ficará a perder competitividade, enquanto os outros tratam de rentabilidade, baixar cost-to-income [rácio entre custos e receitas], a acumular reservas para operações como a que foi a compra por um euro [como a aquisição do Popular pelo Santander em 2017]. Só uma pessoa tonta é que diria que nunca mais vai encerrar nada na vida”, continuou.

Só uma pessoa tonta é que diria que nunca mais vai encerrar nada na vida.

A nível laboral a posição é semelhante, pelo que há margem para reduções: “Um banco com seis mil pessoas numa era digital é algo que dificilmente se justifica”.

De qualquer forma, voltou a frisar que não há despedimentos no banco público, havendo rescisões, frisando o que vem dizendo há anos: as condições de saída com pré-reformas aos 55 anos e reformas integrais aos 60 anos são das melhores do mercado.

Sem perda de negócio

Criticado pelos vários partidos pelo encerramento de balcões e por desvirtuamento em relação à missão de serviço público, Macedo foi ao Parlamento preparado com uma apresentação com slides para mostrar que não havia reflexos negativos por conta daquela decisão.

“O que nós vemos é que a Caixa hoje tem muito mais negócio do que tinha. Crescemos no volume de negócios e crescemos mais do que os outros bancos. Não tem qualquer fundamento dizer que se perde negócio para os outros bancos”, defendeu o CEO (presidente executivo) do banco, ao lado dos administradores José João Guilherme e Maria João Carioca.

A rentabilidade, assegura a gestão do banco, não é o único fator que conduz à decisão de corte de agências. “Não seguimos o critério da rentabilidade, senão tinha-se fechado em Barrancos e na Vidigueira, onde estamos sozinhos”, ripostou Macedo, dizendo que “não abandona o território nacional”, e, recorrendo aos slides que levou para a audição, frisou que tem uma presença em cerca de 99% dos concelhos, 100% nos urbanos, 99% nos semi-urbanos e nos rurais.

Nas agências em que há menor procura, o presidente do banco considera que “faz sentido ter parcerias com a câmara [municipal] ou com as juntas de freguesia, ou alguma outra entidade”. Objetivo? “Para podermos ter modelos para manter o serviço onde a rentabilidade é negativa, ou a procura é basicamente inexistente”.

“O que está a ser equacionado são novos modelos de agências”, adiantou o antigo ministro da Saúde, que desde 2017 lidera a Caixa Geral de Depósitos, admitindo que essa reflexão sobre o futuro posicionamento de agências pode incluir “as vantagens da descentralização” da oferta cultural, como pedido pelos deputados. Uma garantia deu: “A Culturgest é para manter”.