Economia

Porto no epicentro dos investimentos na ferrovia. Alta velocidade vai colocar aeroporto Sá Carneiro a pouco mais de 1h15 de Lisboa

rui duarte silva

Projeto da alta velocidade entra nos carris a partir da estação de Campanhã no Porto, com ligação a Lisboa em 1h15 e a Vigo em 1h, em 2030. Governo garante que será desta que o projeto sai do papel

29 setembro 2022 18:23

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Pedro Lima

Pedro Lima

Editor-adjunto de Economia

Habituado a ver projetos de infraestruturas de grande dimensão serem adiados, Portugal quer recuperar os anos perdidos na alta velocidade. O atual governo de maioria absoluta PS diz que agora é que é. E os projetos lançados oficialmente esta semana prometem uma “revolução” nas acessibilidades por ferrovia a partir de 2030 nas zonas norte e centro do país, reduzindo significativamente os tempos de viagem por comboio.

O epicentro destes investimentos situa-se no Porto, de onde irradiam as duas linhas detalhadas esta quarta-feira: Porto-Lisboa e Porto-Vigo. “O projeto reforça a fachada atlântica, permite ser o interface entre o continente e o enorme mundo atlântico, não vamos ficar só com as duas áreas metropolitanas mais próximas, todo o país será servido”, disse o primeiro-ministro, António Costa, na cerimónia de apresentação do projeto, que decorreu esta quarta-feira na estação de Campanhã, no Porto.

Quando a primeira fase da linha Porto-Vigo estiver concluída, em 2030, o aeroporto Sá Carneiro assumirá uma relevância significativa no mapa da alta velocidade com a ligação à estação de Campanhã, onde terminará a nova linha Porto-Lisboa. A ligação de Campanhã ao aeroporto fará parte da primeira fase da nova linha Porto-Vigo, prevista terminar em 2030 e que contempla também o troço entre Braga e Valença. A segunda fase da linha liga o aeroporto Sá Carneiro a Braga. Em 2030 será assim possível ir do aeroporto até à estação de São Bento, no centro do Porto, em apenas 12 minutos, quando atualmente se demora cerca de 1h, segundo uma simulação apresentada na quarta-feira pela Infraestruturas de Portugal (IP) que recorre a um trajeto combinado entre comboio e Metro do Porto. Os mesmos 12 minutos que demorará a chegar à estação de Gaia, quando hoje se demora 1h10 por comboio e Metro.

Santiago de Compostela passará a estar à distância de 2h30 do aeroporto Sá Carneiro quando atualmente demora 6h04. Do aeroporto até Vigo demora-se atualmente 3h22 e em 2030 esse tempo reduzir-se-á para 1h25.

Em relação a Lisboa, a duração da viagem a partir do Sá Carneiro não foi detalhada, mas não será muito superior aos 1h15 de duração prevista para a viagem por alta velocidade entre a estação de Campanhã, no Porto, e a estação do Oriente, em Lisboa, quando a nova linha Porto-Lisboa estiver concluída.

Atualmente a viagem entre o Porto e Vigo dura 2h22 com paragens em Nine, Viana do Castelo e Valença. Com a nova linha concluída, para lá de 2030, o tempo de percurso passará para 50 minutos.

A nova linha até Vigo está dependente dos investimentos em Espanha, como lembrou o vice-presidente da Infraestruturas de Portugal (IP) na sessão de apresentação dos projetos, na quarta-feira. “O troço entre Braga e Valença liga ao troço novo do lado espanhol e terá de estar articulado com Espanha, só podemos começar a construir quando Espanha começar a construir”, explicou Carlos Fernandes.<

A articulação com Espanha é por isso essencial, mas estará já em marcha. O ministro das Infraestruturas reuniu este mês com a sua homóloga espanhola, Raquel Sánchez, ministra dos Transportes, e o tema será abordado na cimeira ibérica que vai decorrer em outubro no Minho.

Concertação na Assembleia da República

O primeiro-ministro tem repetido que a estratégia do Governo é, apesar de ter uma maioria absoluta, alcançar um consenso com os outros partidos, para obter a aprovação das grandes públicas como a alta velocidade e o novo aeroporto de Lisboa por pelo menos dois terços dos deputados na Assembleia da República.

O ministro das Infraestruturas salientou na sessão de quarta-feira não ter dúvidas que o adiado projeto de alta velocidade reúne o consenso em todo o país, “o que raramente acontece em Portugal”. Pedro Nuno Santos disse que a alta velocidade irá mudar a face do país “de forma permanente”, após décadas em que a prioridade foi centrada na rodovia e no transporte individual. “Não podemos adiar nem hesitar mais, temos de acabar com o pára arranca que tanto caracteriza a decisão política em Portugal”, advertiu o ministro da tutela na presença de António Costa, aviso que assenta como uma luva no cenário de avanços e recuos políticos de mais de quatro décadas na questão da localização do novo aeroporto de Lisboa.

O ministro que avançou, em junho, com a solução Montijo+Alcochete para ultrapassar o impasse do sobrelotado Aeroporto Humberto Delgado e acabou desautorizado pelo primeiro-ministro, desta vez, atirou que “já ninguém pára o comboio”. Para Pedro Nuno Santos, a ferrovia e a alta velocidade são instrumentos fundamentais à coesão territorial e ao desenvolvimento do país, prioridades que afiança não serem vazias.

“Temos de abandonar esse instinto tão nosso de achar que os objetivos são sempre demasiado ambiciosos para o nosso povo”, acrescentou, afiançando que a ferrovia é uma aposta com resultados concretos, estratégia e ambição, “um instrumento de desenvolvimento e coesão territorial”.

Segundo avançou o ministro, a nova linha irá colocar cidades como Aveiro, Coimbra, Figueira da Foz ou Guarda a menos de uma hora das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. Outra das garantias deixada aos futuros passageiros dos comboios portugueses é a de frequência horária: “Qualquer passageiro que chegue a uma estação saberá que haverá ligações de hora a hora, sem atrasos de chegadas e partidas”.

Apesar dos “tempos exigentes em que vivemos”, marcados pela pandemia, depois pela guerra na Ucrânia e ainda pela seca severa, António Costa garante que o país tem condições financeiras e políticas para “abrir linhas de futuro”, apontando como fundamental a mudança estratégica no transporte público. Depois dos passes únicos a preço reduzido nas áreas metropolitanas, o chefe do Governo lembrou a construção da nova linha metro em curso no Porto e a construção de uma segunda linha em Vila Nova de Gaia.

No Porto, António Costa não se coibiu de piscar o olho aos autarcas locais, ao notar que o investimento no metro em Lisboa é “bem mais modesto, uma linha em execução e outra prevista para breve”.

“Mudança de paradigma entrou nos carris”, diz António Costa

Tal como o ministro das Infraestruturas, lembrou que a ferrovia foi o parente pobre das últimas décadas face à prioridade dada à rodovia. Sete anos após ter chegado ao Governo, António Costa assegura que a mudança de paradigma na mobilidade “entrou nos carris”. Em sintonia com o seu ministro, garante que a alta velocidade irá reforçar a coesão interna e reforçar a competitividade externa. “Este não é um projeto de ligação às capitais peninsulares, este é um projeto que une o país e reforça a fachada de um país que quer ser o interface entre o continente e o mundo atlântico”.

O primeiro-ministro garante ainda que não vão ser só as duas áreas metropolitanas de Porto e Lisboa que ficarão mais próximas, uma vez que circularão também nas linhas de alta velocidade “comboios que servem o resto do país”.

Em relação ao calendário, António Costa lembrou que defende, desde 2015, que os projetos estruturantes têm de ser objeto de “grande consenso nacional e ter o apoio de dois terços no Parlamento”. “São infraestruturas para década e transcendem em muito qualquer maioria e, por isso, as decisões devem ser devidamente ancoradas e não ser soluções de pára arranca”.

O primeiro-ministro acredita que o país tem condições financeiras que permitam à alta velocidade avançar sem sobressaltos, mesmo que as novas linhas ainda tenham de passar pelo crivo dos sempre morosos estudos impactos ambientais.

Outra das dúvidas é onde circulará sobre o Douro a linha de alta velocidade, decisão que deverá ser anunciada em breve e que deve passar pela construção de uma única ponte entre o Porto e Gaia, em vez de duas: uma rodoviária, prometida em 2018 pelos autarcas Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues, cujo concurso público termina em meados de outubro, e seria financiada maioritariamente pelos dois municípios; outra ferroviária a financiar por fundos europeus.

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, já se mostrou favorável ao modelo uma ponte, duas travessias - uma ferroviária à cota alta, o tabuleiro para carros à cota baixa -, mesmo que isso implique pagar indemnizações aos concorrentes à Ponte D. António Francisco dos Santos.

Segundo Carlos Fernandes, vice-presidente das Infraestruturas de Portugal (IP), já foram estudadas várias alternativas de travessia: “Estudámos algumas alternativas, mas estamos particularmente condicionados com o facto de termos uma estação em Santo Ovídio e outra em Campanhã. Uma solução surgiu no alinhamento de uma ponte estudada pelas câmaras do Porto e de Gaia à cota baixa, o que nos levou a fazer uma avaliação técnica da possibilidade de fundir as duas pontes”.

O responsável da IP salientou que viabilidade técnica da fusão destas duas pontes “está perfeitamente demonstrada”, além de que do ponto de vista financeiro “é obviamente muito interessante” juntar as duas. “É muito mais barato construir uma ponte do que duas pontes e quanto aos impactos no Douro é muitíssimo benéfico fazer só uma ponte. É uma decisão que será tomada pelos autarcas e pelo governo nas próximas semanas, uma única ponte que junte as finalidades rodoviária e ferroviária nesta travessia do Douro”, revelou Carlos Fernandes.

Porto e Gaia vão ter novas estações

Na margem norte do Douro, Campanhã vai ter uma nova estação, gizada para que os comboios possam ligar-se à linha do Minho, numa primeira fase com destino a Braga e Guimarães e no futuro para Vigo. Carlos Fernandes, vice-presidente da Infraestruturas de Portugal (IP), refere que a nova estação “vai ficar também preparada para uma nova ligação ao aeroporto Francisco Sá Carneiro”, a construir em túnel. “Estamos a desenvolver uma parceria com a Câmara do Porto no sentido de desenvolver um plano de urbanização que integre a estação com a cidade”, adiantou.

Em Vila Nova de Gaia também nascerá uma nova estação, a construir no eixo da alta velocidade, em Santo Ovídeo, no cruzamento de duas linhas de metro, a já existente (a Linha Amarela) e a futura (a Rubi). A solução está a ser trabalhada com a administração da Metro do Porto para permitir que o passageiro que chegue a Santo Ovídio num comboio de alta velocidade possa de imediato apanhar o metro sem ter de sair e vir à superfície.

“Será uma estação que servirá toda a zona sul da área metropolitana do porto e será também a solução indicada para o acesso à área ocidental do Porto”, notou Carlos Fernandes.

O Governo explica que faz sentido ter uma estação em Gaia, mesmo sendo tão próxima do Porto, sendo frequente nas redes de alta velocidade haver mais do que uma a servir a mesma área metropolitana. A título de exemplo, é dado os serviços Alfa com paragem, em Lisboa, nas estações de Santa Apolónia, Oriente e Entrecampos, e, no Porto, em Campanhã e Gaia-Devesas. “Estas paragens não prejudicam significativamente o tempo de viagem total e facilitam o acesso de passageiros ao serviço”.