Economia

A carne também vai ser matéria-prima têxtil

27 setembro 2022 18:12

d.r.

Há 21 milhões de euros do PRR para ajudar a transformar os resíduos alimentares numa nova fonte de matéria-prima para a indústria têxtil

27 setembro 2022 18:12

A indústria têxtil portuguesa está a olhar os resíduos alimentares como mais uma fonte de matéria-prima para um futuro em que os biomateriais estarão cada vez mais na moda. Com esta nova tendência, até a carne passa a interessar ao sector, como prova um projeto de 21 milhões de euros, financiado pelo PRR - Plano de Recuperação e Resiliência.

“É o maior projeto de sempre para se ir à procura de resíduos alimentares como matéria têxtil”, adianta Braz Costa, diretor-geral do CITEVE - Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário, a trabalhar neste projeto com o CeNTi - Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes e com várias e empresas.

“Vamos utilizar um algodão orgânico que vem da Austrália, ou uma fibra reciclada feita aqui pelas nossas empresas?”, questiona Braz Costa, citado pelo jornal T, da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal sobre este projeto a pensar numa “reversão completa sobre o que é a matéria-prima”.

Exemplos do que pode ser feito? usar proteínas e resíduos das carnes para novas fibras e revestimentos têxteis, como colagénio e queratina, e recorrer ao conhecimento e aos processos da indústria das carnes para a têxtil, designadamente no que respeita a espessantes para a pasta de estampar têxtil e ao processo de esterilização alimentar para a extração de ingredientes funcionais.

Criar valor acrescentado a partir de recursos biológicos

Sem pormenorizar, uma vez que “as empresas não querem por enquanto divulgar os seus planos” Braz Costa referiu que este trabalho encaixa no projeto global de bioeconomia sustentável do PRR, com um investimento total de 138 milhões de euros.

O objetivo, explicou, é marcar “um novo ritmo de mudança e acelerar a criação de produtos de alto valor acrescentado a partir de recursos biológicos, em alternativa às matérias de base fóssil”.

O alimentar e o têxtil têm, assim, desafios comuns, seja pelas exigências sustentáveis dos consumidores, pelas alterações dos hábitos de consumo, pela nutrição personalizada e costumização da moda ou pela exigência crescente de equilíbrio e bem-estar.

A reforçar a existência de um caminho paralelo para os dois sectores, no “Meat Meetings’ 22”, encontro promovido pelo TECMEAT, centro congénere do CITEVE para o agroalimentar, também com sede em Famalicão, Manuel Pintado, da Universidade Católica, apresentou o projeto R4Texteis, que trabalhou no desenvolvimento de têxteis sustentáveis com base na valorização de resíduos têxteis e agroalimentares e ajudou a nascer o tecido Tenowa, da Riopele, Prémio Inovação Cotec em 2018.