Economia

Juros na zona euro sobem para 1,25%. BCE decide maior aumento de sempre

8 setembro 2022 13:20

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O Banco Central Europeu decidiu esta quinta-feira aumentar as taxas de juro em 75 pontos-base. A taxa diretora está agora em 1,25%. Optou pela maior subida de sempre nos seus vinte e quatro anos de vida

8 setembro 2022 13:20

O conselho do Banco Central Europeu (BCE) decidiu esta quinta-feira subir a taxa de juro para 1,25%, um aumento de 75 pontos-base (três quartos de ponto percentual), o maior aumento de sempre na vida do euro e em linha com as subidas decididas em junho e julho pela Reserva Federal norte-americana (Fed)..

A taxa de remuneração dos depósitos dos bancos no sistema do BCE, que segundo muitos economistas assume agora cada vez maior importância, passou de 0% para 0,75%. Em conferência de imprensa Christine Lagarde, a presidente do BCE, explicará em detalhe as decisões tomadas.

Recorde-se que o BCE iniciou um ciclo de subida dos juros em julho passado, com um aumento de 50 pontos-base (meio ponto percentual), bastante mais tarde do que a maioria dos bancos centrais das economias desenvolvidas.

O Banco de Inglaterra iniciou a subida de juros em dezembro do ano passado e a Reserva Federal norte-americana em março passado. A decisão de julho por parte do BCE terminou com um período de mais de seis anos em que a taxa principal esteve em zero e em que a taxa de remuneração dos depósitos esteve em terreno negativo durante muito mais tempo, desde junho de 2014.

Refira-se, ainda, que, na estratégia de comunicação para os mercados avançada em julho para este ciclo de aperto da política monetária, o BCE definiu que não anteciparia a dimensão do aumento dos juros em reuniões futuras.

A decisão fica em aberto sendo discutida em cada reunião, de acordo com os dados da economia e dos mercados. “As futuras decisões do Conselho do BCE sobre as taxas de juro diretoras continuarão a depender dos dados e a seguir uma abordagem reunião a reunião”, reafirma o comunicado publicado esta quinta-feira. O economista-chefe, Philip Lane, considerou, recentemente, que se trata de uma “nova fase” na política monetária. Até final do ano, o BCE tem agendadas mais duas reuniões, a 27 de outubro e a 15 de dezembro.

Desde a reunião de julho, o surto inflacionário agravou-se na zona euro, com a variação de preços no consumidor a atingir um máximo histórico mensal em agosto de 9,1% em termos homólogos (em relação ao mesmo mês do ano passado) e com as pressões nos mercados a subirem para uma aceleração no aperto da política monetária. O BCE avisa que “as pressões sobre os preços continuaram a ganhar força e a generalizar‑se ao conjunto da economia, podendo a inflação voltar a subir no curto prazo”.

BCE admite estagnação e aponta para uma inflação média de 8%

O BCE divulga esta quinta-feira o novo quadro de projeções macroeconómicas, atualizando o publicado em junho. O BCE reconhece a possibilidade de “uma estagnação na parte final do ano e no primeiro trimestre de 2023” e considera, agora, que o surto inflacionista será muito mais severo.

As novas previsões apontam para uma inflação média anual de 8,1% em 2022 (6,8% nas projeções de junho), de 5,5% (3,5% anteriormente) em 2023 e de 2,3% em 2024 (ainda acima do objetivo de 2% da estabilidade de preços). A própria inflação subjacente (excluindo as componentes da energia e alimentação, consideradas mais voláteis) é projetada, agora, para persistir acima de 3% nos três anos, claramente acima do objetivo global de 2%: 3,9% em 2022, 3,4% em 2023 e 2,3% em 2024.

Quanto ao crescimento, o BCE reviu em alta a subida do PIB em termos reais em 2022, para 3,1% (2,8% nas projeções de junho), mas cortou substancialmente em relação ao próximo ano. De 2,1% previstos em junho, aponta agora para 0,9% em 2023. Num cenário alternativo, mais pessimista, os economistas do BCE apontam para uma recessão em 2023 com uma quebra de 0,9% do PIB da zona euro.

Estratégia de reinvestimentos mantém-se

O BCE reafirma, ainda, a estratégia de reinvestimento dos ativos da sua carteira quando chegam à maturidade. “O Conselho do BCE pretende continuar a reinvestir, na totalidade, os pagamentos de capital dos títulos vincendos adquiridos no âmbito do programa de compra de ativos (asset purchase programme – APP) durante um período prolongado após a data em que começou a aumentar as taxas de juro diretoras do BCE e, em qualquer caso, enquanto for necessário para manter condições de liquidez amplas e uma orientação de política monetária adequada”, lê-se no comunicado.. “No que respeita ao PEPP [o programa especial lançado em março de 2020 e descontinuado em março de 2022], o Conselho do BCE tenciona reinvestir os pagamentos de capital dos títulos vincendos adquiridos no contexto do programa até, pelo menos, ao final de 2024. De qualquer forma, a futura descontinuação gradual da carteira do PEPP será gerida de modo a evitar interferências com a orientação de política monetária apropriada”.

O conselho decidiu, finalmente, reafirmar o papel do novo ‘escudo’ contra a especulação nos mercados da dívida pública lançado em julho. “O Instrumento de Proteção da Transmissão [TPI, no acrónimo em inglês] está disponível para contrariar dinâmicas de mercado desordenadas, injustificadas e passíveis de representar uma ameaça grave para a transmissão da política monetária em todos os países da área do euro, permitindo, assim, ao Conselho do BCE cumprir mais eficazmente o seu mandato de manutenção da estabilidade de preços”.