Economia

Aumento das taxas de juro. BCE não quer ficar prisioneiro de uma decisão antecipada

25 agosto 2022 14:09

Christine Lagarde travou o ataque especulativo no mercado da dívida, mas Itália e Grécia continuam na zona vermelha

wolfgang rattay/reuters

As atas divulgadas esta quinta-feira da última reunião do Banco Central Europeu em julho revelam que, apesar do substancial aumento inesperado de 50 pontos-base aprovado para o início do ciclo de subida das taxas, o conselho de banqueiros do euro não quer ficar "preso" a nenhuma antecipação de decisões futuras que depois tenha de reverter

25 agosto 2022 14:09

As atas da última reunião do Banco Central Europeu (BCE) a 20 e 21 de julho, publicadas esta quinta-feira, mostram que se formou um consenso em torno de três ideias chave: o conselho de banqueiros do euro chefiado por Christine Lagarde não quer ficar "prisioneiro" de uma orientação "específica" para as subidas das taxas no futuro; o aumento inesperado de meio ponto percentual nas taxas, apertando a política monetária, foi compensado pela aprovação de um novo instrumento (batizado com a sigla TPI) para combater a especulação contra a dívida de algumas economias; a estratégia é manter em cada reunião as opções em aberto - as decisões serão tomadas reunião a reunião em função dos dados concretos da conjuntura.

A opinião de Philip Lane, economista-chefe do BCE, para que o BCE não comunique uma estratégia pré-determinada para o ciclo de subida das taxas (que se iniciou precisamente na reunião de julho) e que as opções sejam mantidas em aberto em cada reunião futura acabou por ganhar o consenso.

O BCE aprovou um aumento das taxas em 50 pontos-base (meio ponto percentual) em julho, mas isso não significa que essa seja a decisão que vai tomar a 8 de setembro e depois a 27 de outubro e a 15 de dezembro. As decisões serão tomadas reunião a reunião.

A proposta, avançada também por Lane com base num trabalho preparatório desde a reunião de emergência a 15 de junho, para a criação de uma espécie de 'escudo' contra a especulação sobre as dívidas soberanas na zona euro, o que os banqueiros do euro chamam de risco de fragmentação, foi, também, aprovada. A nova ferramenta batizada com a sigla em inglês TPI - para Instrumento de Proteção da Transmissão (da política monetária) - funciona como um contrapeso ao inevitável ciclo de subida das taxas do BCE que estavam em mínimos e desajustadas do andamento nos outros bancos centrais das economias desenvolvidas, nomeadamente da Reserva Federal norte-americana (Fed), e do nível a que a inflação já chegou na zona euro (em julho, mais alta do que nos Estados Unidos)..

O irlandês convenceu o conselho de que o ciclo de subida das taxas "pode ser um gatilho para a segmentação nos mercados de obrigações" e que a acentuação da "fragmentação" no espaço das 19 economias do euro (20 a partir de janeiro próximo) pode "degenerar numa crise de dívida auto-alimentada". O TIP deverá servir para dizer aos mercados que o BCE está comprometido em atuar contra "movimentos não justificados pelos dados fundamentais" das economias do euro.

Na discussão, uma "muito larga maioria" pronunciou-se por acelerar o 'gradualismo' e iniciar o ciclo de subida das taxas logo em meio ponto percentual, enquanto "alguns membros" do conselho queriam ir mais devagar, com um primeiro aumento de apenas 25 pontos-base (metade do que acabou por ser aprovado).

Recorde-se que, desde a reunião de julho, a taxa diretora do BCE subiu para 0,5% - mesmo assim muito longe do intervalo 2,25%- 2,5% em que já está a taxa da Fed - e a taxa de remuneração dos depósitos dos bancos comerciais no sistema do BCE saiu de terreno negativo (-0,5%) para zero.

BCE 'entalado' entre contração económica e ainda mais inflação

As atas publicadas esta quinta-feira mostram que o conselho foi alertado para a perceção existente nos mercados de "um possível cenário de estagflação" e que o 'sentimento' dos investidores guinou da preocupação com o surto inflacionista para o risco dessa estagnação na zona euro com alta inflação. A expetativa nos mercados é que a inflação se mantenha alta este ano, no próximo e ainda no primeiro semestre de 2024. No entanto, o conselho do BCE continua a considerar que não há risco de recessão.

A próxima reunião de 8 de setembro realiza-se num quadro em que 10 economias do euro já registavam em julho inflação em dois dígitos (com os três países bálticos acima de 20%) e o índice PMI (dos gestores de compras das empresas) em agosto aponta para uma contração económica já em curso no terceiro trimestre do ano.

O índice PMI caiu abaixo de 50 (limiar entre a expansão e a contração da economia) consecutivamente em julho e agosto. O horizonte negativo reforçou-se esta quinta-feira com a divulgação pelo instituto Ifo do índice de clima de negócios na Alemanha que prossegue em agosto uma queda que indicia que a economia germânica, a mais importante da zona euro, já está em território recessivo.

As previsões dos analistas para a inflação apontam para a continuação da trajetória de subida, com a taxa da zona euro em julho já em 8,9% (9,4% em Portugal). O Bundesbank, banco central alemão, antecipa que a inflação na Alemanha, que subiu em julho para 8,5%, poderá chegar aos dois dígitos no outono. A trajetória destas previsões é contrária ao que já se está a registar nos Estados Unidos, que terão atingido o pico do surto inflacionário em junho (9,1%), tendo descido para 8,6% no mês seguinte.

Mercados pressionam Itália e testam BCE

As atas publicadas esta quinta-feira são divulgadas em uma semana em que um ataque especulativo se centrou sobretudo na dívida italiana, que registou durante as sessões diárias flutuações dos juros a 10 anos de quase 1 ponto percentual. Na quarta-feira, os juros das obrigações transalpinas dispararam, no fecho da sessão, para 4,6%, um nível acima do pico de 4,2% registado a 14 de junho, aquando do anterior movimento especulativo que levaria à reunião de emergência do BCE no dia seguinte.

O spread da dívida italiana em relação ao custo de financiamento da dívida alemã, que serve de referência na zona euro, escalou para mais de 320 pontos-base, o equivalente a um diferencial de mais de 3 pontos percentuais exigido pelos investidores para adquirirem obrigações transalpinas. Este nível de prémio de risco está muito acima da linha vermelha de 200 pontos-base (um spread de 2 pontos percentuais) traçada, em junho, pelo governador do Banco de Itália.

Os analistas do banco alemão Commerzbank consideram, esta quinta-feira, que, com o disparo desta semana, a dívida italiana entrou claramente em "território de intervenção" do 'escudo' anti-especulação (anti-fragmentação na linguagem oficial do BCE) anunciado a 15 de junho e aprovado na reunião de 21 de julho sob a sigla TPI em inglês para "Instrumento de Proteção à Transmissão" da política monetária. A manter-se esta pressão, a reunião do conselho do BCE a 8 de setembro antevê-se turbulenta.

Os esforços de contenção do spread italiano, através da 'flexibilização' dos reinvestimentos de obrigações na carteira do BCE quando chegam à maturidade, revelam-se insuficientes face ao risco do partido de extrema-direita Fratelli d'Italia alcançar nas eleições legislativas a 25 de setembro uma vitória que lhe permita liderar um governo de coligação (com a Lega de Matteo Salvini e a Forza Italia de Silvio Berlusconi) que provocará uma esperada guinada anti-europeia na política italiana face a Bruxelas.

O movimento de 'flexibilização' na gestão das compras líquidas do BCE pode ser observado nos dois programas de aquisição já descontinuados. No âmbito do PEPP, o programa de emergência terminado no final de março de 2022, o BCE realizou, em junho e junho, compras líquidas a Itália (9,8 mil milhões de euros), Espanha (5,9 mil milhões), Grécia (1,1 mil milhões), Portugal (514 milhões) e Irlanda (178 milhões). No quadro do PSPP, o programa mais antigo lançado por Mario Draghi e descontinuado a 1 de julho, o BCE realizou compras líquidas em julho em Itália (2,26 mil milhões de euros), em Espanha (1,73 mil milhões) e em muito menor grau na Finlândia (500 milhões), Irlanda (400 milhões) e Portugal (382 milhões). Compras líquidas de muito menor volume à Eslovénia, Eslováquia e Lituânia.

O falhanço da coligação liderada por Mario Draghi deixou os mercados mais nervosos, apesar dos reinvestimentos líquidos volumosos pelo BCE.

O ataque especulativo está a arrastar a Grécia (com o spread acima de 260 pontos-base a 24 de agosto) e a pressionar as dívidas da Letónia, Lituânia, Chipre, Malta e Espanha com prémios de risco acima de 140 pontos-base. Mais resguardados têm estado Eslovénia, Eslováquia e Portugal com os spreads pouco acima de 100 pontos-base.