Economia

BCE sobe taxa de juro em 0,5 pontos percentuais. É o primeiro aumento em mais de uma década e o maior em 22 anos

21 julho 2022 13:18

michael probst/reuters

Decisão anunciada esta quinta-feira fica acima do sinalizado Christine Lagarde no final de junho. O objetivo é travar a inflação, que está em máximos históricos na zona euro

21 julho 2022 13:18

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou esta quinta-feira um aumento de 0,5 pontos percentuais na sua taxa diretora. Esta subida, a primeira em mais de um década, ficou acima do que tinha sido sinalizado pela sua presidente, Christine Lagarde, no Fórum da instituição, realizado em Sintra, no final de junho.

Mais ainda, é preciso recuar 22 anos, ao mandato de Wim Duisenberg, para encontrar uma subida tão pronunciada.

O BCE anunciou ainda um aumento também de 0,5 pontos percentuais nas suas outras taxas de juro de referência, como o instrumento da facilidade de depósitos, que estava em território negativo, e passa a estar em zero. Ao mesmo tempo anunciou a aprovação do mecanismo anti-fragamentação, que visa defender os países do euro que sofram maiores subidas nas suas taxas de juro soberanas.

Em comunicado, o Conselho do BCE justifica a decisão de um aumento dos juros superior ao que tinha sido sinalizado com "uma avaliação atualizada dos riscos de inflação" e "o apoio reforçado" fornecido pelo mecanismo anti-fragmentação para "efetiva transmissão da política monetária".

O comunicado antecipa ainda novos aumentos dos juros nas próximas reuniões do BCE: "Nas próximas reuniões do Conselho, será apropriada uma normalização adicional das taxas de juro", lê-se no documento. E salienta que a abordagem às decisões sobre taxa de juro "será feita reunião a reunião", "continuando a estar dependente dos dados" que forem ficando disponíveis.

Sobre o mecanismo anti-fragmentação, o comunicado vinca que o Conselho do BCE considerou que o seu estabelecimento "é necessário para apoiar a transmissão efetiva da política monetária". Em particular, à medida que prossegue a normalização da política monetária, o mecanismo "irá garantir uma transmissão suave dessa política a todos os países da área do euro".

E vinca que este mecanismo "pode ser ativado para contrariar dinâmicas de mercado desordenadas e injustificadas, que coloquem uma séria ameaça à transmissão da política monetária a toda a área do euro".

A escala das compras de ativos ao abrigo deste programa "depende da severidade dos riscos" e "não estão restringidas ex-ante", frisa o comunicado. Ou seja, não há um teto pré-definido para a escala deste programa. Mais detalhes serão dados num comunicado a publicar ainda esta quinta-feira pelo BCE.

Este aumento dos juros superior ao que tinha sido sinalizado por Lagarde já tinha começado a ser antecipado como possível pelos mercados financeiros, dada a depreciação do euro, que está quase na paridade com o dólar norte-americano.

É que a depreciação da moeda única significa mais inflação importada, porque os preços dos bens e serviços importados - nomeadamente produtos energéticos e matérias-primas que são habitualmente expressos em dólares nos mercados internacionais - ficam mais caros quando expressos em euros. Ou seja, pressiona ainda mais em alta a inflação na zona euro.

A inflação é, precisamente, a razão que leva o BCE a avançar com esta subida dos juros. A escalada dos preços continua sem dar tréguas na zona euro, com a taxa de inflação e atingir os 8,6% em junho em termos homólogos. É um máximo desde a criação do euro e está muito acima da fasquia dos 2%, que é a referência para o BCE, que tem como mandato a estabilidade dos preços.

Este aumento dos juros foi mais um passo no endurecimento da política monetária do BCE, que começou por pôr um ponto final nos programas de compra de dívida. Em março terminou o programa de emergência criado por causa da crise pandémica, e no início deste mês de julho chegou ao fim o programa mais antigo, criado quando Mario Draghi ainda liderava a instituição.

Ate ao final do ano, são esperados novos aumentos da taxa diretora do BCE, que continua muito aquém da taxa diretora da Reserva Federal dos Estados Unidos (FED). A FED já avançou com três aumentos dos juros este ano, que colocaram esta taxa no atual intervalo entre 1,5% e 1,75%.

Um diferencial face à zona euro que tem alimentado a depreciação do euro face ao dólar, e que o BCE procura travar.

Contudo, o BCE trilha um caminho muito estreito, para manter o equilíbrio entre o combate à inflação e evitar a fragmentação da zona euro. É que num contexto em que as projeções apontam para um forte abrandamento da economia europeia, as taxas de juro de mercado estão a subir há meses.

Uma evolução sentida nas taxas Euribor - que servem de indexante à esmagadora maioria dos contratos de crédito à habitação em Portugal -, agravando as prestações dos empréstimos de famílias e empresas.

Mas, também nas taxas de juro da dívida soberana, agravando o custo de financiamento dos países e a fatura com o serviço da dívida pública. Uma situação que afeta, em particular, os países mais endividados do euro, como Portugal ou a Itália.

Ora, tudo isto acontece quando a Itália vive um momento complicado, dada a demissão do Governo de Mario Draghi, situação que pode agravar ainda mais os juros da dívida daquele país.

É por isso aguardada com expetativa a conferência de imprensa de Lagarde, agendada para a tarde desta quinta-feira, nomeadamente no que toca a maiores explicações sobre o mecanismo anti-fragmentação. E que visa precisamente defender os países que possam sofrer maiores agravamentos na taxa de juro da sua dívida soberana, para evitar uma nova crise da dívida na zona euro.

O BCE também já anunciou que vai usar de forma flexível os reivestimentos dos programas de compra de dívida que chegaram ao fim, visando também defender os países que sofram maiores agravamentos dos juros soberanos. No comunicado publicado pelo Conselho, é referido que esta flexibilidade nos reinvestimentos "continua a ser a primeira linha de defesa para contrariar riscos" à transmissão da política monetária na zona euro.