Economia

Diretor-Geral de Energia fala em "situação crítica" no sistema elétrico: "vamos estar em cima das cinzas"

2 julho 2022 13:12

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

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O líder da DGEG, João Bernardo, alertou para um "problema de segurança de abastecimento grave" na energia e indicou que seria possível reativar as centrais a carvão em Portugal mas "não há interesse político"

2 julho 2022 13:12

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O diretor-geral de Energia e Geologia, João Bernardo, está preocupado com a segurança de abastecimento no plano energético, em particular com o funcionamento do sistema elétrico. E numa intervenção num debate promovido esta semana pela Ordem dos Engenheiros e pela APE - Associação Portuguesa da Energia deixou o alerta. "No imediato, nos próximos dois ou três anos, vamos estar um bocadinho em cima das cinzas", afirmou.

A declaração de João Bernardo foi feita na passada quarta-feira, 29 de junho, na conferência "Desafios da transição energética", que entretanto a Ordem dos Engenheiros (OE) disponibilizou na sua página no YouTube, e que volta a enfatizar os riscos que o sistema elétrico português enfrenta, sobretudo à luz de um período de seca, e sem produção a carvão.

"Estamos em cima de um problema de segurança de abastecimento grave, não é hipotético, é grave. Podemos ter rupturas de abastecimento a muito curto prazo", declarou o diretor-geral de Energia e Geologia.

Posição que assumiu para defender uma agilização dos processos de licenciamento de nova capacidade de produção de eletricidade. "O que eu defendo é que se licencie. Passa-se o parque eólico e depois vai-se estudar se o lobo anda por ali ou não", afirmou João Bernardo. "O lobo desvia-se, como nós também nos desviamos. Toda a gente tem de se adaptar", acrescentou.

O diretor-geral de Energia não hesitou em apontar uma "situação crítica de segurança de abastecimento", que "mais crítica se torna quando as barragens podem vir a constituir um problema".

João Bernardo realçou que o sistema elétrico nacional vive atualmente com "dois grandes grupos de pressão": o fim da produção a carvão e a menor disponibilidade hídrica. "Vamos ter de passar a usar mais as centrais de ciclo combinado", admitiu, notando que isso obrigará "a uma gestão muito mais dinâmica da rede".

Mas mesmo usando toda a capacidade dos ciclos combinados, os desafios globais em torno da importação de gás natural obrigarão os produtores de eletricidade ibéricos a uma gestão criteriosa desse recurso. E também por isso Portugal tem tido fortes níveis de importação de eletricidade de Espanha nos últimos meses.

Espanha, reconheceu o diretor-geral de Energia, "vai continuar a ser uma das soluções que temos".

"No imediato, nos próximos dois ou três anos, vamos estar um bocadinho em cima das cinzas, ou seja, vamos depender muito da capacidade e da resposta que Espanha pode dar, e da capacidade de as centrais de ciclo combinado contribuírem, em conjunto com outros centros produtores", comentou, durante a conferência na Ordem dos Engenheiros.

Falta de vontade política de reativar o carvão

Apesar de outros países estarem a voltar ao carvão, para reduzir o recurso às centrais alimentadas a gás, devido às tensões com a Rússia, o Governo português já assumiu a posição de que a eletricidade a carvão em Portugal é um assunto encerrado, depois de a central de Sines ter fechado e de a central do Pego ter igualmente encerrado.

"Julgo que não há interesse político neste momento em reativar a central do Pego, que seria a única que podia ser mobilizada neste momento. Ela é passível de ser mobilizada numa situação de crise. Nós já estudámos esse cenário, e em mês e meio conseguimos pôr a central a funcionar", afirmou João Bernardo. "Mas não queremos utilizar isso", ressalvou.

Em causa está um estudo da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), que o Expresso revelou em março, e que apontava para a viabilidade técnica de reativar a central da Tejo Energia no Pego (que ainda não foi desmantelada) e metade da capacidade da central de Sines (onde dois dos quatro grupos geradores já foram desmantelados).

"A situação de contingência seria utilizar o Pego e eventualmente dois grupos de Sines. Mas isso não está em cima da mesa neste momento, o Governo não quer falar disso", afirmou esta semana o líder da DGEG na conferência na Ordem dos Engenheiros.

Por isso, o país deverá apostar em "tudo o que sejam instrumentos para elevar a potência" de parques e centrais já em operação, esperando que isso "possa ser suficiente" para garantir a segurança do sistema elétrico, apontou João Bernardo. "Vamos ver. Não sei", declarou.

A futura entrada em operação do complexo hidroelétrico do Alto Tâmega (da Iberdrola) e de novas centrais solares de larga escala poderão devolver o conforto ao sistema elétrico nacional, mas, enquanto tal não acontece, a rede ficará em larga medida dependente da capacidade das centrais a gás e da importação de eletricidade de Espanha, para colmatar a fraca disponibilidade hídrica e a volatilidade do recurso eólico.

Em declarações ao Expresso já após a publicação inicial deste artigo, o diretor-geral de Energia e Geologia assegurou que "não há um desalinhamento" entre a sua posição e a do Governo quanto ao futuro do sistema elétrico nacional. "Também não defendo a reabertura das centrais", declarou João Bernardo, frisando que "precisamos de acelerar imenso o licenciamento". "A nossa situação de segurança de abastecimento é delicada, mas o caminho é avançar com as energias renováveis", acrescentou.

Nota: notícia atualizada às 14h25 com comentários adicionais do diretor-geral de Energia e Geologia.