Economia

Sberbank e VTB: os bancos mais afetados pelas sanções têm ramificações até Angola e Vietname (e uma ligação discreta a Portugal)

1 março 2022 12:00

Foto: Andrey Rudakov / Bloomberg / Getty Images

Os bancos russos passaram para os títulos de notícias, por serem alvo de retaliação ocidental ao ataque russo, mas que entidades são estas?

1 março 2022 12:00

Sberbank e VTB: estes são os nomes dos dois maiores bancos russos e aqueles que mais estão a ser alvo de sanções internacionais, como resposta à invasão militar da Ucrânia perpetrada pela Rússia. As suas ramificações são extensas e já estão a levar a congelamentos de ativos fora das fronteiras russas, chegando a Angola e ao Vietname.

“Diariamente, as instituições financeiras russas conduzem transações no mercado cambial avaliadas, a nível global, em 46 mil milhões de dólares [algo como 40 mil milhões de euros], 80% dos quais em dólares americanos”. Esta é a justificação dada pelo Tesouro norte-americano para aplicar sanções internacionais a bancos russos, medidas que desligaram, na prática, o banco do mercado financeiro ocidental.

Juntos, os dois maiores bancos russos controlam metade do sistema: a quota de cerca de 32% do Sberbank junta-se aos 17% assegurados pelo VTB. Os restantes bancos são de mais reduzida dimensão: o terceiro maior, o Gazprombank, tem 8%, acima dos 5% do Alfa, o primeiro banco privado na lista das entidades financeiras russas. Os números constam de uma recente apresentação de um outro banco, o Sovcombank, este de capitais privados, também alvo de algumas sanções.

Todos eles fazem parte da lista de bancos com importância sistémica na Rússia, juntamente com outros de menor dimensão.

Foto: MICHAL CIZEK/AFP via Getty Images

Foto: MICHAL CIZEK/AFP via Getty Images

Sberbank: o banco em intervenção na união bancária

Detido maioritariamente pelo Governo da Federação Russa, o Public Joint Stock Company Sberbank of Russia (Sberbank) é o maior banco do país, representando um terço de todos os ativos bancários. Tem a maior quota de depósitos e é o principal credor da economia russa. Mais de metade dos créditos à habitação da Rússia são feitos nesta instituição financeira, de acordo com dados do Sberbank Europe, o seu braço europeu.

É este banco, fundado em 1841, o principal alvo da sanção internacional: é eliminado o estatuto de banco correspondente, o que limita qualquer contacto com os bancos americanos que sejam suas contrapartes. Dentro de um mês, não poderão ser feitas quaisquer transações com o Sberbank, nem com instituições financeiras suas subsidiárias, a partir dos EUA.

Banco russo na zona euro leva o mesmo rótulo do Banif e Popular: “em risco ou em situação de insolvência”. O que está em causa?

O gigante russo tem presença na Europa de Leste, sendo que as suas unidades europeias estão sob intervenção das autoridades de supervisão – a fuga de depósitos deixou-as numa frágil situação este fim-de-semana. O banco europeu está sediado na Áustria, tendo depois subsidiárias em países como a Croácia e a Eslovénia. Todas estão sob intervenção das autoridades de resolução, estando congelados grande parte dos movimentos (e limitados os depósitos). Uma decisão que colocou um travão à venda das operações na Croácia e Eslovénia que estava em curso desde o final do ano passado.

Há outras unidades do Sberbank em países europeus, como a Ucrânia e a Bielorrússia, passando por Chipre (a empresa do sector financeiro Arimero Holding Limited) e ainda pelo Luxemburgo (onde está o gestor de fundos SB Securities). Além disso, também conta com operação no Reino Unido e Estados Unidos.

Em Portugal, o Sberbank Europa atua em regime de livre prestação de serviços, uma espécie de passaporte comunitário que é dado a bancos que atuam na União Europeia que acionem essa autorização – é normal nos serviços financeiros acontecer. No caso do banco austríaco, a licença está ativa, mas não há qualquer indicação sobre negócios feitos no país.

VTB: o grupo acionista de um banco em Portugal

Vietname, Alemanha e Angola são geografias onde está o VTB Bank, o segundo maior banco russo que controla perto de 20% dos ativos do sector. Tem capital maioritário do Estado e as sanções aplicadas pelos Estados Unidos e aliados congelam os seus ativos, tornando-se “inacessível ao Kremlin”, como indica o comunicado do Tesouro americano. Nomes da liderança do VTB foram acrescentados à lista de sanções europeias, que existem desde a anexação considerada ilegal da Crimeia pela Rússia.

É este o banco russo que tem uma posição acionista de 12,2% no português Banco Finantia, posição que reforçou nos últimos anos. É um investidor de longa presença no banco de nicho. No seu Conselho Estratégico, estão três nomes ligados ao VTB.

No comunicado do Tesouro americano, não há menção específica a participações minoritárias, como aquela que o banco russo tem no Finantia. Estão apenas listadas as posições internacionais, como a angolana, o VTB Africa. Este banco tem um peso limitado, tendo um ativo em torno de 350 milhões de euros.

Grupo russo acionista do banco português Finantia entra na lista de sancionados do Reino Unido e EUA

Mais bancos visados

No comunicado dos EUA, são anunciados bloqueios a três outras instituições financeiras russas: Otkritie, Novikom, and Sovcombank.

Mais um banco estatal, o Otkritie ocupa o sétimo lugar na dimensão do sistema bancário russo. Tem 12 empresas subsidiárias, como uma seguradora e um banco, não só na Rússia como em Chipre. O estatal Novikombank é de menor dimensão, mas encontra-se na lista dos 50 maiores bancos. A sua inclusão prende-se com a área de atuação: o banco financia o sector da defesa.

O Sovcombank é o terceiro maior banco de capitais privados da Rússia, sendo o nono no ranking de bancos. Tem 22 subsidiárias da área de serviços financeiros na Rússia e Chipre. Como geografias acionistas constam entidades do Qatar, Arábia Saudita, Japão, entre outros.

Na Rússia, também há bancos europeus com presença significativa: o Raiffeisen Bank International e o Unicredit são exemplos. As ações dos bancos afundaram-se esta segunda-feira. O banco austríaco resvalou 14% em Viena, enquanto o Unicredit cedeu 9,5% em Milão. Entidades bancárias alemãs também perderam valor devido à exposição a empresas com presença na Europa de Leste, como conta a Bloomberg.

Foto: Horacio Villalobos / Corbis via Getty Images)

Foto: Horacio Villalobos / Corbis via Getty Images)

Itália e França mais expostos, Novo Banco com exposição residual

De acordo com a Reuters, os bancos italianos, franceses e austríacos são os mais expostos à economia russa.

Em Portugal, o Observador fez um trabalho em que os bancos nacionais deram conta de que não tinham exposição. O Novo Banco é o único que tem, inclusive através de dívida da Gazprom, denominada em euros – ao Expresso, o banco não quis comentar os mais de 10 milhões de euros de investimento que são atribuídos na notícia.

O Expresso contactou o Banco de Portugal na passada semana, para perceber a exposição de entidades nacionais à economia russa, mas não obteve ainda uma resposta.