Economia

66,2% dos portugueses dizem reciclar equipamentos elétricos e eletrónicos

9 outubro 2020 13:53

Fátima Ferrão

Um terço dos participantes no estudo revela não reciclar grandes e pequenos eletrodomésticos, computadores ou telemóveis

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Projetos Expresso. Consumidores acreditam que, apesar de reciclarem, mais de metade do lixo eletrónico acaba em aterros. Saiba mais sobre o estudo feito pela Qdata para a ERP Portugal - Entidade Gestora de Resíduos que faz parte da European Recycling Platform – e em associação com a LG, que avalia os hábitos nacionais neste tema, e que será divulgado amanhã pelo Expresso

9 outubro 2020 13:53

Fátima Ferrão

Reciclar os resíduos domésticos e colocá-los em ecopontos tornou-se um hábito para grande parte dos cidadãos há praticamente duas décadas, com 74,1% dos inquiridos no estudo promovido pela ERP Portugal e pela LG Portugal a revelar que o fazem, mesmo que tal exija algum esforço. No entanto, quando o tema são os Resíduos Elétricos e Eletrónicos (REEE), o cenário é um pouco distinto. Neste caso, e segundo o mesmo estudo, 66,2% dos portugueses garantem que entregam os seus equipamentos para reciclagem nos canais adequados. Ainda assim, um terço dos participantes revela não reciclar grandes e pequenos eletrodomésticos, computadores ou telemóveis, alguns porque não sabem onde podem fazê-lo, outros porque desconhecem a importância deste gesto.

A verdade é que, como aponta Hugo Jorge, diretor de marketing da LG Portugal, se estes equipamentos não forem devidamente tratados, quer porque entram em circuitos fora da reciclagem ou porque vão para o lixo e acabam em aterros, vão danificar os solos. Além disso, diz, “não estão a ser corretamente aproveitados para que possam voltar a ser utilizados no fabrico de outros produtos, até porque muitos deles contêm materiais raros e valiosos, que permitem evitar a sobrecarga de recursos ambientais”.

Mas esta é uma mensagem que parece não estar a passar para a população em geral, apesar de algumas campanhas de sensibilização, nomeadamente nas escolas, onde a ERP Portugal tem um curso a iniciativa Geração Depositrão há 13 anos. Rosa Monforte, diretora-geral desta entidade gestora de resíduos, revela ainda que fazem outras ações informativas junto das empresas de distribuição pois “são um canal privilegiado de venda e de recepção”. Com as conclusões deste estudo – algumas que surpreenderam a responsável -, a ERP, em conjunto com a LG Portugal, lançou um desafio à Startup Lisboa, uma incubadora de empresas, para que apresente projetos que possam ajudar a melhorar o comportamento dos consumidores ao nível da reciclagem de REEE. Outra iniciativa, revela Rosa Monforte, será a realização de um estudo conjunto com as três entidades gestoras “para perceber o estado da recolha dos REEE desde os sistemas municipais, uma avaliação de todo o mercado”.

Canais paralelos são um problema

Mais do que o desconhecimento da população sobre os locais onde devem ser colocados os REEE, o mundo da reciclagem conta com vários outros problemas que contribuem para o incumprimento das metas de reciclagem impostas pela União Europeia. Rui Berkemeier, dirigente da associação ambientalista Zero, aponta, por um lado, para a falta de pontos de recolha e a sua divulgação ampla e, por outro, a vandalização que muitas vezes acontece nestes locais e que acaba por desviar estes equipamentos para locais onde não são devidamente desmantelados e reciclados. Na sua opinião, para reciclar, os cidadãos ainda precisam de uma motivação que vai além da consciência ambiental. “Acreditamos que tem que haver um prémio, um sistema de depósito/devolução como o que está para ser implementado com as garrafas de plástico”, explica.

Um modelo já sugerido pela Associação Zero e que, diz Rui Berkemeier, parece já ter suscitado o interesse da secretaria de Estado do Ambiente. “Se queremos fazer a descarbonização, que tem tudo a ver com isto, a poupança de recursos, a economia circular, a sustentabilidade... ou não queremos. Temos que acreditar que algum governo, este ou outro, terá coragem para fazer isso, a menos que estes discursos que vemos muito ambientalistas por parte das entidades públicas fazer sejam apenas um faz de conta...”.

Do lado das entidades gestoras de resíduos, Rosa Monforte reconhece que existem problemas. “Temos um mercado paralelo de venda destes equipamentos, uma necessidade que não existe nos países com nível de vida superior”. A responsável da ERP Portugal lembra que estamos a falar de equipamentos que são apetecíveis do ponto de vista financeiro porque contêm cobre, aço e outros materiais que acabam por desaparecer muitas vezes do canal de recolha. “Em Portugal continuamos a tolerar alguns desvios do sistema como, por exemplo, entregar ao sucateiro. É um mercado paralelo que entendemos e uma questão cultural”.