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Morais Pires contra-ataca: "Governador do Banco de Portugal provocou uma tempestade perfeita" no BES

FOTO ALBERTO FRIAS

Em entrevista ao El País, o ex-administrador financeiro do BES, Amilcar Morais Pires, culpa o Banco de Portugal de ter intervencionado o então BES em agosto de 2014, de não ter aceite alternativas à resolução e de ter "inventado um aumento desnecessário de provisões"

O Banco de Portugal tinha três alternativas para viabilizar o BES mas preferiu avançar para a resolução causando com isso "uma tempestade perfeita" no banco, levando a perdas Foi má para os acionistas, os clientes, os empregados e para o Estado. A opinião foi expressa este fim-de-semana em entrevista ao El País, por Amílcar Morais Pires, antigo braço direito de Ricardo Salgado.

"O banco teve dois problemas para os quais foram encontradas soluções. Em 2013, foi detectada uma dívida oculta do grupo familiar. O BES vendeu aos seus clientes, através da rede de escritórios, essa dívida de 1.200 milhões de euros. Um problema semelhante ao experimentado na Espanha com os preferidos. A família Espírito Santo deu como garantia a sua seguradora Tranquilidade (no valor de €700 milhões), com a qual o problema estava em vias de ser resolvido. O segundo problema foi a falta de liquidez da subsidiária em Angola (BESA), onde o BES tinha 55%", começa por enquadrar Morais Pires ao El País.

Vai mais longe ao afirmar que até conseguiu " uma garantia soberana do Estado de Angola no valor de 5.700 milhões, que cobria 70% da carteira de empréstimos", mas não conseguiu evitar o colapso.

Face a isto, diz que a intervenção no BES em 2014, foi "uma decisão incompreensível e injustificada do Banco de Portugal. Foi má para os acionistas, os clientes, os empregados e para o Estado que colocou 4 mil milhões de euros e quatro anos depois perdeu-os".

Recorde-se que Morais Pires foi condenado em três processos pelo Banco de Portugal. Um deles está em recurso porque o tribunal considerou que o Banco de Portugal não deu tempo aos arguidos para se defenderem, e o supervisor e o Ministério Público recorreram para o Tribunal da Relação. Num outro já foi condenado ao pagamento de uma coima de 350 mil euros pelo tribunal de primeira instância por causa da comercialização do papel comercial do BES/GES. Vai recorrer para a Relação. E num terceiro, precisamente sobre a exposição do BES ao BES Angola, foi agora condenado ao pagamento de uma coima de 1,2 mil milhões de euros. E também irá recorrer.

Mas o ex-administrador do BES vai mais longe: "O governador provocou uma tempestade perfeita, com a sua intervenção, durante dois meses (antes da resolução) destruiu os 6,3 mil milhões que valia o BES".

Morais Pires critica ainda o facto do Banco de Portugal ter a "perrogativa de acusar e condenar", mas que na via judicial "vão caindo as acusações". E recorda que foi nomeado para presidir ao BES, depois do afastamento da família Espírito Santos, em particular de Ricardo Salgado da presidência do banco, mas que "o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, bloqueou a minha nomeação". E que colocou à frente do banco, Vítor Bento, um economista sem nenhuma experiência em gestão bancária (que se demitiu meses depois)".

E não fica por aqui, em sua defesa afirma mesmo que " de 13 de julho (desde que saiu do BES) a 3 de agosto quando o banco foi intervencionado, "houve uma conivência do governador com o auditor, que emitiu um julgamento muito favorável à dívida da empresa holding, para a distorção material das contas, com contabilidade artificial, aumento desnecessário de provisões ...Tudo com o fim de baixar o rácio de capital que o banco tinha de 8,25% para 5,1%, abaixo do mínimo exigido de 7%".

O ataque ao Banco de Portugal continua referindo que o supervisor liderado por Carlos Costa não aceitou nenhuma das alternativas à intervenção do BES, mas que à data havia três saídas: o acionista francês Crédit Agrícole tomar o controlo, o fundo Blackstone realizar um aumento de capital de 2 mil milhões, e o BES fazer um aumento de capital no BES Angola. Por não se ter feito este aumento de capital, perdeu-se a garantia soberana.

Nenhum destes cenários foi até agora provado como alternativa ao não colapso do BES.