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Bitcoin faz dez anos, mas ainda tem dores de crescimento

Chesnot/ getty

Especialistas defendem que o aparecimento da moeda virtual 'acordou o sector financeiro', mas reconhecem que ainda falta "muita transparência no processo de formação dos preços". Tecnologia precisa de ser muito melhorada

A moeda virtual Bitcoin comemora uma década em 2019. Os especialistas consideram que o sistema 'acordou o sector financeiro', mas defendem que é preciso mais transparência no processo de formação dos preços e apoio institucional.

"A 'bitcoin' foi revolucionária no sentido em que acordou o sistema financeiro para uma possível revolução nos meios de pagamento. As instituições de pagamento acomodaram-se e não desenvolveram tecnologias para aumentar a rapidez e diminuir os custos para os utilizadores", refere Pedro Lino, economista da Dif Broker, em declarações à Lusa.

O especialista recorda que a 'bitcoin' foi a primeira aplicação em tecnologia de 'blockchain' [tecnologia que permite guardar dados de forma descentralizada] que permitiu realizar transferências ou fazer pagamentos em tempo real e em qualquer parte do mundo, através de registos imutáveis".

Também Filipe Garcia, economista da IMF - Informação de Mercados Financeiros, considera que "a 'bitcoin' ultrapassou uma das primeiras grandes barreiras, que é a da notoriedade, e ainda que esteja muito longe de ser conhecida pela maioria da população, muitas pessoas já sabem da sua existência, mesmo que não saibam exatamente o que é".

Dinheiro que não se vê

Para quem não conhece bem a 'bitcoin', moeda virtual criada no início de 2009, Rui Bernardes Serra, economista-chefe do Montepio, explica: "é uma moeda, como o euro ou o dólar, mas bastante diferente". Em primeiro lugar, "não é possível mexer no bolso e encontrar uma 'bitcoin', porque esta moeda não existe fisicamente, é totalmente virtual", e a sua emissão também não é feita nem controlada por um banco central.

O economista-chefe do Montepio refere que "no processo de nascimento de uma 'bitcoin', chamado "mineração", os computadores ligados à rede competem entre si na resolução de problemas matemáticos e, quem ganha, recebe um bloco da moeda".Além da mineração, também é possível adquirir 'bitcoins' através da compra de unidades em corretoras específicas ou aceitando a criptomoeda ao vender determinados bens e serviços.

As moedas virtuais são guardadas numa espécie de carteira que é criada quando o utilizador se regista no 'software'. Depois do registo, a pessoa recebe um código com letras e números, chamado de "endereço", utilizado nas transações, e, quando o detentor de 'bitcoins' quiser comprar algo, um jogo, por exemplo, deve fornecer ao vendedor esse endereço. Rui Bernardes Serra frisa que durante todo o processo as identidades do comprador e do vendedor são mantidas no anonimato, mas a transação fica registada no sistema de forma pública e a compra não pode ser revertida.

Questionados sobre o que é preciso para a moeda virtual atingir a maturidade, os especialistas ouvidos pela Lusa consideraram que é necessário existir maior transparência e apoio institucional. "Falta ainda, sobretudo, muita transparência no processo de formação dos preços. Por outro lado, porque há quem considere que é o futuro dos meios de pagamento, esta tecnologia ainda necessita ser bastante melhorada", considerou Rui Bernardes Serra, economista-chefe do Montepio.

Para Filipe Garcia, "algo que seguramente 'faz falta' é o apoio institucional por parte de governos, bancos centrais e supervisores", e o economista acrescentou que é "um apoio que poderá nunca chegar, tendo em conta que parte do que a 'bitcoin' propõe coloca-se precisamente como alternativa aos Estados e aos sistemas centralizados".

"Para atingir a maturidade era necessário que a deixassem evoluir e tornar-se um meio de pagamento globalmente aceite, o que não é o caso", indicou, por seu turno, Pedro Lino, para quem os principais desafios que se colocam à 'bitcoin' no curto prazo são a concorrência do sistema financeiro e dos próprios bancos centrais que estão a desenvolver as suas próprias criptomoedas.

"Os que investem na 'bitcoin' a pensar que poderia ser uma alternativa às moedas convencionais ou que estas poderiam acabar, estão enganados, uma vez que os bancos centrais perceberam a tendência e o perigo que estariam a correr se não desenvolvessem algo semelhante para as suas moedas", refere. Na avaliação de Rui Bernardes Serra, o principal desafio que se coloca à 'bitcoin', do ponto de vista tecnológico, é melhorar a tecnologia, "para se aproximar do 'standard' dos meios de pagamentos", e, do ponto de vista de ativo financeiro, é o processo de formação dos preços.


Num futuro não muito distante, Pedro Lino acredita que a 'bitcoin' contribuirá para que outras áreas possam aplicar o 'blockchain', como na transação de bens mobiliários ou imobiliários. "Como meio de pagamento será um desafio, uma vez que os grandes bancos estão atentos e estão eles próprios a desenvolver mecanismos para aumentar a eficiência e velocidade das transferências", antecipa. Mas para o economista da Dif Broker, à semelhança do último ano, o valor da bitcoin continuará em queda. O especialista considera que "um dos fatores que pode fazer mudar a tendência é a aceitação por parte dos governos de que este pode ser um meio de pagamento alternativo".

Já Rui Bernardes Serra refere que a "questão para um milhão de dólares" é saber efetivamente o 'fair-value' da 'bitcoin', ou seja, o 'valor justo'.
"Confesso que não sei, mas podemos evocar uma célebre frase de Wall Street atribuída a vários magos das finanças americanas do início do século XX, quando lhes perguntavam o que ia acontecer às ações. E a resposta era: "vão flutuar", ou seja, volatilidade".

Jovens adultos são os principais investidores

São os jovens adultos do sexo masculino, menos avessos ao risco, os principais investidores na moeda virtual. "É muito interessante perceber que são os mais jovens que têm o maior número de contas",explica Pedro Lino, economista da Dif Broker, acrescentando que, "segundo um estudo publicado pelo Global Blockchain Council, 58% de cerca de 24 milhões de contas pertencem a jovens entre os 18 e os 34 anos, e 71% das contas são de pessoas do sexo masculino".

Um cenário que Rui Bernardes Serra justifica com o facto de "sendo um ativo de elevado risco, tradicionalmente existe uma maior propensão a ser adquirido por homens em vez de mulheres", adiantando que "estudos empíricos da teoria económica da decisão, em contexto de incerteza, têm apontado para que as mulheres sejam mais avessas ao risco". "Por outro lado, sendo baseado numa tecnologia inovadora, é provável que a 'bitcoin' tenha atraído os mais jovens".

Filipe Garcia refere também que "os estudos que existem referentes a Portugal falam em jovens adultos, do sexo masculino e com carreira académica ou profissional ligada às áreas tecnológicas". De acordo com Pedro Lino, apenas 3% dos 'baby boomers', com idades entre os 55/65 anos, têm 'bitcoins'. "Podemos concluir que o facto de a população mais jovem procurar meios de pagamento digitais, rápidos, baratos e com independência do sistema financeiro fez disparar a utilização da 'bitcoin'", considera o economista da Dif Broker.