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Da ginecologia à presidência da Comissão Europeia. Quem é a mulher que vai mandar na Europa

2 julho 2019 18:29

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

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Aliada de Angela Merkel, apontada algumas vezes como sua possível sucessora ao longo destes anos, a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, agora proposta para presidente da Comissão Europeia, é uma democrata-cristã moderada que sentiu na pele a oposição da ala mais conservadora dos democratas-cristãos. Médica de formação e renomada defensora dos direitos das mulheres, é mãe de sete filhos

2 julho 2019 18:29

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Jornalista de Internacional

Há um princípio querido aos alemães, o do trabalho. E nisso a ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, agora proposta para presidir à Comissão Europeia, bate aos pontos muitos outros possíveis candidatos. Von der Leyen é um exemplo provado da aliança do trabalho à defesa do direito à manutenção da família, mesmo contrariando a tradição alemã.

“As mulheres não são melhores, só diferentes. Se a sociedade for esperta aposta na diversidade e torna-se resistente, proativa, confiante e capaz de correr riscos”, dizia em 2015 durante a edição daquele ano da conferência Women in the World Summit.

SENTIMENTO DE CULPA NUNCA MAIS

Se quisermos, tudo começou com um sentimento de culpa. Ursula von der Leyen formou-se em Medicina na Escola Médica de Hannover e começou a carreira como ginecologista, numa clínica local. Casou-se com o colega de profissão Heiko von der Leyen, com quem se mudou para os Estados Unidos quando ele aceitou um lugar como professor.

Quando engravidou do primeiro filho, que nasceria na Califórnia, foi tomada de sentimentos de culpa. A razão era ser mãe trabalhadora e o sentimento que a corroía parecia ser uma resposta automática à tradição alemã, que defendia que uma educação superior daria acesso a qualquer lugar de topo exceto se se tivesse filhos. Aí, esperar-se-ia que ficasse em casa, a cuidar da família, uma outra vida.

O exemplo da Califórnia foi decisivo. Rodeada de colegas que eram mães e que, contando com o apoio dos parceiros, seguiam carreiras florescentes, Ursula não hesitou. Quando voltou à Europa anos mais tarde trazia uma prole de cinco filhos. Doutorou-se em 1991.

Quando passou da medicina para a política, começou por ser ministra de Estado (2003-2005). Porém, o objetivo era liderar a pasta do Trabalho, para poder mudar as leis de licença parental com o objetivo de permitir que os pais pudessem ter licenças pagas para ficarem com os filhos, assim como direito a dois meses livres ao fim de cada 12 para as mães. Era a base de negociação e não haveria recuo. E assim foi. Anos mais tarde falava do seu contributo para uma geração de pais competentes e de mães que conseguiram ser ao mesmo tempo profissionais de topo.

Nascida na Bélgica há 60 anos, Ursula Gertrud von der Leyen, Albrecht de solteira, tem francês e alemão como línguas-mãe, fala também inglês e é considerada uma conservadora moderada. Antes de ser ministra do Trabalho e da Segurança Social (2009-2013), foi ministra Federal da Família, Cidadãos Sénior, Mulheres e Juventude (2005-2009). Em dezembro de 2013 foi nomeada para a Defesa, cargo que ocupa até hoje.

Era, desde 2010 uma das quatro vice-ministras da chanceler, cargo para o qual foi eleita com 85% dos votos. Foi nesse ano que perdeu a corrida para a nomeação pela União (CDU/CSU) para a presidência da Alemanha para Christian Wulff. O facto foi posteriormente comentado pela imprensa como um golpe dado a Angela Merkel pela ala conservadora dos democratas-cristãos e cristãos-sociais.

No ano a seguir à sua nomeação para a Defesa, Von der Leyen injetou um plano no valor de €100 milhões para tornar o Bundeswehr mais atrativo para os jovens recrutas e um plano social inédito que criou creches para os filhos dos soldados e fazia coincidir o final dos períodos de missão dos soldados com as épocas escolares dos seus filhos, acompanhado de um aumento dos salários para missões em cenários difíceis.

Estas medidas foram fiéis ao que defendeu desde o início como ministra da Família e que lhe valeu a primeira oposição dos conservadores da CDU. Em 2005, criou uma Lei de Proteção das Crianças que reservava €4,3 milhões para a criação de estruturas infantis por todo o país.