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“A literatura é um lugar feliz”: entrevista a Rafael Gallo, Prémio Saramago 2022

“A literatura é um lugar feliz”: entrevista a Rafael Gallo, Prémio Saramago 2022

O vencedor da 12.ª edição do Prémio Saramago nasceu em São Paulo, é músico e já tem dois livros premiados e publicados no seu país. Conversou em exclusivo com o Expresso, minutos após a cerimónia que o trouxe a Lisboa, no ano em que se celebra o centenário do Nobel português

Acabado de sair da cerimónia de entrega do Prémio Saramago, o brasileiro Rafael Gallo ainda está incrédulo. O romance inédito com o qual concorreu, “Dor Fantasma”, soma-se à lista de romances vencedores desta distinção, muitos dos quais são os seus “preferidos”. E claro, terá a chancela do Nobel português.

Aos 41 anos, é a segunda vez que participa do concurso, oportunidade que lhe foi dada graças às mudanças no seu regulamento. Nascido em São Paulo, formou-se em Música na Universidade Estadual (UNESP) e especializou-se em meios audiovisuais, nomeadamente em música para cinema, na Universidade de São Paulo.

O primeiro livro de contos — “Revéillon e outros dias” — surgiu em 2012 e ganhou o Prémio Sesc de Literatura. O primeiro romance, “Rebentar”, recebeu o Prémio São Paulo de Literatura na categoria de principiantes.

Agora, além dos 40 mil euros que o Saramago oferece, o romance inédito “Dor Fantasma” será publicado cá pela Porto Editora e no Brasil pela Globo Livros. A sua é a história de um pianista que vive numa obsessão e é obrigado a mudar de vida.

O que significa para si receber o Prémio Saramago?
É uma história bastante curiosa. Em 2017 lancei o meu único romance no Brasil — chamado “Rebentar” — e concorri a este prémio, que foi sempre um grande sonho. Sou um grande fã de José Saramago e vários dos livros que venceram são romances de que eu gosto muito, escritos por autores que admiro. Posso dizer que alguns dos meus livros preferidos ganharam este prémio, como “Sinfonia em Branco”, de Adriana Lisboa. Tudo isso dá ao prémio uma força afetiva. E quando lancei aquele romance, eu tinha 35 anos, que era limite para concorrer naquela época. Quem ganhou foi o Julián Fuks, outro escritor brasileiro, um amigo. Fiquei muito feliz por ele mas também frustrado por não ter conseguido e pela oportunidade ter passado. Então, um tempo depois apareceu este novo regulamento que permite concorrer até aos 40 com um romance inédito. Ora, eu tinha um.

Porquê estava ainda inédito?
Comecei a escrevê-lo em 2016 e acabei a primeira versão em 2019. Mandei para o meu editor, mas a pandemia interpôs-se, tudo parou. No Brasil, o mercado editorial congelou. E eu também atravessei muitos problemas pessoais, várias intempéries, várias crises. Por tudo isto, deixei aquele romance quieto. Recentemente, decidi retomá-lo e tentar de novo uma publicação, mas não havia um editor interessado. Entrei numa espiral, o que vou fazer com este livro? Aí mandei-o para o Prémio Saramago, embora sentisse que era altamente improvável acontecer. E aconteceu!

O livro chama-se “Dor Fantasma”. De que se trata?
É a história de um pianista clássico, o Rómulo Castelo, que é um homem muito obcecado, como o são alguns músicos clássicos: aspiram à perfeição. Ele só tem isso na vida dele — o casamento é um fracasso, ele praticamente não interage nem com a mulher nem com o filho, que tem paralisia cerebral e é o oposto da perfeição. Vai vivendo à espera da sua grande estreia com uma peça de Liszt, conhecida como uma ‘peça intocável’, o “Rondo Fantastique”, mas a dado momento sofre um acidente e fica com a mão direita amputada. E já não pode mais ser o grande pianista que ele sabe ser, nem consegue refazer o sentido da sua vida, entrando uma espiral de derrocada, em busca de retomar o que ele nunca chegou a ser. Porque achava que ia fazer a grande estreia daquela peça, e quando a tocasse o mundo inteiro ia saber quem ele é.

É formado em música, que traços seus emprestou à personagem de Rómulo Castelo?
O meu instrumento principal é o violão e toco também piano. Há sempre coisas que emprestamos às personagens. Neste caso, penso que não será só a parte da música, mas certas questões pessoais que ele acabou por incorporar. Porque o livro é muito sobre a relação do masculino com a paternidade, dessa sombra do pai, de uma certa rigidez na educação, que são aspetos da minha história. Penso que a crise pessoal do Rómulo é um quebrar dessa rigidez, desse olhar que procura o caminho certo e não concebe sair dele. Isto é algo com o qual lidei na minha vida e andava à procura de exorcisar. É curioso porque o lado da música é de facto o mais aparente, mas o que mais me aproxima da personagem são outros traços ainda mais profudos.

O seu percurso — música, literatura — foi pacífico para os seus pais?Não muito. Quase nunca é. Cheguei à música depois de tentar outras duas faculdades. Fiz primeiro o curso de design, porque gostava de desenhar, mas a minha relação com o desenho era mais lúdica, um hobbie que vinha da infância. Na verdade, sempre que falava em música diziam-me: “Você tente com a música mas faça uma faculdade para se garantir.” Então tentei a publicidade e não consegui levar adiante. Quando finalmente fui para o curso de música da UNESP [Universidade Estadual Paulista] tive o apoio dos meus pais, mas claro que sempre foi uma decisão difícil, que hoje entendo melhor. Cheguei a trabalhar com música, mas nunca consegui ter uma carreira sustentável.

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