Coronavírus

No maior campo de refugiados do mundo, o corte da internet potencia a propagação do coronavírus

6 abril 2020 8:45

Luís M. Faria

Jornalista

Campo de refugiados rohingya em Cox’s Bazar, no Bangladesh

rehman asad

Mais de um milhão de rohingya distribuem-se por 34 campos no Bangladesh, nos quais o Governo cortou o acesso à rede. Sem a difusão por esse meio de informação essencial, o vírus torna-se muito mais perigoso

6 abril 2020 8:45

Luís M. Faria

Jornalista

As restrições ao uso de internet nos campos de refugiados dos rohingya no Bangladesh estão a aumentar seriamente o risco de a covid-19 se espalhar e causar uma catástrofe humanitária. Desde logo, por impedirem a difusão de informação essencial sobre o vírus. Os avisos têm surgido de vários lados e foram agora repetidos por algumas das organizações não governamentais (ONG) mais conhecidas do mundo.

Centenas de milhares de rohingya fugiram de Myanmar na sequência de uma campanha de violência maciça levada a cabo em 2017 pelas autoridades desse país, que deu origem a uma investigação por crimes contra a Humanidade no Tribunal Penal Internacional. País de maioria budista, o Myanmar não considera cidadãos do país os rohingya. Embora muitos vivam no país há gerações, ainda são vistos como emigrantes do Bangladesh.

Mais de um milhão de rohingya distribuem-se por 34 campos no Bangladesh. Entre eles, o de Kutupalong, o maior campo de refugiados do mundo, que neste momento aloja 600 mil pessoas numa área de escassos 13 quilómetros quadrados.

Os alojamentos precários onde vivem famílias muitas vezes numerosas têm cerca de dez metros quadrados, o que torna impossível qualquer forma de distanciamento social, conforme explicou o representante da Médicos sem Fronteiras (MSF) no país.

A Organização Mundial de Saúde, a MSF e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados chamam a atenção para as condições nos campos - extrema densidade populacional, condições sanitárias pobres, acesso muito escasso a cuidados de saúde. Na falta de hospitais devidamente equipados para lidar com um surto, tudo o que se pode fazer é isolar eventuais casos suspeitos.

Um obstáculo à identificação dos contactos

Nessas condições, a decisão de cortar o acesso à internet nos campos, tomada pelo governo do Bangladesh em setembro invocando motivos de segurança, limita a disseminação de informação essencial sobre o coronavírus, aumentando o sentimento de pânico entre os refugiados e impedindo-os de tomar medidas preventivas.

No final da semana passada, 50 organizações de direitos humanos, entre elas a Amnistia Internacional (AI), enviaram uma carta ao primeiro-ministro do país a solicitar o levantamento das limitações à internet nos campos. A mensagem foi reiterada num comunicado emitido pela AI, no qual se refere como a internet é indispensável aos próprios trabalhadores humanitários que atuam nos campos.

"Acesso sem restrições a informação via telemóveis e internet é crucial para retardar a transmissão da doença e salvar as vidas de refugiados, trabalhadores humanitários e a população do Bangladesh em geral. Levantar as restrições permitiria aos profissionais de saúde na comunidade partilhar e receber rapidamente as orientações mais fiáveis e atualizadas, e também ajudaria todo o nosso trabalho de coordenação com os líderes comunitários", pode ler-se.

Entre outros aspetos, a falta de acesso à internet é um obstáculo substancial ao chamado 'contact tracing' - a identificação dos contactos que uma pessoa eventualmente infetada terá tido. Também aplicações como o WhatsApp, que são usadas pelos trabalhadores humanitários e profissionais de saúde, ficam bloqueadas.

O diretor de outra ONG, a Human Rights Watch, afirmou recentemente: "O governo do Bangladesh está numa guerra contra o relógio para conter a difusão do coronavírus, e não se pode dar ao luxo de perder tempo valioso com políticas danosas".