Da Terra à Mesa

Casal Vouga, o grão-de-bico premiado desenvolvido por um jovem agricultor no Ribatejo

21 setembro 2022 17:56

Grão de bico Casal Vouga

Há quem diga que a agricultura já não interessa aos mais novos, mas José Azóia, 35 anos, prova-nos o contrário. Depois de ter corrido o mundo em trabalho, voltou a Casével, de onde é natural, para se dedicar à agricultura, o negócio da família. Acabou por desenvolver uma cultura de grão-de-bico Casal Vouga, variedade registada no Catálogo Nacional de Variedades em 2020. “Da terra à mesa” é um projeto Boa Cama Boa Mesa que dá a conhecer os produtos portugueses a partir de histórias inspiradoras e de sucesso, desde a produção até ao consumidor, em casa ou no restaurante.

21 setembro 2022 17:56

Registado no Catálogo Nacional de Variedades pela Egocultum, empresa fundada por José Azóia, em 2018, o grão-de-bico Casal Vouga nasce das sementes de grão mais generosas e resistentes cultivadas durante décadas pela família deste jovem agricultor e multiplicador de sementes, no Ribatejo. “Optei por desenvolver esta cultura de grão-de-bico. Achei que se adaptava ao nosso clima e aos meus solos. Fazia todo o sentido explorá-la.” O nome diz respeito à primeira fazenda adquirida pelo pai, à “parcela central da nossa empresa”, diz.

Antes, frequentou o curso de Engenharia Agronómica na Escola Superior Agrária de Santarém e trabalhou, em Angola e França, em projetos ligados à área agrícola – “sou filho e neto de agricultores.” Mas decidiu voltar para Portugal para iniciar o seu projeto, sem que imaginasse um desta dimensão. “A minha ambição era trabalhar na terra, estar aqui, tomar conta das minhas coisas, ter uma vida tranquila. Mas isto foi acontecendo, as oportunidades foram aparecendo e fui agarrando”, conta.

A promoção de uma maior biodiversidade é uma das grandes linhas orientadoras da Política Agrícola Comum (PAC) no período compreendido entre 2023 e 2027. Alinhado com a segurança alimentar e a proteção do meio ambiente, um dos grandes esforços deste pacote de apoio, desenhado tendo e conta as necessidades particulares de cada estado-membro, é também direcionado para encorajar os jovens a dedicarem-se à agricultura, tendo em conta o envelhecimento da população agrícola.

Hoje, José Azóia é o responsável por uma cultura de grão-de-bico, trabalhada em parceria com vários agricultores, que se distingue pelo maior calibre, menor tempo de cozedura e paladar único. “É uma variedade que coze bem e deixa um sabor muito bom nos cozinhados”, diz. E Rodrigo Castelo, chef e proprietário do restaurante Ó Balcão, em Santarém, confirma. “É um grão que me fascina por ser ribatejano. Gosto muito de usar os produtos que tenho aos meus pés”. Além disso, gaba-lhe a versatilidade, já que tanto o utiliza em saladas frias como em pratos quentes. Um deles, do menu de degustação, é o “siluro, um peixe predador, com mão de vaca e uma emulsão do próprio peixe”. Também já usou o produto com outros peixes do rio e até com paleta de capado no forno e arroz de miúdos

Ainda assim, a restauração não é o principal cliente. “Vendemos essencialmente para a indústria”, explica. Além do grão-de-bico, José produz trigo, colza e feijão-frade, outras culturas adaptadas a uma agricultura de sequeiro.

O efeito das alterações climáticas

“O grão é semeado de janeiro a março, abril”, mas com as alterações climáticas o controlo das épocas tem sido mais complicado. “Este ano semeámos parcelas em abril que não produziram nada e isso antigamente não acontecia”, desabafa. Por norma, é colhido entre finais de julho e setembro.

Como agricultor, está habituado “a anos bons e a anos ruins” e, apesar da cultura de grão-de-bico ser das que menos sofre com a falta de água, as quedas são consideráveis. “Só para ter ideia, a título de exemplo, tenho aqui um produtor que, este ano, tirou 2000, 2100 quilos por hectare. No ano passado tirou 3000. Mesmo eu, nos meus campos, tive quebras de 50% e foi maioritariamente devido à falta de chuva.”

A técnica, arrisca, pode ser “semear mais cedo para apanhar o período das águas, mas uma pessoa nunca sabe.”

Siluro com pill-pill e grão do Casal Vouga.

Siluro com pill-pill e grão do Casal Vouga.

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Frutos da inovação
O sucesso tem sido tanto que o Casal Vouga foi vencedor do prémio Origens do Intermarché, na categoria Produção Primária. José arrecadou o Prémio Nacional de Agricultura 2019, na categoria Jovens Agricultores. “Estes prémios foram muito importantes, já que foram o reconhecer de todo o trabalho desenvolvido na Egocultum”, afirma. Trouxeram também mais visibilidade, “o que permitiu chegar a novos produtores e consumidores”, e foram um ponto de viragem nos destinos da empresa.

“Alcançámos um patamar que nos trouxe mais desafios, oportunidades e vontade de fazer mais e melhor em prol das leguminosas em Portugal.” De acordo com a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, a importância do grão-de-bico é “de tal modo vincada”, que é consumido um pouco por todo o país, em sopas, pratos principais e até sobremesas. Rodrigo Castelo, chef do premiado restaurante Ó Balcão, em Santarém, tem apostado na utilização deste produto, que pode ser apreciado no prato em que partilha o destaque com o siluro ou peixe-gato europeu.

“Da terra à mesa” é um projeto Boa Cama Boa Mesa que dá a conhecer os produtos portugueses a partir de histórias inspiradoras e de sucesso, desde a produção até ao consumidor, em casa ou no restaurante.

A sustentabilidade social, ambiental e económica na agricultura e nas zonas rurais são linhas orientadoras da PAC que, em Portugal, tem como objetivos principais valorizar a pequena e média agricultura, apostar na sustentabilidade do desenvolvimento rural, promover o investimento e o rejuvenescimento no setor agrícola a a transição climática no período 2023-2027.