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Os elétricos Pixies no Campo Pequeno: a noite em que eles não tocaram só aquelas

No 12º concerto em Portugal, segundo em sete meses, Black Francis e companheiros surpreenderam porque, finalmente, assumiram em palco que não têm ‘apenas’ quatro álbuns lançados entre 1988 e 1991. Ao contrário do formato ‘greatest hits’ dos concertos que lhes vimos por cá nos últimos anos, houve um alternar entre um passado glorioso mas um tanto batido e – risco! – um presente digno mas subapreciado. Por estranho que pareça, ao fim de duas horas saímos todos a ganhar

Sobre o embate de bandas de culto com o seu próprio passado e, não é pormenor de somenos, com o romantismo, mas também a intransigência de quem as viveu ‘no seu tempo’ –, tiramos desde já o elefante da sala: não duvidamos por um instante que ‘Pixies, Coliseu de Lisboa/Coliseu do Porto, junho de 1991’ tenha sido, mais do que um par de concertos, uma t-shirt que se vestiu durante os anos da saudade, aqueles em que os norte-americanos decidiram deixar uma discografia impoluta falar por si e, saindo em alta mas, pelos vistos, de rastos, alimentaram o mito. Como? Não estando.

A segunda existência dos Pixies – banda a quem poucos perdoaram não ter feito apenas uma digressão de reunião para depois arrumar, novamente, as botas – é uma profissão. O autor destas linhas perdeu a conta aos concertos de Black Francis e parceiros que já viu (Coliseu dos Recreios, Campo Pequeno, festival ali, festival acolá, e ainda um par deles lá fora) e, não tendo feito parte desse clube exclusivo de orgulhosos sobreviventes do primeiro advento, tem a felicidade de ter visto sempre uma banda viva. Em atitude, uma banda até anterior à era em que surgiu, como aquelas que, por pura fidelidade à rotina e mais prosaica necessidade de ganhar para o pão, montam e desmontam a tenda como um circo itinerante: Corunha já está, venha Lisboa.

Venha Lisboa. Quase duas horas depois do pontual início, à frente do escriba alguém tenta o impossível: identificar com a ‘app’ Shazam uma canção interpretada ao vivo numa sala não esgotada mas não imensamente longe disso. É ‘Winterlong’, versão de Neil Young que os Pixies já tocaram mais de 300 vezes na sua carreira. Foi assim que terminaram também o concerto que deram, em agosto de 2022, no anfiteatro natural do Festival de Paredes de Coura. Mas as semelhanças com o verão passado ficam por aqui: se até há bem pouco tempo os Pixies se mostraram relutantes em incluir nos seus longos alinhamentos – esta noite teremos chegado, muito provavelmente, às 35 canções –, o repertório adicionado desde que, em 2014, decidiram que fazer mais discos talvez não fosse crime de lesa-pátria, aqui se ficou a perceber que agora eles não tocam só ‘aquelas’. Também tocam, não vamos mais longe, o último disco, “Doggerel”, praticamente inteiro.

O que seria o terror do fã desatualizado não resulta mal. Em vez de distribuídas pelo alinhamento, as ‘novidades’ concentram-se sobretudo em dois momentos, opção que tornou menos ‘culpada’ um par de saídas furtivas para aquisição de cerveja por parte de admiradores menos compreensivos. Outros levarão para casa, porventura, a curiosidade de conhecer melhor canções como ‘Who’s More Sorry Now’, ‘Dregs of the Wine’, ‘Thunder and Lightning’ e até ‘All the Saints’ (de “Head Carrier”, de 2016). Nunca pareceu, contudo, haver impaciência numa plateia que soube esperar por aquilo que queria ouvir: o surf rock e o ‘garage hillbilly’ que faz de ‘Caribou’, ‘Ana’, ‘Isla de Encanta’, ‘Nimrod’s Son’ ou ‘Vamos’ instigadores de músculos que julgávamos descontinuados.

Naquela sua postura de ‘estou aqui para fazer isto, não se metam muito comigo’, nunca se percebendo se o faz ligeiramente a contragosto ou se apenas porque evidenciar satisfação é uma coisa um bocado anti-rock (à la The Jesus and Mary Chain, de quem os Pixies fizeram a costumeira versão de ‘Head On’), Black Francis é um portento vocal, servindo as canções de todas as suas ferozes nuances, suavezinho agora, um rosnar de pôr um saloon em sentido já a seguir. Joey Santiago, lacaio fiel, faz o que sabe fazer melhor, levar-nos enviesadamente para os anos 50 (fazê-lo por intermédio de seis cordas acaba por ter algo de sinestésico), mesmo que a bateria de David Lovering aqui e ali nos leve ao desespero. (Baterias e acústica do Campo Pequeno estão numa relação permanentemente complicada.) Paz Lenchantin, no baixo e nos coros, parece estar na banda desde sempre.

E os marcos de sempre, invariavelmente, não faltaram no longo menu: ‘Here Comes Your Man’, M80 despachada à terceira canção, a sempre bem-vinda ‘Motorway to Roswell’, ‘Monkey Gone to Heaven’, ‘Debaser’, ‘Wave of Mutilation’ tanto no prato como no pão, ‘Bone Machine’ e ‘Where Is My Mind’, esta numa espécie de encore imaginário. A banda que, pouco antes de se acenderem as luzes, vemos em palco em despique de vénias (porventura o primeiro sinal em 120 minutos de uma empatia mais ‘normalizada’ com um público generoso no aplauso) veio ao Campo Pequeno fazer o mais difícil: não enganou ninguém.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: lguerra@blitz.impresa.pt

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