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Vale a pena ler de novo. Bia Ferreira, artista e ativista brasileira: “Temo pela vida, mas quero ser lembrada como alguém que não se calou”

Bia Ferreira

rita carmo

Deu em 2022 uma digressão em Portugal, conquistando cada vez mais público com a sua mensagem fortemente politizada. Em longa e franca entrevista publicada em setembro, Bia Ferreira partilha a história de vida improvável de alguém que foi criada para ser pastora evangélica, foi submetida a uma “cura gay“ na adolescência (“não deu certo!”) e corre o mundo a pregar outras formas de amor. E a sonhar ver, um dia, os pais na primeira fila de um concerto seu. Vale a pena (re)ler

29 dezembro 2022 10:00

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Nascida há 29 anos no estado brasileiro de Minas Gerais, Bia Ferreira cresceu no seio de uma família numerosa e com poucos recursos financeiros. Porém, os seus pais tudo fizeram para que Bia e os seus cinco irmãos tivessem uma educação académica e musical que os defendesse na vida. Hoje, a cantora, compositora e instrumentista está grata aos pais, que são missionários cristãos, pela “vantagem social” que essa educação lhe proporcionou. Mas ainda sonha vê-los, pela primeira vez, num concerto seu. “Eles acham que eu vou para o inferno por ser lésbica”, confessa. Outra ambição de Bia Ferreira, que começou por percorrer o Brasil a apresentar a sua música na rua, antes de um certo vídeo mudar a sua vida, é apresentar-se ao vivo em África, conhecendo o continente dos seus antepassados e levando até eles as suas experiências. Ativismo político, direitos LGBTQIA+, eleições brasileiras e o poder do afeto como “tecnologia de sobrevivência” são alguns dos temas abordados nesta longa entrevista, realizada numa esplanada em Lisboa, onde Bia Ferreira atuou no sábado no B.leza.

Apesar de já ter estado em Portugal várias vezes, o grande público ainda não a conhece bem. Nasceu há 29 anos no estado de Minas Gerais, depois viveu nos estados de Sergipe e São Paulo... como recorda a sua infância?
A minha infância foi muito lúdica. Eu venho da zona rural. Isso significa que morava num vilarejo com 200 habitantes e uma televisão, que ficava no campo de futebol. Todos os dias, às seis da manhã, ia um senhor abrir a casinha [onde estava o aparelho] e quem queria ver televisão tinha de ir ao campo de futebol e ficar lá parado a ver. Às dez da noite fechava a casinha e só no outro dia [havia mais televisão]. Então não tínhamos muito acesso a televisão, até porque os senhores que iam lá eram mais velhos, bêbedos. A minha mãe não nos deixava ir. Brincava muito: jogava à bola, montava quebra-cabeças, aprendi idiomas... porque, como os meus pais são missionários, recebíamos muitas pessoas de fora do Brasil, que iam para lá fazer missões. Nesse processo, fomos aprendendo outros idiomas para comunicar com essas pessoas que recebíamos. Aprendi a falar inglês, espanhol... estudei música. Porque os meus pais trabalhavam como missionários e na igreja é sempre preciso haver músicos, oradores. Eu tive aulas de oratória, aprendi a falar em público. Aprendi a tocar instrumentos musicais... então a minha infância foi muito lúdica. Lá em casa somos seis filhos. Sempre tive amigos: eram os meus irmãos, e até hoje somos muito próximos.

É a mais velha ou a mais nova?
Tenho dois irmãos mais velhos e três mais novos! Estou no meio. Sempre fui incentivada à leitura, à escrita. Não vou usar a palavra “privilégios”, mas tive a “vantagem social” de ter pais que incentivavam esse tipo de acesso, pelo facto de sermos pessoas muito pobres. Então eles entendiam que a única coisa que poderíamos ter era educação. E cultura. Nesse sentido, a igreja foi o lugar que eles encontraram para que nós tivéssemos uma estrutura de mínima segurança para a aprendizagem, visto que as crianças pretas, onde eu morava, tinham muito contacto com violência, com álcool, armas... na zona rural toda a gente tem uma arma. Nós fomos criados numa redominha da igreja. Essa foi a minha infância. A primeira vez que usei calças, tinha mais de 10 anos. Quando era criança, só usava saia, porque meninas só usam saias. E lembro-me que a primeira vez que usei calças pensei: “Que confortável! Não estou passando frio!” Aos 13 anos, os meus pais mudaram-se e foram para o interior de São Paulo, também nesse trabalho de missões, e levaram todos os filhos. Aos 13 anos foi quando eu entendi, conscientemente, que era uma menina lésbica. Então cheguei a uma cidade enorme – como eu morava numa cidade de 200 habitantes, uma cidade com meio milhão de pessoas, para mim, era gigantesca! – e [encontrei] pessoas muito mais modernas, com outra forma de comunicar... eu já era muito comunicativa, mas muito inocente! E comecei a perceber-me como pessoa que se interessava como meninas. Aos 13 anos, já estava nos três últimos anos da escola: porque nós temos a oitava série, depois primeiro, segundo e terceiro ano do ensino médio, encerra e depois só universidade. Com 13 anos eu já estava no primeiro ano do ensino médio. Entrei mais cedo na escola porque fui alfabetizada em casa, então quando entrei na escola já sabia ler e escrever. Tinha 5 anos e já estava na primeira série [o primeiro ano], sempre fui mais adiantadinha.

Bia Ferreira

Bia Ferreira

rita carmo

“Dos 13 aos 16 anos vivi um momento de ser tolhida na minha existência, de não poder ser eu. Fui submetida a uma cura gay. Como podemos ver, não deu certo”

Como era a relação com os seus pais?
Os meus pais, como cristãos, não receberam essa notícia [de que eu era lésbica] muito bem. Dos 13 aos 16 anos vivi um momento de ser tolhida na minha existência, de não poder ser eu. Não sei se em Portugal há, mas no Brasil há uma coisa chamada “cura gay”. Existe um Conselho Regional de Psicologia, e lá existem mais de mil psicólogos que acreditam e implementam a cura gay nos seus tratamentos. Então, eu fui submetida a esse processo de cura. Como podemos ver, não deu certo. [gargalhada]. Mas foi um momento muito opressor. E aos 13 anos escrevi a minha primeira canção. E era uma canção em que eu pedia a Deus para não ser lésbica. “Por favor me cura, preciso de ajuda, não estou bem.” Aos 16 anos, entrei na universidade. E comecei a ter contacto com movimentos estudantis, movimentos sociais. Fui aí que tive consciência do que é ser uma mulher negra vivendo no Brasil. E comecei a ser bombardeada por informação. Eu andava de skate, ando até hoje, ia com as minhas roupas de skate e a única hora em que as pessoas paravam para me ouvir era quando eu levava o meu violão. Então levava sempre o skate e o violão. Sentava-me, fazia uma roda e tocava violão. E percebi que sempre que falava das coisas que estava a aprender, as pessoas paravam de me ouvir. “Ah, a Bia falando desses assuntos esquisitos!” Porque a informação não chegava aos lugares que eu frequentava. Foi aí que entendi que através da arte eu poderia falar com essas pessoas, que eram meus amigos. Eu queria explicar-lhes sobre o racismo, sobre o acesso à universidade. A gente não sabia que podia ir para a faculdade!

Há universidades públicas.
Achávamos que era só para gente rica, que podia pagar. Aí descobri que havia faculdade de graça, no Brasil, de universidades públicas, com cotas. Então comecei a querer comunicar através da música. Com essa idade, quando entrei na universidade, não tinha como me sustentar. Os meus pais também não. Como vivem em tempo integral para as missões de igreja, não recebem um salário. Fazem o que fazem de forma voluntária, com voto de pobreza. Ao contrário de várias igrejas no Brasil, que só lucram com isso, os meus pais fizeram uma outra proposta de vida. Então comecei tocar, no violão, as músicas que eu sabia. Tocava nas festas da faculdade, em bares, restaurantes... em casamentos para os quais era convidada, ficava tocando piano para a noiva entrar... desde os 16 anos que a arte paga todas as minhas contas. Quando comecei a perceber que podia comunicar com as pessoas pela música, foi quando comecei a fazer arte mais política. A minha infância interferiu muito no que eu faço hoje. Porque até aos 13 anos fui educada e incentivada para ser a substituta dos meus pais! Por isso aprendi a falar em público. Eu não falo bem em público porque recebi um dom – não! Eu fui educada para isso. Toco 23 instrumentos, fui educada para isso. Tive acessos que as pessoas que vêm de onde eu vim, na maior parte, não têm. Então senti-me na obrigação de devolver aquilo que recebi, por perceber que elas não tinham essas possibilidades. Tudo o que faço hoje é fruto do que foi a minha infância.

Frequentou o curso de Direito?
De Direito. Olha a minha cara de advogada! [risos]

Podia ser...
Não combina comigo!

Mas gostava de ter sido? Foi o curso que escolheu...
Não, acho que escolhi o curso que os meus pais respeitariam. No Brasil ainda há isso: profissão é médico, engenheiro ou advogado. Consegui fazer uma prova e ficar muito bem colocada, então falei: todo o mundo estuda cinco ou seis anos, fazendo cursos particulares para entrar na faculdade, eu consegui direto! Vou fazer! E fui, mas depois entendi que queria viver de música. O meu primeiro disco chama-se “Igreja Lesbiteriana, Um Chamado”, e fala sobre a minha compreensão desse [chamamento] para trabalhar com arte interventiva, e para educar as pessoas de forma lúdica e didática. Então eu entendi que não fui preparada, quando era criança, para ser uma pastora de igreja. Fui preparada para levar a mensagem do amor, do afeto, da informação para o máximo de pessoas que conseguisse. E fiz esse disco, para tentar atravessar o coração das pessoas com informação.

Nas entrevistas, fala da importância de dois vetores: a informação, para que percebamos o que se passa, e o afeto, como ato de desobediência civil. É o que defende?
Sim, porque quem só tiver acesso às informações, vai ficar doido! Vai começar a chorar, entrar em depressão…

Bia Ferreira

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rita carmo

“Uma coisa é uma pessoa branca dispor-se a falar sobre racismo com outras pessoas, outra coisa sou eu, que passo por isso todos os dias, mexer nessa dor. Isso machuca, adoece”

Por isso é que muita gente deixou de ver notícias...
O mundo está doente! E está doente por falta de afeto. Às vezes um abraço, um sorriso, muda o nosso dia! E nós estamos tão carentes de afeto que não conseguimos dá-lo, porque não conseguimos dar o que não recebemos. Então eu entendo o afeto como uma tecnologia de sobrevivência, é cura. Porque se só tivermos acesso à informação, ficamos doidos. Mas se chegarmos a casa e recebermos um abraço do nosso filho, do nosso companheiro ou companheira, do amigo que divide casa connosco… Quando temos um espaço de segurança trocar afeto, isso é cura, é refrigério, é alívio para a nossa alma. Quando entendi isso, foi quando tive acesso ao afeto. Demorou muito, porque sempre achei que tinha de ser muito combativa, brigar com todo o mundo... “Você é racista!” Mas isso doía-me, eu chegava a casa e chorava. Porque dói mexer na dor, todos os dias. Na sua própria dor, nos seus próprios traumas. Uma coisa é uma pessoa branca dispor-se a falar sobre racismo com outras pessoas, outra coisa sou eu, que passo por isso todos os dias, mexer nessa dor. Isso machuca, adoece. Então quando eu tive acesso ao afeto, ficou mais leve, ficou mais fácil conseguir sorrir. Então decidi contar isso às pessoas: a gente pode curar-se com afeto! Foi quando resolvi incluir o afeto, além da informação, na minha forma de apresentar o meu trabalho. Até porque eu acho que se eu chegar brigando, apontando o dedo na cara da pessoa, ela vai criar um lugar de rejeição ou distanciamento, que vai fazer com que não consigamos dialogar.

Aí entra o afeto…
O afeto aproxima-nos num lugar em comum. Toda a gente gosta de receber afeto. Isso independe se você é de esquerda, de direita... O afeto é o nosso elo de ligação para construir diálogo. O meu projeto de trabalho não é convencer as pessoas do que eu penso. Mas proporcionar às pessoas que não tiveram acesso à informação a possibilidade de pensamento crítico. Não têm de concordar comigo, mas também já não podem dizer que não sabiam. Esse diálogo é o que está a faltar, porque vivemos num mundo muito polarizado. E o afeto aproxima-nos para começo de diálogo. Acredito no afeto como tecnologia de sobrevivência, assim como na informação. Pessoas bem informadas conseguem combater o racismo, a xenofobia, a LGBTQiA+ fobia. Pessoas bem informadas não reproduzem misoginia, machismo.

Por vezes pequenos gestos, até de um estranho, podem fazer a diferença...
A gentileza tende a gerar gentileza. É nesse ciclo que queremos continuar a viver.

Há dias esteve no Porto para um concerto emocionante com uma participação inesperada…
Há uma cantora brasileira que se chama Michele Mara. Ela é uma das divas da música brasileira, vocalmente falando. Eu conheci-a na televisão, porque ela participou num programa onde fazia um tributo a Aretha Franklin. E recebeu o prémio de maior imitadora de Aretha Franklin na América Latina. Vi-a e disse: “eu quero conhecer essa mulher!” Enviei mensagens e acabámos por encontrar-nos - foi ela que possibilitou que eu fizesse aquele vídeo do Sofar Sounds. Embora eu trabalhe exclusivamente com música há 12 anos, foi com esse vídeo, há seis anos, que eu me mostrei às pessoas enquanto ativista. Foi quando o meu trabalho chegou a mais gente. Então esse é o vídeo mais visto na América Latina, do projeto Sofar Sounds, e o quarto mais visto no mundo! Tem mais de 12 milhões de visualizações. É a música que me levou a todos os cantos onde eu cheguei. A Michele Mara tem uma participação muito importante na minha vida, é como se fosse a minha fada-madrinha na música. Ela é que me disse: “Vai ali!” Ela mudou-se para Portugal há alguns anos. Foi morar em Aveiro, depois em Coimbra, agora está no Porto. Quando eu soube que ela estava no meu concerto, emocionei-me muito, porque não nos tínhamos encontrado previamente. Contei essa história às pessoas, convidei-a a subir ao palco e ela cantou também... Dia 30 ela tem um concerto aqui em Lisboa, acho que as pessoas que não a conhecem deveriam ir. Ela canta com o microfone aqui em baixo [Bia estica o braço para baixo], porque a voz dela é muito potente. Fiquei muito feliz com esse encontro e emocionei-me ao ver que continuamos a encontrar-nos pela arte. Como a arte tem o poder bonito de poder conectar pessoas!

“Eu tive duas professoras negras em toda a minha vida. Nunca fui atendida por um médico negro. Que as crianças negras a estudar hoje possam um dia ser advogados ou médicos é uma vitória muito grande”

Nesse vídeo do Sofar Sounds há comentários bem recentes, de quem escreve: “meu Deus, de onde saiu esta mulher?” Lembra-se do dia em que gravou o vídeo?
Lembro! Eu fui substituir a cantora que ia fazer este concerto, mas acabou aparecendo outro concerto no mesmo dia, só que com cachê. Então ela foi ao concerto pelo qual ia receber e convidou-me para substituí-la neste concerto que não tinha cachê, mas tinha um vídeo que acompanharia uma canção minha. Então eu fui! Cheguei e só havia pessoas brancas. Só havia eu, a Michele Mara e a filha da dona do espaço, de pessoas negras, e eu senti-me muito desconfortável, porque as coisas que eu digo são muito duras em alguns aspetos, e como não era muito conhecida, fiquei com medo de as pessoas me interpretarem mal. Fiquei muito apreensiva, mas pensei: vou fazer o que eu sei fazer. Cantei quatro canções e escolheram aquela para gravar ['Cota Não é Esmola']. Saí de lá, fui rodar o meu chapéu e apanhar carona pelo Brasil. Isto foi em 2017, no fim do ano. No começo de 2018, em janeiro, publicaram o vídeo. Eu não tinha telemóvel nem computador, estava a viver na Bahia, numa zona mais rural, então não tinha acesso. Quando fui para a cidade, para tocar violão e rodar o meu chapéu na rua, uma moça disse: “Você não é a Bia Ferreira, que canta 'Cota Não é Esmola'? E eu falei: 'Como sabe?' E ela: 'Não é você nesse vídeo?' E mostrou-me o vídeo, que já tinha um milhão de visualizações. Aí fiquei espantada e pensei: “Preciso de ir para São Paulo!”

Bia Ferreira

Bia Ferreira

rita carmo

Foi logo?
Peguei boleia de mais um camião e fui para São Paulo, para tentar viver de arte a partir desse vídeo, que abriu várias portas para mim. Esse dia foi o mais importante da minha vida. Eu nem tinha roupa para o concerto! A Michele Mara é que me vestiu. O marido dela é nigeriano, vendia alguns tecidos, então colocou-me um turbante... aquela roupa que estou usando é nigeriana... E é como se, a partir desse dia, a minha vida se tivesse transformado, de um trabalho mais voltado para a educação nas escolas e para a rua, de rodar o meu chapéu no metro, no comboio, no autocarro... para um trabalho para ser ouvido em teatros e casas de espetáculos.

Já esteve na Nigéria ou outro país africano?
Todos os lugares para onde viajei, foi com o meu trabalho. Então ainda não consegui chegar ao continente africano, de onde descendem todos os meus antepassados e um lugar que me foi negado conhecer pelo sequestro dessas pessoas para as Américas. Tenho o sonho de conhecer o continente africano, os países de lá, de dar uma volta... Mas lá muitos são os países onde é crime ser LGBTQ+. Se em algum momento eu conseguir chegar ao coração dessas pessoas, vai ser a minha maior realização pessoal – ver as pessoas que são de onde os meus antepassados vieram a respeitar e conhecer o meu trabalho... é o maior sonho que tenho na vida. A minha maior pretensão enquanto artista negra brasileira é conseguir chegar ao continente africano e apresentar as coisas que eu penso, as coisas que eu digo, e contar como a nossa realidade no Brasil é diferente. E encontrar os lugares de conexão que temos enquanto pessoas negras habitantes do mundo.

A canção que esse vídeo tornou mais conhecida, 'Cota Não é Esmola', faz parte do plano de leitura obrigatória no Brasil. É uma responsabilidade, uma emoção?
É motivo de muito orgulho para mim. Até 1920, as pessoas negras eram proibidas de frequentar as escolas. Estamos a falar de há 100 anos, é muito recente na história brasileira para hoje eu ser leitura obrigatória para quem quiser entrar na universidade. Então, não é uma conquista minha, mas do povo preto, que se vê representado ali. Eu sempre me entendi como uma artista musical, e a partir do momento em que a minha música começou a ser incluída no plano leitura obrigatória do Brasil, comecei a entender-me como escritora, como produtora de conteúdo escrito. Entender que a minha literatura também é respeitada nesse lugar é entender que daqui a 100 anos eu vou ser lembrada. É entender que eu consegui perpetuar ideias que foram iluminadas pelo poder da arte, e que essas ideias vão passar para a frente. Que as crianças me estudem na escola é entender que estamos a criar uma nova possibilidade de sociedade, onde narrativas negras são incluídas e são consideradas importantes para a sua educação. Dessa forma, conseguimos criar crianças não racistas, crianças que não vão reproduzir preconceitos. Conseguimos educar crianças a partir dessa transformação literária. Eu tive duas professoras negras em toda a minha vida. Nunca fui atendida por um médico negro. Entender que essas crianças que estão a estudar hoje, que um dia podem ser um médico negro, uma advogada negra... que elas passaram por mim, que eu construí para essa nova construção de sociedade, é uma vitória muito grande. Cada vez que vou construir canções, penso: “será que essa vale? Será que as pessoas vão conseguir capturar o que estou a dizer e considerar importante? Como é que eu consigo atravessar as pessoas com esse texto?” Então eu estudo muito sobre literatura, sobre formas de escrita e programação neurolinguística, que é uma forma de construir pensamento a ponto de gerar identificação. Conseguimos criar um elo de identificação tão forte com o nosso interlocutor que ele não consegue sair dali da mesma forma que chegou.

Estuda pessoas…
Chego a um concerto, vejo o público que está ali e entendo que repertório vou fazer, o discurso que vou fazer... Há concertos em que sou muito mais incisiva, outros em que sou mais branda. Depende do público que está assistindo, de como leio essas pessoas, porque o meu estudo é como afetá-las. E aí o “afetar” vem de afeto, mesmo. Como é que eu vou amolecer o coração daquela pessoa? Como é que consigo que ela se sinta aberta a receber as informações que eu tenho para dar? Sem se sentir ofendida? Como é eu a incomodo de forma a que saia dali diferente? Pode sair muito brava, mas vai sair a pensar: “o que é que aquela menina falou?” E aí vai contar: “eu fui ao concerto e a menina falou isso e isso...” Para mim já valeu! Porque está a passar a informação para a frente. O meu estudo é esse: como é que nos conectamos através dessa divindade tão poderosa que é a arte? Por exemplo, no concerto em Sines [no festival FMM], havia muitas pessoas que não eram portuguesas. E recebi pelo menos dez mensagens diferentes de pessoas que não entenderam nada do que eu disse, mas saíram dali diferentes. Disseram-me: “você transformou o meu dia. Foi o melhor concerto que eu vi naquele festival!” Isso também me alimenta. Faz com que eu veja que, quando eu me disponho a ser instrumento da arte, é quando a arte consegue fazer a sua parte – que é a maior parte, eu estou aqui só para ser seu instrumento. Quando as pessoas vão ao concerto, não vão para ver a Bia Ferreira. Porque eu sou uma pessoa que tem medo. Que erra... mas sou uma pessoa disposta a ser usada como instrumento da arte, que consegue falar através de mim. Então as pessoas vão para serem transformadas pelo poder da arte. Não pelo que a Bia Ferreira fala, pelo que pensa... sou só um instrumento. Se eu achar que [é por mim], não piso mais no chão! O ego cresce tanto que achamos que somos Deus, que somos maiores que as outras pessoas, quando na verdade, tal como o compasso para o engenheiro ou o bisturi para o médico, eu sou um instrumento da arte. Eu estou ali só para abrir a boca. [risos]

“Não sei se a minha mãe tem orgulho de mim. Eu pelo menos nunca ouvi isso dela. Não sei se o meu pai tem orgulho de mim. Porque eu desfalo tudo o que eles falam. Eu ensino às pessoas que não importa em que Deus acreditamos”

Leva-se sempre qualquer coisa de um espetáculo?
Não adianta a pessoa ir ver um concerto e, quando ele acaba, ir ao bar beber, esquecer o que aconteceu ali. Quando a pessoa sai a comentar, é porque conseguimos atravessar o seu coração. Eu nunca vi os meus pais em nenhum concerto meu, nunca aconteceu. É um dos sonhos que tenho na vida: que os meus pais me vejam a cantar. Eles não acreditam na arte que eu faço. Hoje em dia até respeitam, porque na minha família, por ser pobre, eu sou a primeira pessoa a sair do país, e isso foi [conseguido] com a arte. Sou a primeira pessoa a conseguir uma emancipação financeira, mesmo que pequena. A minha família ainda depende de mim. Então eles respeitam o que eu faço por entenderem que é dessa forma que eu consigo contribuir para a existência deles. Mas acham que eu vou para o inferno, e só aceitam o meu dinheiro porque “Deus usa os ímpios para abençoar as pessoas de bem!” Não sei se a minha mãe tem orgulho de mim. Eu pelo menos nunca ouvi isso dela. Não sei se o meu pai tem orgulho de mim. Porque eu desfalo tudo o que eles falam. Eu ensino às pessoas que não importa em que Deus acreditamos. Importa muito mais se praticamos o amor, se temos respeito pelos outros do que se acreditamos em Alá, em Buda, em Shiva! Para mim, cada um tem a sua compreensão de Deus. Eles acham que eu vou para o inferno porque eu sou lésbica. Acham que comprei o meu passaporte para o inferno e louvo a Satanás. É uma ideia muito retrógada desse cristianismo que foi imposto aos pretos brasileiros. Eu não julgo, porque no Brasil os pretos não tinham alma. Só passavam a ter alma quando se convertiam a cristãos. Eram obrigados a ser cristãos para, teoricamente, não morrerem. Morriam da mesma forma, mas pelo menos tinham uma alma que ia para o céu. A igreja católica no Brasil foi muito cruel com as pessoas pretas. Sabe que as pessoas que são “dos Santos”, no Brasil, são as que foram escravizadas pela igreja? E como a igreja não queria dizer que tinha escravos, dizia que elas trabalhavam para “os Santos”, daí serem “dos Santos”. E é um dos sobrenomes mais populares no Brasil! Então as igrejas evangélicas chegaram com uma outra abordagem, de inclusão, de “aqui você é especial”... e as pessoas pretas precisavam de um lugar para ter refrigério, conforto para a sua alma. Os terreiros de candomblê e religiões de matriz africana estavam a ser queimados, destruídos, era crime – você morria. Então o lugar mais seguro era a igreja evangélica, que normalmente era feita por pessoas brancas que vinham da Europa mas eram abolicionistas, que pensavam de outra forma. Hoje já não é assim, mas foi essa a construção. O meu avô, que foi um homem escravizado até aos 40 anos, aprendeu a ler, aos 40 anos, lendo a Bíblia. Ele era cristão. E aí todos os meus tios são cristãos, a minha mãe é cristã e nós também. No Brasil, o número de pessoas pretas cristãs é muito grande. Só que hoje em dia, essa religião é usada como ferramenta de manipulação de mentes. Há muitas pessoas negras a votar no Bolsonaro. Muitas pessoas negras a reproduzir discurso de ódio, de preconceito, como acontece na minha família.

Gostaria de ouvir, um dia, palavras diferentes da boca dos seus pais?
Gostava que um dia eles entendessem que a minha missão enquanto instrumento da arte é pregar o amor. E se eles acreditam em Cristo, Cristo fazia a mesma coisa que eu: pregava o amor, de uma forma revolucionária. O amor por aquelas pessoas que todo o mundo odeia. A mulher a ser apedrejada e ele: “não, quem nunca errou que mande a primeira pedra!” Amor ao próximo. Se a gente se conseguir unir através dessa possibilidade de amor ao próximo, conseguiremos acoplar mais pessoas nessa luta. Embora eu diga o contrário de tudo aquilo em que os meus pais acreditam, espero que um dia consigamos encontrar um ponto em comum para viver bem. [risos]

“Não acredito nessa forma de fé, cega. Não acredito nesse Jesus branco que castiga e manda para o inferno. Mas acredito que a fé dos meus pais fez com que [eu e os meus irmãos] estejamos vivos, hoje”

Bia Ferreira

Bia Ferreira

rita carmo

Os seus pais são jovens?
Têm 60 anos. Hoje em dia, são pessoas jovens. Mas a manipulação mental feita neste contexto religioso é muito grande. Eu não os culpo. Acho que foi a forma que eles se encontraram para se manterem vivos enquanto uma família de gente preta no Brasil. Todos os meus irmãos são muito bem sucedidos... E isso [resulta] de termos sido tolhidos de espaços violentos. Foi o lugar seguro que os meus pais acharam para que a gente crescesse, sem morrer. Sem morrer de fome... Porque quando não havia comida em casa, os meus pais sentavam-se à mesa, davam as mãos aos filhos e oravam. E de repente aparecia alguém com uma cesta básica na nossa casa. Ou de repente alguém da igreja ligava e dizia: “vocês não querem vir almoçar aqui em casa?” Então eu não sou descrente disso. Acredito que existe uma força maior que mobiliza as coisas para acontecerem. Só não acredito nessa forma de fé, cega. Não acredito nesse Jesus branco que castiga e manda para o inferno. Mas acredito que a fé deles fez com que estejamos vivos, hoje. E sou grata. Mas entendo uma outra forma de amor.

Para terminar, qual a sua expectativa para as eleições presidenciais no Brasil, no próximo mês de outubro?
Nossa! É um misto de coisas. Sinto que, graças a Deus, a gente vai mandar o Bolsonaro embora. Pior Governo que o Brasil já teve na história da democracia brasileira. Porque antes era ditadura... e ele é a perpetuação daquele discurso da ditadura. Acredito que o Lula vai ser eleito na primeira volta, e que será eleito também se for preciso ir à segunda volta. Mas a eleição do Lula não acaba com o Bolsonarismo.

Como acontece com o “Trumpismo” nos Estados Unidos?
Exato. O verdadeiro Dia da Independência do Brasil é a 2 de julho, que foi quando os escravizados de Salvador da Bahía conseguiram expulsar todas as tropas portuguesas que havia naquela costa. Só que não é interessante contar a história de que foram os pretos a expulsar os portugueses de lá. É muito mais fácil dizer que D. Pedro, o menino que estava brigado com o papai, por birra falou: “independência ou morte!” Então o dia 7 de setembro [em que se assinala a Independência do Brasil] para nós não significa muita coisa, mas é um feriado nacional. E nesse dia houve pessoas ligadas ao Presidente da República a fazer discursos, nas festividades, dizendo: “se não ganharmos nas urnas, ganhamos na bala”. E o acesso a armas no Brasil tem sido relativizado desde que Bolsonaro entrou. Abriram mais escolas de tiro do que escolas, que se fecharam. Nesse sentido, temos muito medo dessa violência. Porque o Brasil não é Estados Unidos. Nos Estados Unidos o Trump bateu o pé, fez uma ceninha e tal, mas vai ter que sair! O povo invadiu o Capitólio, mas vai ter que sair. Agora, no Brasil? No Brasil, as pessoas matam por causa de um pedaço de terra. No Brasil, você chama alguém de bobo num semáforo, alguém tira uma arma e dá-lhe um tiro. Na semana passada, um homem foi baleado dentro da igreja. O pastor estava pregando, dizendo a todos para votarem no Bolsonaro. Esse fiel da igreja levantou o braço e disse: “eu não concordo, não acho que isso seja o evangelho de Cristo”. Um outro fiel, que era polícia, levantou-se e deu-lhe um tiro. Dentro da igreja. A história não termina por aí: apanharam esse senhor que levou um tiro, colocaram-no fora da igreja e continuaram o culto. Esse é o país em que eu vivo.

É uma eleição de risco.
Espero estar totalmente errada, mas há possibilidade de uma guerra civil. Há possibilidade de pessoas com acesso a armas começarem a trocar tiros no meio da rua. E isso é perigoso. Porque essas pessoas, quando são contrariadas, não reagem muito bem. Então, acho que o Lula vai ganhar, mas acho também muito difícil fazer essa transição. Você, enquanto portuguesa, consegue imaginar o Bolsonaro entregando a faixa presidencial para o Lula? Eu também não. Como é que isso vai acontecer? Sabe Deus. E isso é que mete medo. Porque a gente que resiste fazendo arte de intervenção e arte política no Brasil... existem muitos olhos sobre nós. Eu temo pela minha vida. Temo que, se o Lula ganhar, pessoas podem tentar violentamente acabar com o meu discurso, porque eu recebo ameaças no meu e-mail. Recebo fotos de pneus pegando fogo, dizendo que a próxima pessoa pegando fogo sou eu. Vou fazer concertos e a polícia sai do carro, fica mostrando armas frente ao palco enquanto eu canto que a polícia é racista... Já fui parada na brigada de trânsito e perguntaram-me: “você é a menina que fala 'diga não à polícia racista'?” Então há muito medo. Mas eu prefiro ser lembrada como alguém que não se calou e não se omitiu, do que como alguém que ficou quieta, por medo. Se conseguir atravessar o coração das pessoas com a minha arte, vou ser lembrada como uma pessoa que não foi omissa. E para os meus filhos, para os meus netos, é esse orgulho que eu quero dar.

Bia Ferreira

Bia Ferreira

rita carmo

Como quer ser conhecida?
Como uma menina, preta, que ia para outros lugares e chegava ao Brasil e falava e se posicionava diante toda essa opressão. Por mais que tenha medo, tenho muita fé e esperança que vamos conseguir vencer e perpetuar esses discursos de afeto, de informação, para reeducar a população brasileira. Porque a gente perdeu a sensibilidade, a empatia pelos outros, a facilidade de diálogo. “Você vota no Bolsonaro? Não falo com você!” Não pode ser assim, porque se perdermos o diálogo, criamos o extremismo. O diálogo é o que faz com que haja um meio-termo, para que a violência não prevaleça. Pessoas educadas conversam, pessoas mal educadas são violentas. Por isso, eu prefiro que a gente consiga resistir e afetar as pessoas com educação, porque a educação transforma. Acho que Lula presidente vai permitir que milhares de pessoas saiam da fome; o Brasil estava fora do mapa da fome, há 14 anos, e agora voltou. Ou seja, neste momento há pessoas a morrer de fome no Brasil. Acho que o Lula vai demorar muito tempo a conseguir desfazer as leis e os mandados que o Bolsonaro fez, mas acho que também dá esperança ao povo pobre de voltar a ter comida na mesa. Dá esperança de voltarmos a ter acesso à educação, de termos pessoas negras e indígenas na universidade. Eu vou estar lá, vou votar. Na segunda volta estarei aqui [em Portugal], a tocar [no festival Womex, no cinema São Jorge, em Lisboa], por isso espero que ele seja eleito logo à primeira. Mas acho que estamos a viver o momento mais importante da história do Brasil desde a construção da Constituição Federal. E é muito importante saber que eu também faço parte dessa luta.

Publicado originalmente a 10 de setembro de 2022