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Vale a pena ler de novo. Iron Maiden: “Portugal sempre teve um lugar especial nos nossos corações. Temos um disco que nasceu no Algarve”

Iron Maiden: Dave Murray é o segundo a contar da direita

Conhecidos de longa-data do público português, os Iron Maiden deram no verão passado um concerto no Estádio Nacional. Em conversa com a BLITZ, o guitarrista Dave Murray falou sobre a ligação afetiva da banda a Portugal, a constante renovação do seu público e fãs famosos como Kurt Cobain ou Lady Gaga. Uma entrevista que vale a pena (re)ler

28 dezembro 2022 10:30

Foi em 1984, quatro anos depois de cancelarem dois concertos em Cascais, que os Iron Maiden se estrearam em Portugal com espetáculos no Porto e em Cascais, tendo desde então passado pelos mais variados palcos nacionais. Quase quatro décadas volvidas, a banda britânica vai voltar a carimbar o passaporte em solo português a propósito de um concerto no Estádio Nacional, em Oeiras, no dia 31 de julho, ainda integrado na digressão “Legacy of the Beast”, iniciada há quatro anos e interrompida devido à pandemia, mas já com a música do novo álbum, “Senjutsu”, para apresentar. O guitarrista Dave Murray, que se mantém na formação do coletivo londrino praticamente desde a sua formação, antecipou o concerto em entrevista à BLITZ, não poupando nos elogios a Portugal e falando, também, sobre as novas canções, a versão samurai da mascote Eddie, a constante renovação do público dos Iron Maiden e os fãs famosos, como o falecido líder dos Nirvana, Kurt Cobain, ou Lady Gaga.

“Senjutsu” foi muito bem recebido quer por fãs quer pela crítica. Costuma prestar atenção àquilo que as pessoas dizem sobre a vossa música? É algo que lhe interessa?
Não leio as críticas, ou coisas do género, que me enviam. Não penso que isso deva definir-nos, temos de seguir o nosso próprio caminho. Os Iron Maiden têm a sua identidade. Fazemos aquilo de que gostamos e, obviamente, depois as pessoas ou gostam ou não gostam, mas eu não sigo o que dizem e não acho que aquilo que possam dizer mude o meu julgamento. Temos de acreditar em nós próprios e naquilo que estamos a fazer, divertirmo-nos e tirar o melhor proveito possível disso. E isto vale não só para a música como para outras profissões: quer sejas um artista, um eletricista ou outra coisa qualquer tens de seguir o teu próprio caminho. Portanto, não, não levo assim tanto em consideração aquilo que as outras pessoas têm a dizer.

Qual é a grande mensagem de “Senjutsu”? Na capa, o Eddie samurai parece querer dizer-nos que está pronto para a batalha. É um grupo de canções particularmente combativo?
O Eddie tem sido tantas personagens diferentes... Já foi um tipo cibernético, um soldado do exército... tem andado na sua própria, e honesta, viagem. Talvez seja uma espécie de cara da banda (risos), projetando uma imagem muito particular. Tem estado em todo o tipo de cenários: históricos, de ficção científica, de guerra, e é a música que está por trás disso, criando o contexto. Não é que seja agressivo, aqui. Temos muitas mudanças de ritmo, momentos mais tranquilos, zonas melódicas, e coisas mais pesadas. Portanto, o que acontece é que o Eddie está ali a reforçar algumas das características da música que fazemos. Ele está em digressão connosco neste momento, em várias versões, a tentar divertir-se tanto quanto nós.

A capa de "Senjutsu", o mais recente álbum dos Iron Maiden

A capa de "Senjutsu", o mais recente álbum dos Iron Maiden

Os discos dos Iron Maiden incluíram sempre uma canção escrita ou coescrita por si, mas isso não acontece neste álbum. Alguma razão para isso?
É verdade. Basicamente, ficámos sem tempo e não aconteceu (risos). Este álbum tem mais de uma hora de música, portanto tem ali muita informação e muita coisa. Quando percebemos que tínhamos canções suficientes, decidimos concentrar-nos nelas. Eu ainda escrevi qualquer coisa, mas acabou por não ficar. E lido bem com isso, não há problema. Adoro tocar estas canções.

Desde os anos 80 que os Iron Maiden dão concertos em Portugal e regressam no próximo mês para um espetáculo de estádio. Que memórias guarda do nosso país? É um sítio onde gosta de tocar?
Absolutamente. Os fãs portugueses são muito apaixonados, recebem-nos sempre de forma muito acolhedora e sabem as letras de todas as canções. Nesta digressão, o Eddie vai aparecer uma série de vezes e temos uma grande produção. São duas horas de música, com algum material novo e coisas antigas. Há um pouco de tudo e para todos os gostos. Muita gente gosta de ouvir os clássicos, portanto tentamos incorporar essa espécie de “best of” dos Maiden, aquelas canções que funcionam muito bem ao vivo. Em quase todas as digressões vamos a Portugal, tocámos nos clubes, lá atrás, nos anos 80 e fomos crescendo gradualmente a partir daí. Tem sido sempre incrível. Passamos algum tempo em Lisboa quando podemos e, na verdade, trabalhámos em parte do álbum “Brave New World” [de 2000] aí no Algarve. Estivemos lá alguns meses… Isso foi há muito tempo. Esse álbum nasceu em Portugal, foi criado aí, mas depois fomos gravá-lo a outro sítio qualquer [o estúdio Guillaume Tell, em Paris]. Portugal sempre ocupou um espaço muito especial nos nossos corações.

Sei que é apaixonado por golfe. Portugal é um país onde gosta de jogar?
Sim, especialmente no Algarve. Há numerosos circuitos de golfe lá e eu joguei em vários durante aqueles meses que passámos lá. Adoro, sim, é fantástico.

Devido à pandemia, esteve um longo período sem dar concertos. Vários artistas com quem temos falado dizem que reavaliaram a importância de tempo pessoal. Que tipo de impacto teve em si essa pausa?
O impacto foi o mesmo de toda a gente. Disseram-nos para ficarmos em casa, sem sair para a rua, para usarmos máscaras, mas ainda nos foi permitido tocar música em casa… e vimos muitas séries de televisão, como todos (risos). Este foi o período de tempo mais longo que os Iron Maiden estiveram sem trabalhar. Eu juntei-me à banda em 1976 e, desde então, estivemos sempre ou em digressão ou a fazer um álbum, portanto, de certa forma, permitiu-nos descansar e dar mais importância a tudo quando voltámos ao palco, porque muita coisa foi retirada a muita gente. Com esta digressão em particular, temo-nos divertido muito em palco e percebemos que não podemos dar tudo como garantido. A raça humana voltou a estar toda junta, depois de estarmos separados por questões de saúde. É bom podermos ter contacto uns com os outros outra vez. Os nossos concertos têm sido uma experiência bastante surreal, depois de dois anos a viver num planeta diferente. Todos sentimos algum alívio por poder continuar como estávamos antes, mas claro que temos de ter mais cuidado, especialmente quando andamos em digressão por países diferentes. Há uma série de protocolos, mas tem sido fantástico.

O Bruce Dickinson [vocalista dos Iron Maiden] disse numa entrevista que está mais interessado em olhar em frente do que para trás. É essa uma das chaves para o sucesso dos Iron Maiden: não ficarem demasiado presos àquilo que fizeram no passado e tentarem sempre pensar em novas formas de tornar a vossa música mais entusiasmante?
É sempre bom continuar a aprender coisas novas todos os dias, é isso que te faz avançar, mas nós gravámos 17 álbuns de estúdio, se não me engano, portanto temos muito material. Nesta digressão, tocamos muita coisa nova, mas também muita coisa do passado que as pessoas querem ouvir. Agora, obviamente que queres continuar a andar em frente…

Haverá muitos miúdos a usar t-shirts do Eddie hoje que, provavelmente, farão parte de uma terceira geração de fãs dos Iron Maiden. Quando olha para o público nos concertos, vê-os?
Sim, de facto vemos muitos jovens, ou víamos antes da pandemia. Nesta digressão, há miúdos novos, mas a geração mais velha está lá em peso. É fenomenal ver pessoas mais novas a usar t-shirts dos Iron Maiden… Provavelmente nem eram nascidas quando nós gravámos muitos dos nossos álbuns (risos). A reação é incrível. O facto de gostarmos daquilo que fazemos adiciona outro entusiasmo à música e também temos o Eddie… Há muitas peças a movimentar-se nos Iron Maiden, muita coisa a acontecer, e há muitos miúdos a gostar disso.

São uma banda com um apelo muito vasto. O Kurt Cobain era fã da banda, a Lady Gaga também, o Chuck D dos Public Enemy...
Isso é muito elogioso. Temos essas pessoas, jogadores profissionais de ténis, futebolistas, jogadores profissionais de golf, um grupo muito vasto de pessoas bem conhecidas, atrizes e atores… Vemos isso como um grande elogio: nós gostamos do que eles fazem e eles gostam do que nós fazemos. É recíproco. Gostamos da arte uns dos outros. Ficamos muito felizes.

O que querem os Iron Maiden da música hoje? E quão diferente é daquilo que queriam quando gravaram o primeiro álbum, em 1980?
Ao longo dos anos, tentámos abrir as nossas asas com cada álbum que gravámos. Basicamente, pegámos em diversos assuntos, da ficção científica à história, e abordámo-los em canções diferentes, com diferentes melodias e orquestrações inspiradas em música clássica, mas em última instância os Iron Maiden são uma banda rock. Crescemos a ouvir grupos dos anos 70 e 60, projetos como os Deep Purple, The Who, Genesis… Portanto, pegámos em tudo isso como inspiração. Eu também gosto muito de blues, de jazz, folk e música clássica… Adoro tudo.

Conhece fado?
Não! Mas, por acaso, alguém me falou disso e vou investigar sobre fado. Vai ser a minha missão, antes de irmos para Portugal! (risos)

Publicado originalmente a 22 de julho de 2022