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Concertos de 2022 que não queremos esquecer: A despedida dos palcos de Simone de Oliveira com as emoções à flor da pele

28 dezembro 2022 9:00

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira com Carlão no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira com Carlão no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira com Edmundo Inácio no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira com Edmundo Inácio no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira com Marisa Liz no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira com Marisa Liz no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira com Armando Ribeiro no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira com Armando Ribeiro no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira com Nuno Feist no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira com Nuno Feist no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira como Nuno Feist no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira como Nuno Feist no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa
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Simone de Oliveira no Coliseu dos Recreios, Lisboa

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A 29 de março de 2022, a sala nobre do Coliseu de Lisboa foi pequena para receber a imponência de Simone de Oliveira. Os poetas e as canções de sempre, agradecimentos a quem sempre a acompanhou e convidados, esperados e inesperados, na festa de encerramento dos 65 anos de percurso de uma intérprete eterna

28 dezembro 2022 9:00

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Não gosta que lhe chamem diva, mas Simone de Oliveira vai seguir até à eternidade, quer queira quer não queira, sendo uma intérprete maior da canção portuguesa. Com um pé no passado, olhos no futuro e as palavras certas sempre na ponta da língua, a cantora despediu-se esta noite dos palcos com um concerto lotado no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. A mulher que hoje emocionou a plateia, imponente como sempre, é a mesma que, no ido ano de 1969, chocou o puritanismo português com uma frase que lhe foi entregue em mãos por José Carlos Ary dos Santos - porque seria ela a única com coragem para cantá-la -, mas, acima de tudo, é a soma de todas as vidas que viveu e continua a viver. “Fui uma privilegiada. Fiz teatro, televisão, rádio e cinema. Fiz muitos discos, alguns muito mauzinhos. Para alguns fiz o impossível, para mim fiz o possível. Perdi a voz, reinventei-me”, declarou, a meio do espetáculo, com a mordacidade e o realismo de quem se conhece bem, “mas agora gosto de estar assim, leve, de ter tempo para mim, sem horários, sem stress”.

Sentada junto a uma mesa alta com um candeeiro aceso, enquadrando bem aquele aconchego que encontrou eco no longo abraço que o público lhe ofereceu em pouco mais de uma hora de espetáculo, Simone comandou a viagem por 65 anos de percurso musical acompanhada por Nuno Feist, sobre quem recaiu a direção musical e condução de uma pequena e exímia orquestra. Entre os versos de preconceito e sacrifício da canção com que abriu a noite e o poema ‘Não Sei Quantas Almas Tenho’, de Fernando Pessoa, que declamou com o dramatismo de quem mantém a sua fúria de viver, a artista sublinhou a importância da contínua luta pela liberdade: “O preconceito é ainda impedimento à nossa liberdade. Ser livre são as palavras que vos deixo neste meu último espetáculo”. E foi com essa mesma liberdade, e pose magistral, que seguiu cantando sobre a saudade que Ary dos Santos lhe escreveu em ‘Sete Letras’.

O primeiro convidado entrou em cena no seguimento de uma das muitas afirmações categóricas proferidas por Simone ao longo da noite: “Só espero que continuem a reinventar-me. É assim que eu renasço”. Deejay Kamala remisturou-a, no camarote à esquerda do palco, com palavras que mostraram “a Simone do passado, a Simone do presente, a Simone do futuro”. Momentos depois, a sequência mais intensa do concerto arrancou com o clássico ‘No Teu Poema’, há muitos anos pedido emprestado a Carlos do Carmo, e seguiu, debaixo de vigorosos ‘Bravo’ dos fãs mais afoitos, com um dramático ‘Tango Ribeirinho’, a sobriedade de ‘Pingos de Chuva’ e uma seguríssima ‘De Degrau em Degrau’.

Recitando ‘E Por Vezes’, de David Mourão-Ferreira, outro dos poetas que cantou, Simone abriu as portas para os amigos que convidou a juntar-se a ela, afirmando: “Tenho a curiosidade do futuro. Fui rebelde, contestatária, opinativa. E continuarei a ser. Aos 84 anos de uma vida muito bem vivida, a minha vida é aquilo que eu quiser, como diz o meu amigo Fernando Tordo”. Depois de o “tempo ardente” de ‘Não É Verdade’ ter sido servido em duelo vocal com Carlão (“Vocês nem imaginam o que foi trazê-lo de lá para cá. Eu não faço mal a ninguém... O rapaz até é bonito”), chamou ao palco Edmundo Inácio, finalista da mais recente edição do “The Voice Portugal” para lhe entregar ‘Sol de Inverno’, em jeito de passagem de testemunho. “Há uma coisa que me deixa muito feliz: malta nova a cantar muito bem”, exclamou, “será que daqui a alguns anos alguém cantará a ‘Desfolhada’? eu gosto de acreditar que sim”. Um dos momentos mais emocionantes da noite aconteceria pouco depois, com ‘Apenas o Meu Povo’ a ganhar novas vidas nas vozes de Henrique Feist, Ruben Madureira, FF, Sissi, Marisa Luz e Aurea, todos eles cantando dos seus respetivos lugares na plateia. “São amigos que tanto amo e admiro, quer como cantores quer como pessoas”.

“Faz hoje, espantosamente, 53 anos que cantei esta canção na Eurovisão. Uma coincidência que me foi transmitida esta tarde. Não fazia ideia”, afirmou a cantora antes de dar início à apoteótica interpretação de ‘Desfolhada Portuguesa’. “Como uma frase e uma canção podem mudar a nossa vida”. As teclas sensíveis da introdução, a voz embargada no verso ‘quem faz um filho, fá-lo por gosto’ esbarraram numa explosão de palmas que se alongou por largos minutos, obrigando Simone a regressar ao palco para um ponto final contundente. “És grande”, tinha gritado uma admiradora, momentos antes. “Um bocadinho, mas já fui maior... Quando usava saltos”, respondeu, prontamente. E não haveria melhor receita para encerrar uma carreira tão bem preenchida e tão bem vivida quanto este misto de emoção e afiado sentido de humor.