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Placebo ao vivo no festival EDP Vilar de Mouros: pode um concerto ser como o sexo tântrico?

Pela quantidade de t-shirts do grupo que vislumbrámos no recinto, os Placebo eram indiscutivelmente a grande atração do primeiro dia do EDP Vilar de Mouros 2022. Porém, a banda de Brian Molko deixou algumas das suas maiores canções só para o final, demorando tempo a chegar ao êxtase. A despedida fez-se com a canção do ano (via 1985): 'Running Up That Hill', de Kate Bush

Paulo André Cecílio (texto), Rui Duarte Silva (fotos)

É difícil não ver nos Placebo uma influência para todo o movimento queer do século XXI, tê-los como a banda sonora de milhares de jovens que, através do ar andrógino de Brian Molko, perceberam que o género poderia ser algo mais que binário e que as proibições tacitamente impostas pelo resto do mundo - tens que ser menino ou menina - mais não eram, ou não são, que fantasmáticas. E o próprio Molko, homem que compôs um tema intitulado 'Nancy Boy', tem noção disso. "Se, só por termos sido nós próprios nos anos 90, tivermos feito com que as pessoas se sintam menos sozinhas, então já conquistámos algo", disse ao "The Guardian" em 2021.

As unhas pintadas, o eyeliner, o cabelo: tudo isso importou. Importou ainda mais que, em palco, nessa altura em que os Placebo explodiram, não identificássemos homem ou mulher, homem efeminado ou mulher masculina, na figura do vocalista e guitarrista. Se para Judith Butler o "género" é uma performance, a performance de Molko foi sempre, ou quase sempre, a de um não-género, a de uma pessoa a tentar simplesmente ser ela mesma. O seu corpo sempre pareceu mais livre que o de qualquer outro ser humano neste planeta.

Claro que para além do simbolismo existe a música. De "Placebo" (1996) a "Meds" (2006), os Placebo editaram cinco discos. Todos eles perfeitos, todos eles repletos de excelentes canções que ainda hoje soam tão melancólicas, tão extraordinárias, tão belas como outrora. 'Nancy Boy', mas também 'Come Home', 'Protect Me From What I Want', 'Without You I'm Nothing', 'Song to Say Goodbye', e poderíamos perder parágrafos atrás de parágrafos a enumerá-las todas. Até que lançaram "Battle For the Sun" (2009), primeiro tiro ao lado na carreira de uma das poucas bandas das quais se podia dizer que nunca haviam feito um mau álbum. "Loud Like Love" (2013), não melhorou a coisa. Este ano, o grupo procurou um regresso à boa velha forma com "Never Let Me Go", álbum que depois do género incide sobre outra espécie de problemas: os ambientais.

E, no entanto, algo não bate como outrora. Há um par de canções aceitáveis ('Surrounded By Spies', que se escutou esta noite em Vilar de Mouros, é uma delas), há uma data de sintetizadores lamentáveis (como os de 'Beautiful James'), e há a ideia de que Molko nunca mais voltará a ser aquele 'Nancy Boy': deixou crescer ainda mais o cabelo, adotou um bigode, reapresentou-se ao mundo não como uma performance de masculino mas como ele próprio masculino. Perdeu, no fundo, a sua inocência: e essa sua perda levou à nossa própria perda no que aos Placebo diz respeito.

O que não significa que os seus atos não continuem a gerar um enorme interesse, na legião de fãs que os Placebo continuam a comandar, em Portugal e não só. Vimo-los logo pela tarde, à hora de abertura do recinto, a percorrer os metros que distam a entrada do palco para ocupar religiosamente os seus lugares perto de quem lhes disse e continua a dizer tanto. Mas também os vimos, apesar das palmas e de alguns sorrisos, a tentar compreender aquilo que tinham à sua frente: um alinhamento praticamente composto pelo novo álbum.

Claro que uma banda que, quase trinta anos após a sua génese, continua a querer provar que a sua história não se constrói apenas com os êxitos de outrora merece todo o nosso respeito. Ainda assim não há como não lamentar a exclusão de tantas e tantas canções que fizeram poemas, lágrimas, beijos e outras adolescências diversas, assim como se lamentou, tal como com Gary Numan, que o som não estivesse nas melhores condições (Molko bem esbracejou, apontando diversas vezes para o microfone ao longo do espetáculo, com um roadie a tentar ajudá-lo outras tantas vezes, mas nada feito).

Só nos últimos quinze minutos dos Placebo em palco se teve aquilo que tanto entusiasmou no passado - e foi quase como se os Placebo só tivessem dado um concerto de quinze minutos, depois de hora e pouco a afinar instrumentos. No fundo, foi como sexo tântrico: demorou-se demasiado tempo, mas lá se atingiu o orgasmo. Começou com 'Slave To the Wage' e com o baixista Stefan Olsdal a puxar por uma audiência finalmente disposta a querer ser puxada; continuou através do rock jugular de 'The Bitter End'; passou pela magnífica 'Infra-Red', a vingança como um verso gritado (There's gonna be an accident...); e terminou num dos hinos deste verão, 'Running Up That Hill', de Kate Bush, que os Placebo gravaram quando ainda não era in gostar de Kate Bush. Saíram debaixo de um coro de aplausos porque a memória não esquece tudo o que os Placebo já fizeram por nós, mas a opinião parecia generalizada: faltaram aquelas canções. A gratidão, essa, estará lá sempre.

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