Blitz

Linda Martini: “Sabemos que a nossa música não cabe na Rádio Comercial. É como pores um quadrado dentro de uma bola num jogo de miúdos”

27 fevereiro 2022 10:51

Ao fim de quase 20 anos, os Linda Martini aceitam o facto de se terem tornado uma instituição do rock português (e de não passarem em rádios de massas). Para lá da “viagem sem rumo” do novo álbum, “Errôr”, o agora trio fala à BLITZ sobre a saída do guitarrista Pedro Geraldes (“estamos a começar a lidar com isso”), da canção mais abertamente política que já gravaram e do primeiro concerto de sempre (“a pessoa fugiu com o dinheiro”)

27 fevereiro 2022 10:51

Nas quase duas décadas que já levam de percurso musical, ‘Amor Combate’, de 2006, foi não só a canção que lhes abriu portas como aquela que mais perto chegou de se tornar um “êxito radiofónico”. São os próprios Linda Martini que o dizem. Desde então, o coletivo que começou como quinteto, passou a quarteto e agora, com a saída do guitarrista Pedro Geraldes, se reapresenta como trio transformou-se numa verdadeira instituição do rock português. O culto foi alastrando a cada concerto explosivo que deram e a cada álbum que editaram. Já lá vão seis. E ao sexto, “Errôr”, acabado de editar, André Henriques, Cláudia Guerreiro e Hélio Morais mostram que a constante sede de novidade não está em vias de abrandar. Nele, não só refletem a ansiedade que a pandemia lhes trouxe como aproveitam para soltar uma ou outra provocação aos “definidores de gostos” e escrever a canção mais abertamente política de toda a sua discografia. “É uma bênção conseguir fazer isto com amigos, independentemente da idade que tenha”, confessa o vocalista e guitarrista André Henriques em entrevista à BLITZ, “isto sabe-me a vida. Eu sei que tenho cabelos e barba branca, mas não tenho 40 anos nem 30 quando faço isto. Não podemos ser velhos a fazer isto”.

“Errôr” parece ter-vos apanhado num dos momentos mais interessantes e, ao mesmo tempo, desorientadores do percurso dos Linda Martini. Sentem isso?
André Henriques – O disco, para já, tem este título “Errôr” e vem com esta ideia da viagem sem rumo… Nós estávamos a fazer a coisa toda bonitinha: tínhamos uma residência em fevereiro de 2020 e íamos gravar o disco em junho, mas, entretanto, isto implodiu em março. De repente, fomos engolidos, como toda a gente, neste turbilhão todo e o disco foi sucessivamente pontapeado para a frente… Depois de tentarmos agendar duas vezes, finalmente fomos para o estúdio gravá-lo com o [produtor] Santi [Garcia] em janeiro de 2021. Foi logo a seguir àquele Natal terrível. Para sair de casa, tínhamos de ter folhas de circulação assinadas pela [editora] Sony e fizemos o disco todo de máscaras. Só as tirávamos para cantar, praticamente não nos tocávamos. Foi um disco completamente atípico.
Cláudia Guerreiro – Felizmente, estava muito avançado antes de entrarmos nisto, porque senão nem sei se tínhamos sequer conseguido fazer um disco.

No início de 2020, falavam-nos dos “esqueletos” que já tinham no armário e sobre os quais iam começar a trabalhar. Deram muitas voltas ou o que ouvimos no disco não diverge muito da ideia inicial?
AH – A maioria das letras foi feita já estando nós na pandemia, por isso são muito influenciadas por ela, mas as bases musicais e de instrumentação já estavam muito cristalizadas. Claro que há sempre pormenores que se acrescentam, mas o que trabalhámos depois foi mais o encaixe da voz e os arranjos. Falou-se muito se a pandemia era um momento criativo ou não. Individualmente, cada um de nós foi explorando o seu território. Enquanto banda, lá está, se não tivéssemos esse trabalho prévio se calhar não tínhamos feito nada, porque nós trabalhamos muito em conjunto na edificação daquilo que poderá ser uma canção nossa.

O contexto do qual nasceu este “ERRÔR” foi o mais desafiante do vosso percurso ou já tinham criado outros discos em momentos tão turbulentos quanto este?
CG – Para mim não foi, de todo. Foi muito pacífico. Começámos a fazê-lo assim que acabaram os concertos mais importantes do [disco anterior] “Linda Martini”. Estávamos cheios de vontade de fazer um álbum novo: ‘Já viste? Estamos já a fazer! Isto vai ser incrível. Não vamos ter aquele tempo de espera’. Pois…
AH – E já havia um tom. Começou logo a ganhar uma forma na residência. Já percebíamos ali qualquer coisa. É fixe quando isso acontece desde cedo.

Além de sinónimo de erro e de viagem sem rumo “Errôr” é, também, sinónimo de raiva? Não parece um disco apaziguador. 
CG – É engraçado, porque estou a ver reações muito diferentes. Acabámos de ouvir que o disco era uma coisa mais tensa, mais fechada, menos explosiva…
Hélio Morais – Mas eu acho que essas coisas se encontram. Precisamente por ser mais tenso, depois quando se liberta soa mais raivoso. O final do ‘Obá Obá Obá’ é uma brita impossível. 
CG – E não é a única. Continua a ter esses dois elementos, a ter partes muito tensas e partes de grande explosão. O que nós sentimos, desde o início, foi que as músicas eram escuras. A sensação de aperto, de tensão, de uma coisa que está ali controlada até ao momento em que se pode descontrolar. É isso que o disco é: escuro, pesado, menos punk rock, se calhar, do que outros que tenhamos feito. 
HM – Mas tens a ‘Rádio Comercial’…
CG – Sim… É sempre difícil, porque assim que começamos a falar contradizemo-nos. 

Canções como ‘Taxonomia’ ou ‘Horário de Verão’ parecem reflexos diretos daquela ansiedade que todos sentimos nos últimos dois anos. “Errôr” é um bebé pandémico?
AH – Na verdade, tens mais, como a ‘Não Sobrou Ninguém’, que aborda aquele tema da extrema-direita, do racismo. Se não tivéssemos ficado em casa quando o “Black Lives Matter” ou as presidenciais aconteceram, se andássemos airosamente a passear nas nossas vidas, claro que essas coisas nos preocupariam, mas não ao ponto de nos remexerem tanto as entranhas para fazermos uma música sobre isso. A questão foi essa: ficámos todos em casa a olhar para as paredes, como dizemos em ‘Taxonomia’, e isso fez com que as coisas que nos revoltam e nos irritam ainda nos calcassem mais os pés. Não é que quiséssemos fazer um disco assumidamente a falar do presente, um disco mais político, a questão é que te caiu uma bigorna tão grande na cabeça que era impossível não falar. Não havia mais nada sobre o que falar. Eu só ligo a televisão se o miúdo quiser ver desenhos animados, não consumo noticiários, só leio jornais online ou em papel, mas, de repente, a televisão tornou-se a nossa janela para o mundo. Deixou rapidamente de o ser, mas durante o primeiro mês da pandemia toda a gente viveu um bocado essa ansiedade. Tínhamos de olhar para aquilo para perceber o que se estava a passar à nossa volta.

Pegando na nova canção ‘Rádio Comercial’, pergunto-vos: a vossa música passa com que frequência e em que estações de rádio?
HM – Na Rádio Comercial é que nunca passou (risos).
CG – Mas eu achei que esta era aquela que tinha possibilidade de passar, então ficámos ‘bora, vamos forçar isso’. Quando tocámos a música, ainda sem letra, alguém perguntou ‘Como é que chamamos esta?’ e eu respondi ‘Chama-lhe Rádio Comercial, que isto, claramente, é desta’.

“Estamos a começar a lidar com isso, com uma certa tristeza. Afinal de contas, estávamos juntos há 20 anos. Não vamos pôr ninguém no lugar do Pedro Geraldes”

Hélio Morais

Qual foi a canção dos Linda Martini que esteve mais perto de se tornar um êxito radiofónico?
HM – Foi o ‘Amor Combate’.
CG – Não há dúvida nenhuma.
HM – Ainda hoje, nos serviços de streaming, é a música com mais plays. Essa e a ‘Cem Metros Sereia’.
AH – Mesmo as nossas canções mais calmas, mais lentas ou mais despidas têm sempre uma coisa torta ali no meio, portanto para uma rádio convencional ou para uma playlist mais mainstream mesmo aquilo que é mais soft nunca é soft o suficiente. 
CG – Como foi dito, deve bater sempre na trave…

Isso foi o que Pedro Ribeiro, diretor da Rádio Comercial, disse à BLITZ no Posto Emissor
CG – Eu ouvi. A cena dos Capitão Fausto. Foi exatamente o que ele disse: ‘aquilo bate sempre na trave’.
HM – Há um trabalho de educação que pode ser feito, se calhar…
CG – Mas esse trabalho, se calhar, não compete à Rádio Comercial, compete a outras. 
HM – É isso, é legítimo. Há rádios que têm um sentido pedagógico e outras que têm acionistas e precisam de mostrar números. 
AH – Há um parêntesis que importa referir. Essa canção em particular surgiu como uma piada. A música era tão suja que a Cláudia sugeriu ‘Rádio Comercial’ porque é a maior antítese. Nunca na vida irá passar. Muitas vezes os nomes de guerra depois não vingam, quando começas a pensar na letra, mas saíram-me aquelas palavras e acabou mesmo por se chamar ‘Rádio Comercial’. O nome da rádio tem essa particularidade de tanto dizer rádio como dizer comercial, o que não quer dizer que seja propriamente um alvo. Nós sabemos perfeitamente o tipo de música que fazemos e que não cabe ali. É como pores um quadrado dentro de uma bola num jogo de miúdos. E também não queremos forçar para que caiba. Não vamos mudar a nossa música e a nossa estética para passar ali, tal como eles também não vão mudar a estética deles para incorporar uma banda como a nossa, pelo menos não terão planos nesse sentido. Quisemos brincar com essa ideia de quem é que define os gostos. O tal porteiro de discoteca que diz o que é bom e se podes entrar ou não…
CG – Antes, as rádios ditavam tendências. Neste momento, não são as rádios que ditam tendências, apenas seguem tendências. 

Perderam, recentemente, um elemento, o guitarrista Pedro Geraldes. O que se passou?
HM – Seguimos caminhos diferentes. É uma coisa recente. Acho que já passámos a fase de gestão da crise e conseguimos falar os quatro de forma tranquila. Agora, estamos a começar a lidar com isso, com uma certa tristeza. Afinal de contas, estávamos juntos há 20 anos. Não vamos pôr ninguém no lugar do Pedro. Seria estranho aparecer uma outra cara numa banda que tem as mesmas caras desde sempre. Talvez no futuro, não sabemos, mas não é prioritário. Teremos alguém ao vivo.

Não sentem, portanto, que estão em modo reconstrução?
CG – Não. Estamos em modo manutenção das questões práticas, de fazer acontecer aquilo que estava planeado, que era pôr o disco cá fora e dar os concertos. 
HM – Por alguma razão estamos a continuar os três. Temos muita vontade de continuar a fazer isto. Adoramos o disco e queremos muito tocá-lo ao vivo. E por isso é que estamos nesta demanda. Se, de repente, sentíssemos que a banda estava toda cada um para seu lado provavelmente não continuaríamos. Mas não. As três pessoas que estão sentadas nesta mesa têm um carinho muito grande por este disco e uma vontade muito grande de tocá-lo ao vivo. 

Há dois anos, diziam-nos que quando uma pessoa sai de uma relação amorosa a dois não há forma de ela continuar, mas uma banda tem sempre a hipótese de continuar sem a pessoa que decide abandonar…
AH – É um lugar-comum dizer isto, mas estar numa banda é como estar numa relação. No nosso caso, é um casamento de muitos anos, porque nos conhecemos desde os 13, 14 anos. E já passámos por isso antes e foi muito difícil, na altura. Quando começámos, éramos cinco. O Sérgio saiu, em 2009, e percebemos que é difícil para quem vai e para quem fica. O Pedro esteve connosco na feitura deste disco e penso que também se revê nele. É um momento com que temos de lidar. Sabemos que o ‘para sempre’ é relativo e que há encontros e desencontros no meio do processo. Tivemos a felicidade de estarmos juntos estes anos todos, mas é sempre muito estranho.
HM – Linda Martini é uma banda com o Pedro. Neste momento, não está a continuar com ele, mas o Pedro faz parte de toda a sua história. Somos o que somos também por isso: porque foram estas quatro pessoas a partir de determinado momento e porque foram cinco no início. O Sérgio era o grande motor da banda no início.
AH – Foi ele que teve a ideia de fazer a banda.
CG – As bandas crescem, evoluem, são um organismo vivo. Agora, inicia-se uma fase diferente. Continuaremos todos a fazer música. O Pedro também, de certeza. Aliás, tem uma série de coisas a acontecer.

Nunca ouvimos os Linda Martini tão direta e abertamente investidos em reflexões políticas como em “E Não Sobrou Ninguém”. O “império de ódio” que se ergueu, impulsionado por discursos extremados, foi usado como rastilho de criatividade?
AH – Mais uma vez, e voltando à pandemia, acho que vem do facto de ter estado em casa a bater com a cabeça nas paredes e a ver aquelas notícias revoltantes. Tiveste a cena do “Black Lives Matter”, as manifestações, uma série de declarações a nosso ver completamente abusivas e intrusivas. Tiveste manifestações anti-anti-racismo, coisas inimagináveis no século em que estamos. Se calhar, se tivéssemos tido a possibilidade de ir para a rua, passear no jardim ou ir à praia dar uns mergulhos, isso não nos tinha remexido tanto as entranhas. Nunca foi nossa intenção sermos porta-estandartes de alguma coisa que não daquilo que nos apetece dizer no momento, mas a realidade caiu-nos toda em cima, aquele balde todo. Aquilo tinha que sair por algum lado. E saiu. Por isso é que dizemos que, de facto, nunca um disco nosso foi tanto sobre o hoje. Não que quiséssemos que as nossas canções fossem intemporais, nunca foi essa a preocupação, mas desta vez não houve como fugir.

Os Linda Martini, de repente, já se tornaram uma “instituição” da música portuguesa, à falta de melhor palavra. Como lidam com isso, com o facto de já não serem a nova banda no pedaço?
CG – Lidamos com isso fazendo discos. Aliás, a melhor maneira de continuarmos nisto é fazer discos, porque sem eles ninguém toca. É conveniente que qualquer pessoa que trabalhe na área artística queira estar sempre a renovar-se, mas a necessidade completamente louca de ter sempre coisas novas da parte de quem promove, nas rádios na marcação de concertos, também te obriga a isso. Por vezes, até nem queres fazê-lo, mas tens de estar sempre a oferecer um produto. A música, a arte, o que seja, são sempre vistas como produtos e esses produtos têm que ser interessantes… e parece que o único interesse que o produto tem é a novidade. Isso é muito chato, mas, felizmente para nós, também é isso que procuramos. Alimentamo-nos disso, da vontade de ir fazendo coisas novas. Não vejo a cena de sermos uma instituição como uma carga. Naturalmente, acabaremos por sair… não quero usar a palavra moda.
HM – Já saímos. 
CG – Já saímos, mas mantemos o nosso espaço.
AH – O problema de quem está na moda é que tem de estar sempre na moda. 
HM – A questão da novidade que a Cláudia falou é verdade, mas nós somos privilegiados porque temos público fiel e que se renova. Continuo a olhar para as primeiras filas dos concertos e continua a ser gente muito nova. Isso, para mim, é sinal de vitalidade. Por outro lado, não tem havido muito espaço para aparecerem bandas novas com a possibilidade de fazer isto no nível que nós fazemos. As bandas mais indie rock não têm espaço quase nenhum, hoje em dia, nem na rádio nem em festivais. Isso é triste de observar, mas fico muito feliz por sermos daqueles poucos privilegiados que podem continuar a fazer isto. 
AH – Há também aquele lado mais umbiguista. Quando vamos ensaiar e tocamos uma música como a ‘Rádio Comercial’ pensamos: ‘eu não posso ser velho a tocar esta música’. Sempre que toco aquilo sou um gajo novo. Não tenho 40 anos nem tenho 30. Não tenho idade. É uma bênção conseguir fazer isto com amigos, independentemente da idade que tenha. Sabe-me a vida. É um cliché do caraças, mas é incrível. Um privilégio do caraças. Não podemos ser velhos a fazer isto. Sei que tenho cabelos e barba branca, mas não posso ser velho a fazer isto.

Fazem 20 anos em 2023, certo? 
HM – Desde que passámos a ser cinco na banda, sim. 2023. Na verdade, as primeiras músicas que existem de Linda Martini começaram a ser feitas em 2001, mas não nos chamávamos Linda Martini nem éramos os cinco ainda…

Que recordações guardam do vosso primeiro concerto?
HM – Foi em Gaia, na varanda do Hard Club, em 2005.
CG – Dinheiro recebido: zero. 
HM – Dinheiro perdido.
CG – Dinheiro perdido: muito! Nem um cêntimo ganhámos, porque a pessoa fugiu.
AH – Mas foi incrível. Fomos com amigos e chegámos lá e aquilo estava cheio, ao barrote. A malta a cantar as músicas, tudo a fazer stage diving
CG – Atenção que o ‘cheio ao barrote’ eram 60 e tal pessoas, porque a varanda ficava cheia com 60 pessoas. 
AH – Tínhamos uma maqueta fresquinha, acabada de sair, e, de repente, aquilo foi um fenómeno. Desde o início que foi uma surpresa o facto de a malta adorar aquilo, porque estávamos a fazer uma coisa muita suja, com distorção e ruído. Claro que queríamos que as pessoas gostassem, senão não fazíamos música e ficávamos fechados na garagem, mas foi surpreendente perceber que elas estavam mesmo a curtir aquilo.