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A história absolveu os Heróis do Mar. 11 canções que inventaram o futuro pop de um país chamado Portugal

9 janeiro 2022 9:40

Heróis do Mar

Quatro décadas depois, a revolução pop protagonizada pelo grupo de Pedro Ayres Magalhães, Paulo Pedro Gonçalves, Carlos Maria Trindade, António José Almeida e Rui Pregal da Cunha continua a fazer-se sentir nas canções que inspiram novas gerações a cantar e a dançar em português. Mas nem sempre foi assim

9 janeiro 2022 9:40

Há quarenta anos, Portugal era um país longínquo, estranho se o olharmos com olhos contemporâneos. Não havia, nomeadamente, aquilo que hoje percebemos ser uma cultura pop, pelo menos não uma digna desse nome: a RTP exibiu as novelas Água Viva e Olhai Os Lírios do Campo e se a primeira nos confrontava com visões de um verão que por cá ainda não se apresentava tão despido, a segunda transportava-nos para um passado distinto daquele de que nos tínhamos livrado há pouco tempo, em que as mulheres, sofisticadas, fumavam e os homens, sedutores, vestiam fatos elegantes. Aos adolescentes em busca de um futuro diferente pouco mais restava do que as “aventuras” moralmente seguras dos 5 cuja leitura parecia ser ritual obrigatório e os heróis das páginas das coleções Falcão ou Mundo de Aventuras. Tanto umas como outras, leituras demasiado desligadas da nossa realidade.

Nesse tempo, um baile era campo de batalha entre quem sentia, por um lado, o pulsar das hormonas e, por outro, a censura do olhar das mães e avós que vigiavam de perto a honra das suas filhas. E ao domingo havia sempre missa. Esta era a realidade para todos os que não pertenciam a uma elite que, em Lisboa, frequentava espaços como o Brown’s ou o Trumps, cursava Belas Artes e parava pela loja Op de Paulo Nozolino, como nos contou em tempos Rui Pregal da Cunha, desenhando um secreto circuito da modernidade que, timidamente, sonhava em transformar Portugal.

No arranque do ano escolar de 1981, uma cassete começou a circular nos recreios dos liceus: na capa assinada por António Campos Rosado, o pormenor de uma pintura que destacava uma cruz de Cristo, símbolo pouco usual quando nem uma década se tinha cumprido sobre o 25 de Abril. E quando finalmente foi possível ver os Heróis do Mar na televisão, algo aconteceu. Portugal parecia começar, lentamente, a parecer-se com o que se imaginava serem Londres ou Nova Iorque, ainda que os ventos da resistência ao que era novo soprassem muito fortes, levando o grupo a ser acusado de simpatias fascistas devido ao seu arrojado visual e da temática de algumas canções – “saudade” era, nesse tempo, palavra proibida: “O nosso primeiro concerto após o lançamento do álbum aconteceu, por mero acaso, no dia 25 de novembro, no Rock Rendez Vous e chegou a circular o boato de que o Jaime Neves iria aparecer em palco,” contou, em 2006 à BLITZ, o vocalista dos Heróis do Mar. E o grupo tinha preocupações políticas? “Sei lá. Falávamos de política, claro, mas não havia posições definidas. O Pedro, por exemplo, se era alguma coisa era para aí comunista, daqueles retintos”.

Em resposta a todas as acusações que consideravam infundadas, os Heróis do Mar fizeram publicar no jornal Se7e um anúncio de página inteira com uma célebre frase de Fidel Castro:
“A história nos absolverá”

A polémica que envolveu os Heróis do Mar nas páginas da nascente imprensa musical de então, sobretudo no semanário Se7e, teve, no entanto, um lado extremamente positivo que o próprio Rui Pregal reconheceu: “Foi a melhor publicidade que podíamos ter tido.” O grupo reforçou-se com todas as críticas negativas e enfrentou os tempos de peito aberto chegando até a protagonizar um gesto hoje praticamente impensável: em resposta a todas as acusações que consideravam infundadas, os Heróis do Mar e a sua editora fizeram publicar no Se7e um anúncio de página inteira com uma célebre frase de Fidel Castro – “A história nos absolverá” – em grande destaque.

Quando hoje se sentem ecos das ideias dos Heróis do Mar na produção pop de uma nova geração de artistas, dos Capitão Fausto a Samuel Úria ou Benjamim, por exemplo, cumpre-se, precisamente, essa “absolvição”, com o grupo a ver-se elevado à condição de justa referência por muitos criadores que continuam a insistir em pensar no futuro. Pedro Ayres de Magalhães, em conversa (com o autor deste artigo) para a série de livros Debaixo da Língua, explicava que esse futuro foi arrancado à força à imaginação, porque no Portugal do arranque dos anos 80 não havia referências para aquilo a que os Heróis do Mar se propunham: “Não havia, de facto, é escusado procurar, os Heróis do Mar, como se teoriza, é uma música programática. Nós pensámos nesse programa: primeiro, como fazer uma música contemporânea que usasse a nossa língua e tivesse raízes na nossa cultura – tanto do ponto-de-vista das palavras e dos textos como da música em si; e depois como se podia introduzir elementos sem perturbar muito a nossa existência no seio da música europeia que conhecíamos e cultivávamos. Procurámos criar uma banda sem cairmos num som mau ou desatualizado. Foi um longo caminho e em cada álbum mudámos de peça. Os Heróis do Mar foram uns sete grupos sempre com as mesmas pessoas, mas dramaturgias diferentes”.

É ao encontro dessas dramaturgias que, neste ano em que se assinalam quatro décadas volvidas sobre o aparecimento (“aparição” também poderia ser palavra usada aqui…) dos Heróis do Mar, partimos agora ao escolhermos 11 canções emblemáticas que Pedro Ayres, Carlos Maria, Rui Pregal, Paulo Pedro e Tozé legaram ao nosso futuro.

1. Saudade, 1981

O rufo dos tambores, serve, nas batalhas, para exaltar as hostes. De certa forma, os Heróis do Mar propunham-se exaltar uma nova maneira de estar na música. Pedro Ayres explicou em entrevista as intenções do grupo com este clássico de 1981:  “Tentámos cantar de forma diferente à saudade de ti e procurámos enquadrá-la naquilo que é a filosofia da saudade como arte de viver”. Missão cumprida.

2. Brava Dança dos Heróis, 1981

A palavra, uma vez mais, a Pedro Ayres de Magalhães: “O primeiro disco [Heróis do Mar, 1981] é uma peça épica, mais masculina, uma espécie de ficção científica, como se tivessem passado 600 anos e nós fossemos os mesmos e os portugueses não morressem, uma criação de eternidade. Cantámos coisas que pensámos ser giro de cantar – as sensações da viagem, a coragem, espírito de aventura, romantismo, saudade, literatura, o interesse pelo outro e pelas religiões, a tempestade, o ranger das madeiras, as especiarias. Tudo como se ainda hoje acontecesse”. E na “Brava Dança dos Heróis” pressente-se toda essa vibrante exaltação feita canção pop que soava diferente de tudo o resto que a mais jovem música portuguesa então propunha.

3. Olhar no Oriente, 1981

A guitarra de Paulo Pedro e os teclados de Carlos Maria respiravam modernidade e empurravam já para a pista de dança. “E lá se vão os Heróis”, como dizia a canção, direitinhos ao futuro cujas portas eles mesmos começavam a forçar a abrir-se.

4. Amor (Versão Nocturna), 1982

Quando lançaram o seu primeiro maxi, em 1982, tudo se alterou para os Heróis do Mar que alcançaram com as massivas vendas um galardão até aí inédito: Disco de Platina. E a verdade é que ainda hoje, quatro décadas mais tarde, não há festa que resista a um tema que exalta o melhor de todos os sentimentos, aquele que, garantiam os Beatles, era tudo o que precisávamos. Pedro Ayres é modesto quando recorda o tema: “O single “Amor” é uma cena mambo-funk, de marinheiros sem ser o Village People, uma coisa mais terra a terra”.

5. Paixão, 1983

Um pouco como o díptico What’s Going On / Let’s get It On com que Marvin Gaye explorou as diferenças entre as dimensões espiritual e carnal, também em “Amor” e “Paixão” Rui Pregal e companhia exploravam dois lados de uma sensualidade à portuguesa que começava então a despontar na nossa nascente pop (ali ao “lado”, as Doce cantavam, por exemplo, “Bem Bom”…). Em comum, a pista de dança como o lugar onde esses sentimentos se exaltavam. Pedro Ayres: “O single “Paixão” é electro-funk, é completamente diferente, passava já com o ‘Lets Dance’ do David Bowie”.

6. Cachopa, 1983

“Cachopa” era palavra do campo, do outro Portugal que se estendia para lá das Avenidas Novas, a tal rapariga que no baile era vigiada pelo matriarcado temente a Deus. E no clip oficial, os Heróis do Mar, de elegantes fatos, pareciam preparados para os mais modernos clubes de Londres. E para levarem todas as cachopas ao mais pecaminoso dos êxtases: dançar sem qualquer temor. Isso também pode ser revolucionário.

7. Se Fores ao Norte, 1983

O arranque do tema soa a demo de Prince dos tempos de Controversy, mas este tema de Mãe é mais um exercício de encontro dos Heróis com os sons modernos que se arrancavam aos sintetizadores, com a guitarra de Paulo Pedro a soar mais funky do que qualquer outra coisa que por esta altura cá se fizesse.

8. Alegria, 1985

Em 1985, o nacional cinzentismo tinha nos Sétima Legião um natural ainda que algo solitário expoente, com Mão Morta e Pop Dell’Arte ainda a serem congeminados entre Braga e Lisboa. Já os Heróis do Mar buscavam a alegria, lamentando, sobre vigorosa base rítmica, não haver ninguém capaz de lhes dar a dita cuja. É um dos mais eufóricos temas do quarteto maravilha, embora Pedro Ayres garanta que nesse tema “já não havia epopeia ou teatro”. Todos juntos: “la la la la la la”. 

9. Fado, 1986

Mas, lá está, muitas vezes, no caminho da alegria, estava este fado que tanto marca a identidade portuguesa. O tema foi retirado de Macau, um disco especial para os Heróis. Recorda o baixista: “Macau é fantástico, foi todo improvisado no estúdio. Tivemos umas dissensões entre as músicas que eram para entrar e o plenário decidiu que só alinhávamos se fizéssemos tudo de novo. É um disco giro, autobiográfico, baseado na nossa bela viagem a Macau em 1985”.

10. O Inventor, 1987

É muito difícil, de facto, mas isso não impediu pedro Ayres de tentar quando nos falou sobre a sua “agenda” criativa, “humanista, de liberdade”: “A nossa sociedade ainda é muito presa, havia falta de franqueza e amor próprio. Nós sonhávamos com este momento: Lisboa cheia de turistas jovens. Antigamente era só velhos. Mas isto vive tudo com dinheiro emprestado, também já não nos pertence de qualquer das formas (risos)”.

11. Africana, 1988

Há um par de anos, na já mencionada conversa para o livro Debaixo da Língua, questionava-se Pedro Ayres a propósito de “Africana”: “Hoje, ao olharmos para o “Africana”, de 1989, percebemos que é um tema contemporâneo, porque finalmente se está a contemplar uma Lisboa africana…”. O homem que também deu vida aos Madredeus, no entanto, recusa medalhas: “Nunca tive essa ideia de romper barreiras e vontades sem ser para o nosso grupo. Isso é o mesmo que no tempo de Madredeus me perguntarem como é que me sentia como embaixador de Portugal porque embaixador é que não sou. Nunca tive essa coisa de me investir de responsabilidades que não tenho, senão era muito frustrante. Uma pessoa não pode achar que está à frente”. E, no entanto, por vezes, lá acontece…

Texto: Rui Miguel Abreu