Coronavírus

Voto antecipado no Norte: filas e ajuntamentos exasperam eleitores. “Isto não tem jeito nenhum”

17 janeiro 2021 16:35

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

rui duarte silva

No Porto, mais de 13 mil eleitores pediram o voto antecipado. Ao meio dia, a fila alongava-se por mais de meio quilómetro e às 14h30 ia no dobro, e havia eleitores indignados a desistirem. Em Matosinhos, uma hora antes, a demora de quase uma hora também levou eleitores abandonar as filas, enquanto se clamava pelo voto eletrónico ou pelo adiamento das presidenciais

17 janeiro 2021 16:35

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

rui duarte silva

No Centro Cultural e Desportivo (CCD) dos Trabalhadores da Câmara do Porto, na Rua Alves Redol, são 22 as secções de voto, instaladas num pavilhão e em amplas tendas provisórias instaladas junto ao campo de futebol. Pelo meio dia, a fila de eleitores que requereram o voto antecipado nestas Presidenciais em tempo de pandemia dá a volta ao quarteirão, estendendo-se pela Rua Damião de Góis acima. António Vasconcelos, 75 anos e a mulher, Olga, optaram pelo por cumprir o dever de voto no primeiro ato do sufrágio presidencial, este domingo, para evitar as aglomerações do próximo domingo, 24 de janeiro, dia das eleições gerais, vaticínio sem aderência à realidade.

“A minha previsão saiu errada”, diz António, que já está na fila há mais de meia hora e ainda não chegou à esquina da Rua Alves Redol. Nem ele nem a mulher estão a pensar desistir, por temerem que daqui a uma semana ainda seja pior, “e com chuva”. Apesar da demora e das muitas de centenas de pessoas que resistem estoicamente pela sua vez de votar, António e Olga concordam que as eleições se realizem em pleno reconfinamento, dada a incerteza pandémica: “Ninguém nos garante que daqui a um mês o cenário será melhor”, alertam.

Jorge e Maria Amélia também quiseram arrumar já a questão e, apesar do ajuntamento, vão esperar para votar. Em sentido contrário, caminha um jovem casal. Estão “fartos”. Preferem não se identificar, confessando que não percebem a razão pela qual o Governo não optou pelo voto eletrónico, “pelo menos para quem quisesse aderir”.

Quem fica, mantém distâncias, menos entre grupos de familiares. À entrada do CCD, numa tenda com cadeiras distanciadas para pessoas com mobilidade reduzida, Lurdes Neves, 65 anos, conta que já votou e está à espera dos filhos. Votou hoje por vontade dos filhos, embora não perceba o motivo porque não se adiaram as eleições até à situação“ ser mais segura e os surtos mais aliviados”. Há meses que espera para ser operada a uma anca para colocar uma prótese. “Preciso de duas, mas sei lá quando vai ser possível”, acrescenta resignada.

No outro lado da tenda, uma idosa com a ajuda de um funcionário da Câmara sobe para um carro de tipo golfe para ir votar.

Cristina, advogada de profissão, já votou e espera pelo marido, que faz parte do grupo de risco. Embora haja mais seis secções de voto dos que as recomendadas pelo Ministério da Administração Interna, as filas continuam a crescer, chegando a mais de um quilómetro pelas 14h30. Concorda com a realização das eleições e se tenha alargado o voto antecipado a todos os concelhos para evitar ajuntamentos, sem esconder, contudo, a surpresa com a adesão nestas eleições atípicas. “A Constituição não permite que fossem adiadas”, lembra, sem esconder a perplexidade porque não foi implementado o voto eletrónico, “seguro e fidedigno”. “Votamos assim para a Ordem dos Advogados e correu tudo muito bem”, garante.

São quase 13 horas. Alexandra, 23 anos, natural de Santiago do Cacém, a estudar no Porto, espera há perto de uma hora para votar e finalmente chegou a sua vez. Também estava “longe de pensar que ia haver tanta gente”, mas não está arrependida de se ter inscrito.

Menos pacientes e indignados, João Ferreira de Castro e a mulher, Conceição Stoker, dão meia volta rumo a casa. Inscreveram-se para votar antecipadamente “precisamente para evitar ajuntamentos”, mas, afinal, a experiência “está a ser pior” do que a dos últimos atos eleitorais . “O que se vê aqui é tudo o que não podia acontecer”, avisam. Votam às urnas para a semana.

rui duarte silva

Eleições em tempo de pandemia divide eleitores

Em Matosinhos, onde mais de sete mil eleitores se inscreveram no sufrágio antecipado, as filares são mais curtas, mas pelas 11h horas há quem também se queixe da demora e até quem desista. Na Escola Secundária Gonçalo Zarco, contam-se 15 secções de voto. Umas andam ligeiro, outras, como a 14, prolongam-se ordeiramente. Há quase uma centena de pessoas de todas as idades a aguardar a sua vez, com uma ou outro abandono pelo meio. Como no Porto, há um circuito de entrada, outro de saída, para evitar que os eleitores se cruzem e não respeitem o distanciamento da praxe.

À entrada alerta-se para o uso obrigatório de máscara e uso de caneta própria. Na zona exterior da escola, estão mais de 200 pessoas à espera de chegar à sua mesa de voto, marcadas por ordem alfabética. Diogo, escuteiro, encaminha os eleitores para a fila respetiva, o que não evita que algumas reclamações que “má organização”. Vânia Xavier, 36 anos, é uma das queixosas, farta de esperar há quase uma hora. “Isto não tem jeito nenhum”, atira exasperada, afiançando que, já que está inscrita, vai votar, “por uma questão de dever cívico”, não por concordar com as eleições nesta altura. “Até por respeito por quem teve de fechar os seus estabelecimentos e nem sabe se vai poder voltar a abrir, deviam ter sido adiadas”.

Vítor Santos é da mesma opinião, sustentando que o “diploma eleitoral deveria ter sido revisto devido ao elevado número de casos positivos e ao reconfinamento”. Também não entende como nesta situação extraordinária não há voto eletrónico, não se admirando, por isso, que a “abstenção seja ainda mais elevada do que nos últimos sufrágios”. Como mora em São Mamede de Infesta e vai estar todo o dia numa mesa de voto na Freguesia da Senhora da Hora, era a única forma de assegurar que votava.

Sérgio Oliveira, 48 anos, espera há mais de meia hora pela sua vez e não estava igualmente à espera de ver tanta gente junta, tendo decidido não aguardar por domingo por julgar que “seria mais seguro para os pais”. “Agora mais vale aguentar”, diz, concordando que era complicado adiar as Presidenciais para outra altura: “Não sabemos como vai estar o surto daqui a um mês, era adiar o problema, tanto mais que não há suporte legar para o fazer”, conclui.

“Era mais seguro esperar pelo verãozinho”

Maria da Graça dos Santos é outra eleitora que “nunca imaginou encontrar tanta gente ali” e um processo tão lento. Num país de muitas marias, calhou-lhe a fila pior, a 14, explica um elemento da organização, cenário que estima não se repetirá a 24 de janeiro, dado que serão muitos mais os locais de sufrágio.

“Eu voto sempre, cumpro o meu direito e dever, mas que as eleições deveriam ter sido adiadas, não há dúvida”, adverte, sublinhando que “é incompreensível que haja confinamento para umas coisas e para outras não”, face ao perigo de contágio. “Esperava-se lá mais para o verãozinho, quando a covid estivesse mais controlada”, sentencia, até por o país não estar “desgovernado” e ser quase certo que “vai ganhar o mesmo”.