Coronavírus

Covid-19. Estudo sugere que lesões cerebrais podem atingir doentes ligeiros. “Estamos a ver coisas que nunca vimos noutros vírus”

9 julho 2020 12:31

Não são ainda conhecidos todos os efeitos que a covid-19 pode ter no corpo dos doentes, dos ligeiros aos mais graves

rui duarte silva

Analisados 43 pacientes no Reino Unido com complicações cerebrais após o contacto com SARS-CoV-2, não foi encontrada qualquer relação entre a gravidade da doença e a ocorrência de danos no cérebro, o que sugere que o problema pode atingir os doentes ligeiros. Investigadores pedem, por isso, que atenção não seja centrada apenas na cura da covid-19, mas também nos efeitos que ela provoca no corpo

9 julho 2020 12:31

Além das já conhecidas complicações respiratórias, a covid-19 pode provocar graves lesões cerebrais nos doentes, mesmo os que apresentam apenas sintomas ligeiros. É o que se destaca do estudo publicado esta quarta-feira por neurologistas britânicos na revista Brain, após a análise de 43 pacientes no Reino Unido cujas complicações após o contacto com a doença foram desde inflamações encefálicas até delírios ou derrames cerebrais.

Mais do que isso: em alguns casos, os problemas neurológicos foram os principais sintomas da doença. E não foi encontrada nenhuma relação entre a gravidade da covid-19 no organismo e a ocorrência de efeitos no cérebro.

Entre os pacientes, 24 homens e 19 mulheres, havia 29 casos confirmados de infeção por SARS-CoV-2, com gravidades e sintomas diferentes — entre “leves” e “críticos” —, oito casos “prováveis” e seis “possíveis”. De acordo com as alterações encontradas, os autores dividiram os pacientes em cinco categorias: encefalopatias (sinais inflamatórios relacionados com o encéfalo) com delírios e psicose, sinais inflamatórios no sistema nervoso central, derrames como acidentes vasculares cerebrais, distúrbios neurológicos no sistema nervoso periférico e um último grupo resumido como “miscelâneas/não categorizado”. Dois doentes não resistiram aos danos cerebrais.

As histórias vêm caracterizadas no estudo agora publicado (AQUI), onde se destaca, por exemplo, o caso de uma mulher de 55 anos sem antecedentes psiquiátricos que, após ter tido alta, com apenas três dias de internamento hospitalar, começou a ter comportamentos erráticos. Entre eles estavam o facto de pôr e tirar repetidamente o casaco e de garantir estar a ser perseguida em casa, além de ver leões e macacos.

Foi o marido que deu o alerta para a alteração comportamental da mulher, que, lê-se no documento, “desenvolveu alucinações auditivas contínuas, delírios persecutórios, a Síndrome de Capgras [a ilusão de que um ente próximo foi substituído por um sósia] e percepções ilusórias sistematizadas complexas”. Como consequência, a mulher “exibiu um comportamento agressivo intermitente com a equipa do hospital e com a sua família”.

O caso desta britânica, mesmo que extremo, abre a porta para a possibilidade de transtornos graves em doentes ligeiros de covid-19. Antes de entrar no hospital, a mulher teve 14 dias de febre, tosse, dores musculares, dificuldade respiratória e perda de olfato e paladar, nada de muito diferente do que muitos outros doentes reportam. E esteve apenas três dias no hospital, findos os quais a doença foi dada como debelada. Só melhorou com recurso a medicamentos antipsicóticos.

O que a investigação sugere é que, mais do que o vírus a atacar diretamente o cérebro, é a resposta que o corpo dá para se defender que causa danos. Os anticorpos que o organismo produz para neutralizar o vírus podem atacar outras substâncias, como a mielina, que cobrem as células nervosas e suas ramificações. A mensagem é, por isso, para que os médicos e clínicos gerais não foquem a atenção apenas na recuperação, mas também nas implicações psicológicas. “Estamos a ver coisas na forma como a covid-19 afeta o cérebro que nunca vimos noutros vírus”, alerta Michael Zandi, autor do estudo e consultor da fundação University College London Hospitals NHS Foundation Trust.

No Instituto de Neurologia da University College London foi observado um aumento de casos de ADEM (Encefalomielite Aguda Disseminada) desde a chegada da covid-19 ao Reino Unido. Doença rara, afeta sobretudo crianças e adolescentes, e aparecia no instituto hospitalar de Londres a uma média de um caso por mês — entre abril e maio, chegaram dois a três pacientes com ADEM por semana, o que parece corroborar o resultado do estudo. Também entre os doentes analisados no estudo, há uma alta incidência de ADEM (24%), em pacientes dos 16 aos 85 anos.

A preocupação é também que o amplo espectro de impactos cerebrais da doença possa não ser imediatamente detetado porque muitos doentes internados não estão em condições de ser examinados a outros problemas além da própria covid-19. Logo em maio, a Organização Mundial da Saúde tinha deixado o mesmo aviso e pedido uma “vigilância agressiva”. Nas palavras do diretor executivo do programa de emergências sanitárias da organização, o irlandês Michael Ryan, esta “é obviamente uma síndrome respiratória, mas torna-se claro que numa percentagem das pessoas doentes provoca uma resposta inflamatória mais alargada, seja no sistema vascular seja em outras partes do corpo”.

“O que realmente precisamos agora é de uma pesquisa melhor para analisar o que realmente está a acontecer no cérebro”, explica o mesmo Zandi, citado pelo jornal "The Guardian", que insiste que “ainda é cedo” para que se aumentem os temores de que a doença deixe danos cerebrais mais subtis e só perceptíveis daqui a anos. “Esperamos, obviamente, que isso não aconteça, mas quando temos uma pandemia tão grande a afetar uma proporção tão vasta da população, é algo a que precisamos de estar atentos.”