Sociedade

João Bonifácio Serra (1949-2023)

João Bonifácio Serra, em 2021, na apresentação de Leiria a candidatar a Capital Europeia da Cultura 2027. No Castelo de Leiria
João Bonifácio Serra, em 2021, na apresentação de Leiria a candidatar a Capital Europeia da Cultura 2027. No Castelo de Leiria
Joaquim Dâmaso/Região de Leiria

Durante dez anos foi um dos principais colaboradores do Presidente Jorge Sampaio. Em 2012 liderou o projeto de Guimarães Capital Europeia da Cultura. Fundou a Escola Superior de Artes e Design, nas Caldas da Rainha, de cuja cátedra UNESCO era o titular

Natural da aldeia de Carvalhal Benfeito, no concelho das Caldas da Rainha, João José Bonifácio Serra nasceu em 22 de abril de 1949. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e iniciou a sua atividade profissional em 1970, como professor do ensino secundário, primeiro em Castelo Branco e depois em Lisboa, no Liceu Padre António Vieira.

Durante a ditadura, foi militante da CDE, uma plataforma política liderada pelo clandestino PCP e que reunia várias correntes da oposição. Depois do 25 de Abril, pertenceu ao MES (Movimento de Esquerda Socialista), um pequeno partido da esquerda radical, que começou por ser liderado por Jorge Sampaio (que se demitiu, acompanhado por vários amigos, no primeiro congresso, de Dezembro de 1974). Em 1976 fez parte dos órgãos políticos da candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, experiência que repetiu em 1986, com Francisco Salgado Zenha.

Aderiu ao Partido Socialista aquando da eleição, em 1989, de Jorge Sampaio como secretário-geral, circunscrevendo a sua atividade às estruturas locais das Caldas da Rainha.

Chefe da Casa Civil do Presidente Sampaio

Em 1995, quando Sampaio se candidatou à Presidência da República, integrou o pequeno grupo de colaboradores que preparavam os seus discursos e intervenções políticas. Convidado pelo Presidente eleito a trabalhar no Palácio de Belém, fez parte, durante os dois mandatos de Sampaio, da chamada “Távola Redonda”, como Carlos Gaspar chamou às reuniões semanais de debate político promovidas pelo Presidente, juntando todos os assessores e consultores.

Em Belém começou por ser consultor, mas cedo passou a assessor, primeiro na área estritamente parlamentar, que depois alargou à política geral. Em 2004, foi nomeado chefe da Casa Civil, cargo que desempenhou durante os dois últimos anos do mandato presidencial, tendo acompanhado de perto as duas principais crises políticas da era Sampaio: a substituição do primeiro-ministro Durão Barroso por Santana Lopes e a ulterior dissolução da Assembleia da República.

Membro do Conselho das Ordens Nacionais, Sampaio condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo e com a Ordem da Liberdade.

Presidente da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura

Depois de uma década em Belém, presidiu ao projeto Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, o que o obrigou a instalar-se de armas e bagagens durante quase cinco anos naquela cidade, cuja vida cultural muito ajudou a transformar e revitalizar. Mais recentemente, presidiu ao Conselho Estratégico Rede Cultura 2027, a entidade responsável pela candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura 2027.

Quando Sampaio faleceu, em Setembro de 2021, foi, juntamente com Jorge Simões, José Gameiro e o autor deste texto, um dos coordenadores do livro de homenagem “Era uma vez Jorge Sampaio”, lançado ainda nesse ano na Fundação Gulbenkian.

Desde sempre colaborador na imprensa, escreveu no Jornal de Educação, no Jornal do Fundão e assinou regularmente colunas na Gazeta das Caldas e no Região de Leiria. Na imprensa de expressão nacional, o seu último artigo, em co-autoria, foi no Público, em 18 de Setembro de 2022, no primeiro aniversário da morte de Sampaio.

Professor titular da cátedra UNESCO

À margem da política, teve um largo percurso na academia. Na área da história social e política, que começou por ser a sua primeira área de eleição, foi investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova da Universidade de Lisboa, e lecionou diversas cadeiras no ISCTE, na Faculdade de Letras de Lisboa e na Universidade Lusófona. É autor de numerosos estudos sobre temas de história portuguesa dos séculos XIX e XX, em particular sobre o movimento republicano e a I República. Deixou biografias e ensaios sobre figuras marcantes daquele período, como Pinheiro Chagas, Raul Proença, João Chagas, Francisco Grandela, Manuel de Arriaga ou José Relvas.

Mas foi na sua região do Oeste que mais investiu nas últimas três décadas. Em 1989, com efeito, foi um dos fundadores, nas Caldas da Rainha, da Escola Superior de Artes e Design (ESAD.CR), do Instituto Politécnico de Leiria, onde foi investigador e professor em cursos de licenciatura e mestrado. O seu trabalho e capacidade de iniciativa viriam a ser fundamentais no processo de atribuição, àquele instituto, em 2018, da Cátedra UNESCO em Gestão das Artes e da Cultura, Cidades e Criatividade, de que era o professor titular. Era ainda académico correspondente da Academia Nacional de Belas Artes.

Além disso, foi porventura um dos historiadores que mais investigou e escreveu sobre a cidade das Caldas da Rainha e a sua região, bem como sobre a história da cerâmica, que lhe está associada. Ao seu trabalho muito se deve, aliás, a obtenção, em 2019, pelas Caldas da Rainha, do título de Cidade Criativa da Unesco.

As gárgulas da Torre do Tombo

Tinha numerosos projetos em mãos, entre os quais a realização de uma exposição sobre “Os Artistas na Fábrica”, no Museu de Leiria, e a revitalização do Museu do Bombarral. Em fase de conclusão estava um livro sobre o escultor José Aurélio e as suas gárgulas na Torre do Tombo, em Lisboa. Já no prelo, encontra-se o segundo dos quatro volumes da História do Parlamento Português, que incorpora uma sua investigação sobre o Parlamento na I República, em parceria com os também historiadores Luís Bigotte Chorão e Fernando Catroga.

João Bonifácio Serra faleceu no dia 19, vítima de um cancro nos pulmões que lhe fora diagnosticado há cerca de dez anos. Os Presidentes da República e da Assembleia da República lamentaram o seu desaparecimento, tendo apresentado condolências à família. Numa nota divulgada na página do Palácio de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa evocou o “homem de cultura, professor e historiador”.

O funeral realiza-se no Centro Funerário de Cascais (em Alcabideche) no sábado, dia 22, dia em que completaria 74 anos. Após uma breve cerimónia de homenagem, o corpo será cremado por volta das 15h30 horas.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: jpcastanheira@expresso.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate
+ Vistas