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ūüźĺ J√° pensou em clonar o seu animal de estima√ß√£o? Continuar o ‚Äúlegado‚ÄĚ de c√£es e gatos √© poss√≠vel, mas eticamente ‚Äúquestion√°vel‚ÄĚ

ūüźĺ J√° pensou em clonar o seu animal de estima√ß√£o? Continuar o ‚Äúlegado‚ÄĚ de c√£es e gatos √© poss√≠vel, mas eticamente ‚Äúquestion√°vel‚ÄĚ
JUNG YEON-JE
Para que o amor n√£o acabe, h√° quem pague milhares de euros para fazer c√≥pias dos seus animais de estima√ß√£o. A clonagem de c√£es e gatos est√° a tornar-se popular nos Estados Unidos, sobretudo entre influencers nas redes sociais, e tamb√©m √© poss√≠vel na Coreia do Sul, China e Reino Unido. Mas a pr√°tica √© ‚Äúquestion√°vel‚ÄĚ e ainda muito controversa ‚ÄĒ perguntas e respostas sobre a replica√ß√£o gen√©tica neste Dia Mundial do Animal, 4 de outubro

A perda de um animal de estima√ß√£o causa uma dor irrepar√°vel e equipar√°vel (ou mesmo superior) √† perda de um humano. Afinal cada c√£o e gato √© √ļnico, mas ser√° insubstitu√≠vel? H√° uma forma de continuar o legado dos companheiros de quatro patas ‚ÄĒ a clonagem ‚ÄĒ mas a pr√°tica √© ainda muito controversa e levanta v√°rios problemas √©ticos, sobretudo para o ‚Äúbem-estar dos animais envolvidos no processo‚ÄĚ, alerta Cl√°udia Baptista, professora de Bem-Estar Animal, Deontologia e √Čtica Veterin√°ria no Instituto de Ci√™ncias Biom√©dicas de Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto.

A replica√ß√£o gen√©tica de animais de companhia, comum na Coreia do Sul e China, est√° a ganhar cada vez mais adeptos nos Estados Unidos, onde os donos n√£o querem dizer adeus aos seus adorados animais e, por isso mesmo, fazem c√≥pias deles. A tend√™ncia est√° a ser espoletada pelas redes sociais: a clonagem √© sobretudo feita por petfluencers com milhares de seguidores que alimentam as contas com conte√ļdos dos seus c√£es e/ou gatos e falam abertamente sobre os clones que lhes custaram milhares de euros a replicar.

Uma das p√°ginas mais conhecidas no Instagram √© a ‚ÄúWander with Willow‚ÄĚ. A fot√≥grafa e influenciadora norte-americana Courtney Udvar-Hazy publicava regularmente fotos de Willow, um h√≠brido entre lobo e c√£o, que foram ficando cada vez mais populares. Quando Willow morreu inesperadamente no final de 2018, atropelado por um carro, a sua dona decidiu recorrer a uma empresa no Texas chamada ViaGens Pets & Equine que replica geneticamente animais para fins comerciais.

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Assim, de Willow nasceu Phoenix, numa refer√™ncia clara ao p√°ssaro que renasceria das cinzas. Courtney ficou bastante satisfeita com o resultado final e o envolvimento dos f√£s: no in√≠cio tinha cerca de 1000 seguidores no Instagram, entretanto o n√ļmero j√° evoluiu para 264 mil (e 1,8 milh√Ķes no TikTok). Mas o sucesso n√£o vem sem cr√≠ticas: ‚ÄúAs pessoas dizem que tenho um c√£o zombie, ou chamam-me rica e louca. A coisa mais importante para mim foi continuar o seu legado e linha de sangue. Eu n√£o estava bem na altura. Imaginei que pudesse ser algo que curasse um pouco o meu cora√ß√£o‚ÄĚ, contou √† revista Input.

O significado de clonar um animal de companhia √© ‚Äúquestion√°vel‚ÄĚ pois, como diz a m√©dica veterin√°ria Cl√°udia Baptista, o relacionamento entre uma pessoa e um animal √© √ļnico e a hist√≥ria partilhada entre ambos n√£o pode ser repetida nem copiada. ‚ÄúA no√ß√£o de singularidade inerente ao nosso entendimento de amizade/membro da fam√≠lia √© incompat√≠vel com a substitutibilidade incorporada na pr√°tica da clonagem‚ÄĚ, afirma.

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Courtney Udvar-Hazy recorreu √† mesma empresa usada por Barbra Streisand para clonar a sua cadela, a partir de c√©lulas retiradas da boca e do est√īmago. A cantora e atriz norte-americana revelou √† ‚ÄúVariety‚ÄĚ, em 2018, que Miss Violet e Miss Scarlett eram r√©plicas de Samantha, uma Coton de Tulear que tinha morrido no ano anterior com 14 anos.

Esta tecnologia não é nova. A ovelha Dolly nasceu assim há 26 anos, a 5 de julho de 1996, tornando-se no primeiro mamífero clonado a partir de uma célula somática adulta de uma ovelha com seis anos.

Como é feita a replicação genética?

Através da biotecnologia, são retiradas algumas células do tecido do animal vivo ou recém-falecido que se pretende clonar, normalmente da barriga ou orelha. O ADN destas células é posteriormente isolado e injetado num ovo de um animal doador, que teve o seu material genético removido. Este ovo é depois cultivado em laboratório até se formar um embrião que será introduzido numa barriga de aluguer.

A replica√ß√£o gen√©tica √© assim feita com a ajuda da gesta√ß√£o de substitui√ß√£o: cadelas e gatas s√£o barrigas de aluguer e d√£o √† luz filhos que n√£o s√£o seus ‚ÄĒ os clones. Como a taxa de sucesso est√° longe dos 100%, o processo pode levar anos e sujeitar as f√™meas a doarem v√°rios dos seus √≥vulos e a terem v√°rias gravidezes de substitui√ß√£o.

Onde pode ser feita?

A pr√°tica pode ser feita em pelo menos quatro pa√≠ses do mundo. A replica√ß√£o gen√©tica de animais de companhia para fins comerciais √© comum na Coreia do Sul ‚ÄĒ foi ali√°s o pa√≠s a produzir o primeiro c√£o clonado em 2005, o Snuppy, um galgo afeg√£o que nasceu a partir de Tai. Na China os servi√ßos comerciais de clonagem, bem como a preserva√ß√£o de c√©lulas, tamb√©m s√£o uma pr√°tica.

Na Europa, a clonagem para já só é possível no Reino Unido, através da empresa Gemini Genetics, em parceria com a gigante norte-americana ViaGens Pets & Equine. Esta empresa de biotecnologia do Texas, EUA, armazena e replica ADN de cães, gatos e equinos (onde se incluem os cavalos), garantindo dois serviços: preservação genética e clonagem. Isto significa que o ADN dos animais pode ser armazenado por tempo indefinido, para uma possível clonagem futura, o que tem um custo de quase 1500 euros.

Quanto custa?

O pre√ßo varia consoante o animal. Segundo as informa√ß√Ķes disponibilizadas na p√°gina da ViaGen Pets & Equine, clonar um gato custa cerca de 35 mil euros. O mesmo processo para um c√£o √© mais caro: ronda os 50 mil euros. No caso dos cavalos, o pre√ßo √© ainda mais elevado: quase 90 mil euros. O pagamento √© sempre feito em duas presta√ß√Ķes iguais.

Que caraterísticas preservam os clones?

O aspeto f√≠sico dos clones tende a ser igual, j√° a personalidade nem tanto. Na entrevista √† Vanity Fair, Barbra Streisand contou que as duas cadelinhas que nasceram a partir de Samantha n√£o herdaram os mesmos tra√ßos psicol√≥gicos. ‚ÄúElas t√™m personalidades diferentes. Estou √† espera que envelhe√ßam para poder ver se t√™m os seus olhos castanhos e a sua seriedade‚ÄĚ.

Tamb√©m Kelly Anderson, petfluencer e treinadora de c√£es no Texas, perdeu a sua gata Chai repentinamente. Como forma de lidar com o luto e a perda de seguidores (20 mil ap√≥s a morte de Chai) fez uma c√≥pia: Belle. A nova gata mant√©m os mesmos olhos azuis e p√™lo branco, no entanto a personalidade ‚Äú√© completamente diferente‚ÄĚ, disse ao The Sun. ‚ÄúElas t√™m alguns tra√ßos semelhantes. S√£o muito ousadas e atrevidas, mas essa carater√≠stica pode ser comum √† ra√ßa. Belle √© uma gata totalmente nova‚ÄĚ, assegura.

A identidade e comportamento dos animais n√£o √© duplic√°vel, e mesmo o aspeto f√≠sico n√£o √© um dado adquirido. Basta ver o exemplo do primeiro gato clonado, o CC, e o seu doador de ADN, o Rainbow, lembra Cl√°udia Baptista. Embora fossem geneticamente similares, ‚Äúos dois gatos pareciam completamente diferentes j√° que a cor e o padr√£o da pelagem s√£o influenciados pelo ambiente no √ļtero, algo que n√£o pode ser replicado pela clonagem‚ÄĚ, explica a m√©dica veterin√°ria.

Isto acontece porque o fen√≥tipo (caracter√≠sticas f√≠sicas observ√°veis) resulta da express√£o dos genes do organismo, mas tamb√©m da influ√™ncia de fatores ambientais e da eventual intera√ß√£o entre os dois, esclarece ainda a professora universit√°ria do ICBAS. ‚ÄúOs clones poder√£o n√£o apresentar as mesmas caracter√≠sticas morfol√≥gicas e comportamentais do dador devido a altera√ß√Ķes gen√©ticas aleat√≥rias e a fatores ambientais (epigen√©ticos) pass√≠veis de influenciar o fen√≥tipo‚ÄĚ.

Que quest√Ķes √©ticas coloca?

‚ÄúSer√° √©tico clonar um animal de companhia quando tantos outros s√£o abandonados e alvo de m√ļltiplas prova√ß√Ķes?‚ÄĚ. A quest√£o levantada por Cl√°udia Batista √© muitas vezes usada como argumento contra esta ind√ļstria multimilion√°ria, por contribuir para a crise de sobrepopula√ß√£o de animais, em canis e gatis, √† espera de serem resgatados.

Al√©m disso, a taxa de sucesso √© problem√°tica pois ronda apenas os 20%, segundo um relat√≥rio da Universidade de Columbia, Nova Iorque. Por exemplo, no caso do primeiro c√£o alguma vez clonado, o Snuppy, foram precisos mais de 1000 embri√Ķes colocados cirurgicamente em 123 barrigas de aluguer que, por sua vez, s√≥ resultaram em tr√™s gravidezes, segundo a revista cient√≠fica Scientific American. Destas tr√™s gesta√ß√Ķes, houve um aborto espont√Ęneo, nascendo apenas duas crias. Mas um dos rec√©m-nascidos sofreu problemas respirat√≥rios neonatais e morreu ao fim de tr√™s semanas, pelo que s√≥ sobreviveu um clone: o Snuppy.

Acresce o facto de as ‚Äėc√≥pias‚Äô serem mais propensas a doen√ßas, como t√™m demonstrado v√°rios estudos cient√≠ficos. ‚ÄúOs animais clonados t√™m um risco aumentado de desenvolver anomalias de crescimento, como peso reduzido ao nascimento, √≥rg√£os parcialmente subdesenvolvidos ou aumentados, deformidades, insufici√™ncia respirat√≥ria, aumento da suscetibilidade a doen√ßas, relut√Ęncia em mamar e dificuldade em respirar e manter-se em esta√ß√£o‚ÄĚ, nota a professora de Bem-Estar Animal, Deontologia e √Čtica Veterin√°ria.

O processo tamb√©m n√£o √© nada f√°cil para as f√™meas que geram os clones. ‚ÄúAs m√£es substitutas experienciam transtornos associados √† gesta√ß√£o de fetos clonados, como elevadas taxas de aborto, aumento excessivo do tamanho fetal, distocia (dificuldades no parto), hidropisia (ac√ļmulo anormal de l√≠quido em dois ou mais compartimentos), anomalias da placenta e cesarianas consequentes‚ÄĚ, constata ainda a veterin√°ria.

No entanto, nem tudo √© mau na replica√ß√£o gen√©tica de animais dom√©sticos. Como antev√™ Cl√°udia Baptista, esta tecnologia pode ser √ļtil para preservar esp√©cies amea√ßadas e clonar c√£es de servi√ßo de elite, tais como farejadores de drogas ou explosivos, detetores de cancro, e ajuda a pessoas com defici√™ncia ou doen√ßas.

Tem d√ļvidas, sugest√Ķes ou cr√≠ticas? Envie-me um e-mail: mtribuna@expresso.impresa.pt

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