Sociedade

Doente com fibrose quística tratada com vírus que matam bactérias. “Ganhei qualidade de vida”, diz Eda

4 setembro 2022 17:30

Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva

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Fotojornalista

Joana Azeredo, investigadora da Universidade do Minho, diz que a prática é segura

Infarmed recorda que terapia com bacteriofágicos não respeita regulamentos, mas também não está interdita

4 setembro 2022 17:30

Rui Duarte Silva

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Acontece assim: um vírus agarra-se a uma bactéria e, a seguir, espeta um arpão para injetar ácido nucleico; no tempo que lhe resta de vida, esta bactéria passa a ter como única função alojar partículas virais até implodir e libertar entre 50 e 200 vírus. Nascem desta forma os vírus bacteriofágicos, num duelo fatal que se repete desde o início da vida na Terra mas que teve um desfecho bem mais animador numa terapia levada a cabo na Universidade do Minho. Eda Alves, que sofre de fibrose quística, deixou de lado os antibióticos durante alguns meses e ganhou “uma qualidade de vida imensa” com este procedimento. É provavelmente a primeira doente de infeção pulmonar crónica a ser tratada em Portugal com vírus bacteriofágicos. Ou, como se diz na gíria, fagos. “Não estava a ver outra solução. Como não havia efeitos secundários ou contraindicações, avancei”, recorda a paciente, de 18 anos.

O vilão desta história dá pelo nome de Pseudomonas aeruginosa, bactéria que se tornou especialmente severa para Eda devido aos agregados que bloqueiam a função respiratória e à resistência ganha aos antibióticos. A condição levou a jovem minhota a ser internada por mais do que uma vez para receber medicação endovenosa, mesmo após iniciar a toma de Kaftrio, o antibiótico mais sofisticado no mercado. A última crise surgiu em junho, e Eda não hesitou em solicitar uma sessão terapêutica ao Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho (CEB), que já a havia ajudado numa primeira sessão em 2021, depois de solicitada a ajuda ao Hospital Militar Rainha Astrid, que tem vindo a desenvolver terapias com bacteriofágicos à luz da legislação belga. Na memória da jovem mantém-se a recusa do Centro Hospitalar da Universidade do Porto no uso deste tipo de terapias, devido à inexistência de autorizações do Infarmed. “É quase impossível acabar com as bactérias resistentes, mas se puder fazer terapia fágica [de vírus bacteriofágicos] ciclicamente para dar qualidade de vida, mesmo que seja só por alguns meses, já justifica que fique disponível”, defende a jovem.