Sociedade

Gares marítimas do Porto de Lisboa são consideradas “monumentos a preservar” e vão ser abertas ao público

3 março 2022 16:31

Gare marítima de Alcântara, projetada pelo arquiteto Pardal Monteiro Foto: João Carvalho

Projetadas pelo arquiteto Pardal Monteiro, coincidindo com o fim da segunda Guerra Mundial, as gares de Alcântara e Rocha do Conde d’Óbidos foram eleitas como património a preservar pelo Fundo Mundial de Monumentos

3 março 2022 16:31

As gares marítimas do Porto de Lisboa, em Alcântara e na Rocha Conde de Óbidos, foram selecionadas como um dos 25 lugares do mundo a requerer “preservação urgente”, pela sua “cultura extraordinária” e “vital para as comunidades locais”, pelo Fundo Mundial de Monumentos (com a sigla em inglês WMF- World Monuments Fund).

O programa ‘Watch 2022’ do Fundo Mundial de Monumentos selecionou as gares marítimas em Lisboa entre mais de 225 candidaturas a nível mundial, destacando o valor histórico e artístico dos seus edifícios, cuja construção coincidiu com o fim da Segunda Guerra Mundial.

“Falamos de duas estruturas arquitetónicas que assistiram a significativos movimentos migratórios internacionais, como os da comunidade judaica no pós-holocausto, mas também do êxodo de uma parte significativa da população portuguesa em busca de melhores condições de vida. Testemunharam igualmente a partida das tropas portuguesas para a Guerra Colonial e a subsequente chegada dos retornados”, sublinham o Porto de Lisboa e o World Monuments Fund, em comunicado conjunto.

O destaque vai para o facto de os edifícios das gares de Alcântara e da Rocha de Conde de Óbidos terem sido projetadas pelo arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, “no âmbito do grande plano de urbanização de Lisboa liderado pelo engenheiro Duarte Pacheco, e constituem um dos exemplos mais marcantes da arquitetura moderna da época do Estado Novo”, segundo explicita a nota informativa, frisando tratar-se de “obras-primas”.

Relevante para esta distinção do Fundo Mundial de Monumentos, foi ainda o facto de as gares marítimas em Lisboa incluirem 14 murais de Almada Negreiros, na altura criadas com o objetivo de mostrar a “grandeza da nação portuguesa e as suas inúmeras conquistas a todos os que desembarcassem no porto”.

“Apesar dos requisitos subjacentes à encomenda feita pelo Estado Novo a Almada Negreiros, os murais ousaram representar narrativas associadas ao comércio marítimo, à emigração e ao quotidiano das comunidades do porto, retratando nomeadamente o trabalho da comunidade afrodescendente em Portugal, um tema de importância pessoal para Almada, que nasceu em São Tomé e Príncipe”, explicam ainda o Porto de Lisboa e o WMF.

Ao abrigo da distinção no ‘Watch 2022’, o Fundo Mundial de Monumentos irá apoiar a administração do Porto de Lisboa na conservação dos murais e na reabilitação das gares “que outrora serviram de porta de entrada marítima em Lisboa”, também no objetivo de estruturar uma estratégia que inclui abertura de visitas ao público e programação cultural, “em colaboração com as empresas da área e outras instituições culturais que se pretendam associar ao projeto”.

O projeto vai ser desenvolvido por uma equipa constituída pela administração do Porto de Lisboa, o Fundo Mundial de Monumentos, a Associação ANSA (Almada Negreiros Sarah Affonso), a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nomeadamente o Instituto de História de Arte e o Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, o Laboratório Hércules, no âmbito também do Projeto ‘O desvendar da Arte da Pintura Mural de Almada Negreiros’, a Faculdade de Arquitectura de Lisboa e a empresa Nova Conservação.

A administração do Porto de Lisboa e o WMF referem, ainda, ter procedidono último trimestre de 2021 ao restauro urgente de um dos painéis da Gare marítima de Alcântara no qual  a camada pictórica se encontrava em risco de destacamento e consequente perda irreversível”. E frisam ser “urgente conservar estes murais pelo que representam em termos de valor artístico e histórico”, lembrando que instituições, empresas ou cidadãos poderão apoiar este projeto através do mecanismo do mecenato cultural.