Sociedade

Ambientalistas admitem vantagens na fusão nuclear, mas Governo não muda de posição

15 fevereiro 2022 22:55

Governo não se pronuncia sobre fusão nuclear em específico, e prefere manter a posição contra a energia nuclear. Marcelo e ambientalistas são favoráveis à exploração desta tendência tecnológica

15 fevereiro 2022 22:55

Ao cabo de mais de 50 anos de manifestações e protestos, o dístico “nuclear não, obrigado” pode estar em vias de conhecer uma primeira variante. Na semana passada, o reator Joint European Torus (JET), Reino Unido, bateu recordes ao garantir a potência elétrica necessária para 11 mil casas em apenas cinco segundos – e ao contrário do passado, os ambientalistas não parecem especialmente assustados ou indignados. Até porque se trata de fusão nuclear – e não da tradicional fissão nuclear. Mas no Governo, a posição contra o nuclear mantém-se inalterada. O que também poderá ser um sinal de que a escolha do novo executivo poderá revelar-se de força maior, mesmo quando está em causa a poderosa energia nuclear.

“Os tempos recentes provam que só a aposta nas energias renováveis pode defender a Europa dos elevados preços de produção de eletricidade”, refere o gabinete de João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente e Ação Climática.

A posição institucional reflete o que Matos Fernandes já havia reiterado em plena Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), que se realizou na Escócia. Nessa altura, o titular da pasta do Ambiente rejeitou o nuclear na totalidade – e nem sequer admitiu uma eventual exceção para a fusão nuclear. A posição ditada na COP26 contraria mesmo o leque de opções apresentado pela UE para os estados membros, que prevê o recurso à energia nuclear.

O silêncio de Matos Fernandes quanto à fusão nuclear pode ser justificado com o tradicional recato dos governantes nos momentos que antecedem a escolha de um novo elenco governativo, mas não chega para esquecer a potencial confusão que o primeiro-ministro António Costa indiciou durante o debate com Rui Tavares, dirigente do Livre, dias antes das eleições. Nessa altura, o líder do Governo acusou o Livre de defender a energia nuclear – mas Rui Tavares lembrou que, apesar de ser contra as centrais tradicionais, que recorrem à fissão nuclear, defende o investimento na fusão nuclear como possível para os próximos 10 anos.

Como o nome indica, a fusão nuclear pressupõe uma colisão de núcleos de elementos químicos com o objetivo de os fundir e gerar grandes quantidades de energia. Trítio e deutério são os materiais mais usados na fusão.

A fissão também tem por base uma colisão, mas recorre a um neutrão que é lançado contra um núcleo de grandes dimensões, como o do urânio. A ideia é quebrar o núcleo do urânio (daí chamar-se fissão) e gerar energia ao mesmo tempo que liberta mais neutrões – que têm de estar sob controlo para não gerarem um incidente radioativo.

Fusão nuclear não é para já

Eventualmente, Rui Tavares terá ganho pontos entre a minoria que sabe distinguir fusão e fissão nucleares, mas não está garantido que acertou na previsão temporal: mesmo depois de ter sido batido o recorde de produção de energia ainda a título experimental, e de o Japão ter anunciado que vai avançar com a construção de uma central de fusão nuclear, a produção de energia com centrais de fusão nuclear pode vir a demorar bem mais de 10 anos até entrar na rotina. O que não chega para desencadear críticas de ambientalistas.

“A fusão é completamente diferente da fissão. Nos riscos que já foram avaliados, verificou-se que a fusão nuclear não produz emissões de dióxido de carbono (CO2) ou outros gases que fomentam o efeito de estufa. Os materiais produzidos (pela fusão nuclear) decaem rapidamente e não têm risco significativo”, explica Francisco Ferreira, presidente da Associação Zero. “Mas importa não esquecer que a operacionalidade comercial ainda vai demorar muito tempo. No Japão, prevê-se a instalação da primeira central de fusão no final da década, mas sabe-se que vai implicar um investimento enorme”, acrescenta o ambientalista.

É precisamente o tempo de espera até que a fusão nuclear se torne uma realidade que ajuda a compreender melhor a posição associação Quercus. “Obviamente que a fusão é uma solução muito menos perigosa do ponto de vista dos resíduos (que a fissão), mas há uma grande incerteza quanto ao momento em que vai ser possível usá-la. Vai demorar 10, 20 ou 30 anos? Também não se sabe ao certo qual a eficiência energética ou a quantidade de energia, e tudo isso tem de ser testado. O que significa que a fusão nuclear não pode ser encarada como solução para as alterações climáticas, que exigem que se reduza os gazes de efeito de estufa ainda durante esta década”, explica Marta Leandro, porta-voz da associação Quercus.

Boa parte da contestação suscitada pela energia nuclear tem por base a produção de resíduos radioativos prejudiciais para a saúde. Na fissão, são produzidos resíduos que contêm plutónio, estrôncio-90 e césio-137. Estes resíduos têm de ser armazenados em locais devidamente selados durante longos períodos – pois podem levar milhares de anos até decaírem e baixarem de nível de radioatividade.

Na fusão nuclear, o único resíduo produzido é o hélio – que, eventualmente, poderá ser aproveitado com propósitos comerciais. Nesta tecnologia, a radioatividade fica confinada aos equipamentos que estão em contacto com os plasmas usados no interior do reator circular e oco que suporta o choque e a consequente fusão de núcleos. Além disso, sabe-se que, em algumas dezenas de anos, há um decaimento nos equipamentos expostos ao choque de núcleos, que poderá reduzir os níveis de radioatividade para níveis aceitáveis.

“Um dia que tenhamos um reator de fusão nuclear, damos um importante passo para resolver os problemas energéticos do mundo”, refere Patrícia Gonçalves, dirigente do Livre e investigadora na área da Física de Partículas. Da mesma forma que se diz contra as centrais de fissão, a dirigente do Livre defende que o futuro passa pela fusão, “mas sem deixar de apostar nas renováveis”.

Bom para Portugal?

Não será de estranhar que até Marcelo Rebelo de Sousa esteja de acordo com a posição do Livre: “Esta nova tecnologia permite gerar eletricidade, substituindo os processos poluentes atuais de produção de energia, onde há o recurso ao carvão, petróleo ou gás e sem os riscos associados à fissão nuclear e aos seus resíduos”, defendeu um comunicado da Presidência da República, depois de se saber do novo recorde da fusão nuclear na semana passada.

Rui Tavares, líder do Livre, assumiu a defesa da fusão nuclear em debate com o primeiro ministro António Costa. Marcelo Rebelo de Sousa viria a ter posição similar quase um mês depois

Rui Tavares, líder do Livre, assumiu a defesa da fusão nuclear em debate com o primeiro ministro António Costa. Marcelo Rebelo de Sousa viria a ter posição similar quase um mês depois

Na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), há uma constatação que ajuda a explicar a pequena euforia em torno da fusão: “A questão do nuclear vem sempre à baila sempre que há uma crise energética”, explica Orfeu Bertolami, professor da FCUP. O professor da Universidade do Porto acredita que, apesar dos elevados investimentos, a fusão nuclear poderá começar a produzir energia de forma competitiva dentro de uma década. E essa previsão poderá acelerar oportunidades de fazer negócio ou ciência em Portugal. “Num futuro um pouco mais longínquo, Portugal terá boas condições para tirar partido desta nova tendência”, acrescenta.

Em Lisboa, nos laboratórios que o Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN), há algumas contas que ajudam a ilustrar o potencial desta nova forma de produzir energia nuclear. Através da agência Fusion 4 Energy, empresas e laboratórios portugueses garantiram, entre 2008 e 2020, 27,5 milhões de euros em contratos para a prestação de serviços ao ITER, o grande reator experimental que está a ser instalado em França. A estes contratos juntam-se a subcontratação de um total de 45 milhões de euros no mesmo período, após solicitação de consórcios que trabalham com o ITER. Bruno Soares Gonçalves, presidente do IPFN, recorda que estes valores não têm sequer em conta os contratos que são assinados diretamente com o ITER sem passar pela Fusion 4 Energy.

O Estado Português, provavelmente, terá de tomar uma posição sobre esta nova tendência, mas o presidente do IPFN recorda que, antes disso, há que ter em conta a posição comunidade internacional. “Ainda não há um enquadramento regulamentar específico (para a fusão nuclear)”, diz o presidente do IPFN, a partir dos laboratórios que ocupa no Instituto Superior Técnico.

Apesar da inexistência de regulamentação, o otimismo prevalece: “Com tanta gente a pensar nestas coisas e tanto dinheiro investido, todos este processo vai mesmo avançar”, conclui.