Sociedade

Operação Cartão Vermelho: Ministério Público investiga 55 negócios suspeitos de Luís Filipe Vieira

6 janeiro 2022 10:11

A investigação ao ex-presidente do Benfica cresceu e agora são 55 os negócios sob investigação por parte do Ministério Público e da Autoridade Tributária. Inspetor Paulo Silva classifica acordos com o Novo Banco como “surreais”

6 janeiro 2022 10:11

Um relatório da Autoridade Tributária (AT) revelado esta quinta-feira pela Sábado e pela CNN revela que o Ministério Público (MP) está a investigar a intervenção de Luís Filipe Vieira na compra ou venda de 55 jogadores que geraram comissões de 10 milhões de euros a quatro empresários: Bruno Macedo, Ulisses Santos, Isidoro Gímenez e Giuliano Bertolucci. Quando foi detido, em julho de 2021, o ex-presidente do Benfica era suspeito em três negócios mas a investigação terá apurado novos factos contra Vieira, o principal arguido da Operação Cartão Vermelho. No início, também só Bruno Macedo estava envolvido no caso

Numa escuta considerada “flagrante” pelo Ministério Público, Luís Filipe Vieira é apanhado numa conversa com o interlocutor não identificado a sugerir que o empresário Ulisses Santos tem de ser envolvido no negócio da compra do alemão Weigl ao Borussia Dortmund, que foi negociada diretamente com o clube alemão e acabou por gerar uma comissão de 2,5 milhões de euros supostamente pagos ao empresário – que não participou nas negociações – através de uma empresa offshore. O dinheiro reverteria depois para Vieira através da compra de imóveis a empresas por si controladas.

Giuliano Bertolucci esteve envolvido na compra de Pedrinho, do Corinthians, do Brasil, por 18 milhões de euros – entretanto, vendido ao Shakhtar, da Ucrânia, pelo mesmo valor. Bertolucci e Bruno Macedo terão recebido comissões de ambas as partes do negócio, Benfica e Corinthians. Três meses após o acordo e a repartição do valor das comissões, Giuliano Bertolucci comprou à sociedade White Walls um imóvel em Lisboa por três milhões e 950 mil euros. “Os factos sugerem uma correlação entre a transferência do jogador e a transação imobiliária realizado entre a sociedade White Walls e Giuliano Bertolucci, como eventual instrumento para a repartição de contrapartidas com Luís Filipe Vieira”, escreveu o procurador Rosário Teixeira.

O MP está a investigar os negócios que envolvem jogadores transferidos entre 2012 e 2020. Entre os nomes referidos no documento da AT estão Seferovic, Witsel, Talisca, Jonas, Weigl, Raúl de Tomás e Samaris, entre outros.
No relatório da AT divulgado pela Sábado, o inspetor Paulo Silva considera “surreal” um negócio entre Vieira, José António dos Santos – o “Rei dos Frangos” – e o Novo Banco, a parte vendedora, de quem Vieira é um dos grandes devedores e ao qual estava a comprar um pacote de imóveis.

Ainda segundo o relatório da AT, Álvaro Neves, jurista do Novo Banco, liderou o processo de venda de cinco imóveis, classificado como “surreal” pelo inspetor tributário. De acordo com a Sábado, a mulher, Raquel Morgado, recebeu 50 mil euros da sociedade Palpites e Teorias, uma empresa detida em partes iguais por Sara Vieira, filha de Luís Filipe Vieira, José António Santos e a mãe do empresário Avelino Carvalho.

Numa escuta telefónica entre José António Santos e Avelino Carvalho, o “Rei dos Frangos” confessa ter dito “à mulher” de Álvaro Neves, durante um jogo do Benfica, para ‘apertar’ com o marido. “[senão] nunca mais vem nada e você não tem emprego”, advertiu. José António diz que a mulher lhe disse para ficar descansado: o marido estava a trabalhar nisso e ia ‘”apertar’ com ele”.

A AT passou a pente fino todos os negócios de Luís Filipe Vieira e o envolvimento da família nas movimentações financeiras. Descobriu, por exemplo, que Sara Vieira, uma bióloga com um rendimento anual declarado de 37 mil euros, tem 22 imóveis em seu nome e sete contas bancárias, por onde circularam milhões de euros. Numa escuta, Vieira garante à filha que vai pressionar Jorge Mendes, agente de jogadores como Ronaldo, para doar 200 mil euros a uma ONG de defesa das tartarugas de São Tomé dirigida por Sara Vieira.

Foto: Getty