Sociedade

Operação da PJ: buscas em todo o país por suspeitas de tráfico de diamantes e ouro em missões militares

8 novembro 2021 9:10

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Suspeitos são, sobretudo, militares e estão a ser investigados desde o ano passado. MNE diz que imagem de Portugal não é afetada com esta operação. Denúncia partiu de comandante dos militares destacados na República Centro-Africana em 2019

8 novembro 2021 9:10

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da Polícia Judiciária está a fazer buscas no Regimento de Comandos e noutras instalações militares em cem locais em todo o país, por suspeitas de tráfico de diamantes e ouro em missões militares noutros países, como na República Centro-Africana.

A PJ esclarece que entre as cem buscas, noventa e cinco são domiciliárias e cinco não domiciliárias.

É a maior operação da Polícia Judiciária deste ano. "A ação desenvolveu-se na região de Lisboa, Funchal, Bragança, Porto de Mós, Entroncamento, Setúbal, Beja e Faro, contando com a participação de cerca de trezentos e vinte inspetores e peritos da Polícia Judiciária", refere esta polícia.

Há também dez mandados de detenção emitidos pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa.

"Está em investigação uma rede criminosa, com ligações internacionais, que se dedica a obter proveitos ilícitos através de contrabando de diamantes e ouro, tráfico de estupefacientes, contrafação e passagem de moeda falsa, acessos ilegítimos e burlas informáticas, tendo por objetivo o branqueamento de capitais", acrescenta a PJ.

Os suspeitos são, sobretudo, militares portugueses e estão a ser investigados desde o ano passado. Os militares terão usado aviões militares das missões humanitárias da ONU para traficarem os diamantes e ouro. São os chamados "diamantes de sangue", traficados de um país em conflito armado. Também haverá tráfico de droga envolvido.

Os suspeitos aproveitaram o facto de os aviões militares não estarem sujeitos a controlo alfandegário, aproveitando depois para vender os diamantes e o ouro no norte da Europa, nomeadamente em Antuérpia, na Bélgica.

O esquema envolve o branqueamento de capitais através da compra de bitcoins, a criptomoeda descentralizada, sendo um dinheiro eletrónico para transações ponto a ponto, sem controlo financeiro.

Entre os suspeitos há ex-militares que entretanto concorreram para as escolas da PSP e da GNR pelo que também foram alvo de buscas locais de formação em Torres Vedras, Queluz e Portalegre. A GNR já avançou que a PJ deteve um militar em formação proveniente das forças armadas.

Depois do caso do roubo das armas de guerra de Tancos este é um novo escândalo que envolve militares portugueses.

Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em reação à operação da Polícia Judiciária garantiu que esta não afeta a imagem internacional do país. "Se as autoridades judiciais entendem que há indícios que exigem investigações, essas investigações devem ser feitas. Vigora o princípio da separação de poderes, portanto, não tenho nada a dizer sobre investigações judiciais em curso", declarou aos jornalistas à margem de uma conferência em Coimbra.

Em comunicado, o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA) revela que em dezembro de 2019 foi reportado ao comandante da 6.ª Força Nacional Destacada (FND), na República Centro-Africana, o eventual envolvimento de militares portugueses no tráfico de diamantes. O comandante da FND relatou ao EMGFA a situação, tendo esta sido denunciada à Polícia Judiciária Militar (PJM) para investigação, acrescenta. A PJM fez a respetiva denúncia ao Ministério Público que nomeou como entidade responsável pela investigação a Polícia Judiciária.

“Além da denúncia imediata, o EMGFA mandou reforçar os procedimentos de controlo e verificação à chegada dos militares das FND e respetivas cargas. Os inquéritos militares e respetivas consequências estão pendentes das investigações em curso, com o cuidado de não interferir neste processo, ainda em segredo de justiça”, prossegue a nota. O EMGFA assegura que, “uma vez esclarecidas as responsabilidades, as Forças Armadas tomarão as devidas medidas sendo absolutamente intransigentes com desvios aos valores e ética militar”. E conclui que “as Forças Armadas repudiam totalmente estes comportamentos contrários aos valores da Instituição Militar”.

A SIC está num dos locais onde estão a decorrer as buscas, o Regimento de Comandos, em Sintra.