Sociedade

Aliu Camará: como o comando que perdeu as duas pernas ganhou a missão da sua vida - voltar a andar

26 dezembro 2020 22:00

Raquel Moleiro

Raquel Moleiro

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Aliu esteve duas vezes na República Centro-Africana. Aqui cumpria a sua primeira missão ao serviço das Nações Unidas, em 2017, na 2ª Força Nacional Destacada

tiago miranda

Em junho de 2019, o comando Aliu Camará perdeu as duas pernas num acidente na República Centro-Africana. Tinha 23 anos. O Expresso seguiu-o desde então, do Hospital das Forças Armadas ao bairro social da Amadora, da cadeira de rodas às próteses, dos primeiros passos às caminhadas banais. Nem ele consegue explicar a força que tem. Entrou numa missão: voltar a andar. E cumpriu. Até a lei vai mudar para que possa ficar no ativo

26 dezembro 2020 22:00

Raquel Moleiro

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Tiago Miranda

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Um solavanco e a vida de Aliu perdeu o chão. Assim do nada, no meio do nada, numa picada de terra vermelha na região oeste da República Centro-Africana (RCA), sem vivalma em redor, só árvores e um caminho feito lama, e a lama feita água, a esconder as bermas e o rasgão na floresta a que chamam estrada. Chovia há horas, com força e intensidade tropicais, e um nevoeiro cerrado dava ar de conto de fadas à tragédia. O comando, de 23 anos, era um dos cinco elementos que seguia no último humvee (HMMWV) de uma pequena coluna militar que se dirigia para a cidade de Bocaranga, onde a Força portuguesa estava projetada em missão, ao serviço das Nações Unidas. Regressavam de Bouar, de um rotineiro movimento logístico para ir buscar combustível e água. Faltavam 40 quilómetros, menos de um terço do caminho.

Camará era o apontador. Estava na torre do carro de combate branco, de pé, meio corpo dentro, meio corpo fora, as mãos a agarrar a metralhadora, virado de costas para o condutor, a montar segurança à retaguarda. “Só me lembro de sentir a viatura a fugir e depois um solavanco forte. Acho que bati com a cabeça na arma, desmaiei e devo ter sido cuspido”, recorda Aliu. Ao volante, o cabo Mendes tentava controlar o humvee de 1,25 toneladas numa descida em que o piso parecia barrado a óleo. Resvalou para a berma da esquerda, ainda funda, guinou para a direita para voltar à estrada, voltou, mas não mais conseguiu controlá-lo. Atravessou a picada, esteve em duas rodas pelo menos duas vezes, até que a viatura bateu contra umas árvores e imobilizou-se, de quatro.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.