Sociedade

Fuga no exame nacional de Português: fui um “bode expiatório”, diz professora acusada

30 janeiro 2020 14:05

O julgamento da antiga presidente da Associação de Professores de Português começou esta segunda-feira. Edviges Ferreira, que foi auditora do exame nacional de Português do 12° ano em 2017, está acusada de um crime de abuso de poder e outro de violação de segredo por funcionário, mas nega ter sido a autora da fuga de informação

30 janeiro 2020 14:05

“Isso eu não sei”. A ex-presidente da Associação de Professores de Português (APP), acusada de ser a autora da fuga de informação ocorrida em junho de 2017 sobre parte do conteúdo do exame nacional de Português do 12° ano, negou esta segunda-feira ter praticado qualquer violação do dever de confidencialidade a que estava sujeita enquanto participante na auditoria às provas de exame realizadas pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE). “Nunca divulguei nada”, insistiu. E garante ter sido vítima de perseguição por parte do anterior presidente daquele instituto.

Questionada pelo Ministério Público esta manhã no início do julgamento, que decorre no Campus da Justiça, sobre a partilha de conteúdos do exame antes da data da prova e que acabaram por se confirmar verdadeiros, Edviges Ferreira garantiu não fazer a mínima ideia de como isso aconteceu. Isto apesar de ter sido uma aluna a quem dava explicações que iniciou a partilha de informações. Numa mensagem áudio que circulou no whatsapp uma outra rapariga, amiga da explicanda de Edviges Ferreira, dizia ter sabido o que era preciso estudar.

Nessa mensagem, que circulou dias antes do exame, ouvia-se: “Malta, falei com uma amiga minha cuja explicadora é presidente do sindicato de professores, uma comuna, e diz que ela precisa mesmo, mesmo, mesmo só de estudar Alberto Caeiro e contos e poesia do século XX. Ela sabe todos os anos o que sai e este ano inclusive. Pediu para ela treinar também uma composição sobre a importância da memória e outra sobre a importância dos vizinhos no combate à solidão."

Saiu Alberto Caeiro e ambos os temas para a composição integravam as provas da primeira e segunda fases do exame, as tais que foram auditadas por Edviges Ferreira, na qualidade então de presidente da APP. A referência aos dois temas específicos foi a prova acabada para o IAVE de que a fuga era real. O então presidente do IAVE, Hélder Sousa, que será ouvido durante a tarde, fez uma participação à Inspeção-geral da Educação (IGE) e ao Ministério Público.

Fuga, perseguição e pressão

A convicção do Ministério Público é que esta informação teve de ser dada por Edviges Ferreira. A professora, que foi entretanto expulsa do ensino público na sequência do processo conduzido pela IGE, garante que assim não foi e a defesa lembrou que mais de 50 pessoas tiveram contacto prévio com os exames. Além disso, argumentou, que se a aluna em causa sabia o que ia sair na prova, como acabou por ter apenas 9,5 valores e uma pontuação muito baixa na avaliação relativamente a questões de conteúdo?

“Fui um bode expiatório para o então diretor do IAVE. Apontaram-me como alvo e fui vítima de perseguição”. O advogado de defesa de Edviges Ferreira foi mais longe e acusou a IGE de ter feito perguntas “capciosas” à explicanda da professora e de esta ter sido “altamente pressionada”, tendo sido chamada por cinco vezes à inspeção.

A declaração assinada

Qualquer pessoa que tenha contacto prévio com os enunciados de exame tem de assinar uma declaração de confidencialidade e também assegurar que não tem familiares próximos que vão realizar a prova em questão, nem tão pouco dar explicações a estudantes que a vão realizar.

A ex-presidente da APP dava explicações a pelo menos uma aluna na altura em que foi chamada ao IAVE para auditar as provas. E continuou a fazê-lo até à data da prova. “Quando assinei sabia que não era verdadeira a questão sobre não dar explicações. Mas pensei que com 40 anos de experiência, de integridade e correção e sabendo que iria sempre respeitar o dever de confidencialidade não ia valorizar a primeira. Assinei de consciência tranquila por causa desta avaliação. Mas estou muito arrependida por ter assinado”, explicou a ex-presidente da APP, acrescentando que era muito importante que a prova fosse auditada e que já não dava tempo para escolher outra pessoa da Associação.

O julgamento prossegue esta tarde.